Em causa o Convento de Santa Catarina da Carnota. Assembleia Municipal de Alenquer prepara-se para dar estatuto de interesse público ao projeto, apesar dos alertas da oposição em reunião de Câmara

Um promotor privado quer apostar num projeto hoteleiro para a Quinta do Convento de Santa Catarina da Carnota, no limite da União de Freguesias de Alenquer, entre a localidade de Refugidos e Santana da Carnota. A ideia não teve o melhor acolhimento por parte da oposição na Câmara de Alenquer dado que o imóvel se insere num local suscetível de elevado risco de incêndio. A ideia é criar um hotel de cinco estrelas no local, e aproveitar e requalificar o edificado histórico, cujos primeiros registos datam de 1400, tendo sido habitado o convento por padres franciscanos.

A Câmara Municipal decidiu conferir interesse público municipal ao projeto a tempo de ser votado, esta quinta-feira, dia 23 de fevereiro, em reunião da Assembleia Municipal, apesar de o alegado promotor, ser à partida, segundo os vereadores da oposição, um possível intermediário, sem currículo. A empresa chama-se Burgos e Latitudes LDA. Tem sede no Porto e segundo apurou o Valor Local não possui qualquer contacto telefónico ou de email visível, sendo administrada por Rui Fernando Soares Ferreira da Silva. Deste administrador não consta especial informação online para além de dois requerimentos junto da Câmara do Porto.

Para Nuno Henriques, PSD, seria imprescindível que o município que se prepara para em Assembleia Municipal dar o interesse público municipal a todo o projeto, salvaguardar-se de outra forma, “porque não sabemos quem são os sócios nem temos acesso ao seu currículo”. “Não temos uma carta de conforto por parte de quem integra este projeto, e a própria Burgos e Latitudes não possui no seu ramo de atividade qualquer inscrição como empresa de atividades turísticas, mas apenas de índole imobiliária”. Segundo o que o Valor Local apurou a Burgos e Latitudes LDA, segundo uma empresa de informação financeira online, “não demonstra indícios suficientes de atividade comercial”, “não apresentando registos nem de compras nem de vendas” recentes.

Para além disso o facto de estar o projeto inserido em zona de risco elevado de incêndio não deixa de ser assustador nas palavras do eleito social-democrata: “Imaginemos que num só dia estão lá nesse hotel 300 pessoas, entre funcionários, hóspedes e participantes num evento na sala de congressos. Que dispositivo temos nós montado, agora que nem sequer temos um comandante operacional, para fazer face a essa possibilidade?”, deixou a interrogação.

Em reunião de Câmara, a vereadora com o pelouro do Urbanismo, Dora Pereira, preferiu ressaltar o que considera ser a importância que este projeto pode significar para o concelho, embora tenha garantido que o mesmo terá de passar no crivo da Comissão de Defesa da Floresta, e que a questão do risco de incêndio não deixará de ser tida em linha de conta pelo município. Segundo a vereadora, este empreendimento que pretende combinar o património arquitetónico existente com a valorização do espaço poderá funcionar como “uma alavanca turística para o concelho”.

O projeto estende-se por uma área superior a 15 hectares, maioritariamente em zona agrícola não sujeita a área de Reserva Agrícola Nacional (RAN). Possui nove edifícios implantados e arruamentos em calçada. Entre aquilo que já se encontra no local, e o que se pretende edificar estará o hotel de cinco estrelas, com 46 quartos, contando ainda com apartamentos para alojamento, conversão de um lagar de azeite, e um auditório para eventos e palestras. Quanto ao convento em si “representará o maior exemplar histórico devendo ser preservado e restaurado com área de serviços, restaurante, e a própria componente de contemplação de arte sacra”, deu a conhecer Dora Pereira.

O vereador da CDU, Ernesto Ferreira, também demonstrou a sua preocupação sobretudo pelo pouco conhecimento existente sobre a Burgos e Latitudes LDA. Nuno Henriques questionou ainda – “Que dignidade vem dar a este projeto com vertente cultural, uma empresa que nem sabemos quais são os sócios, nem qual o seu currículo. Já vimos muitos atentados ao património feitos nesta base”.

Pedro Folgado, presidente da Câmara, referiu que o estatuto de interesse público municipal apenas significa o início do processo, até porque “os nossos serviços são rigorosos”, e no caso de existirem entraves ou salvaguardas que necessitem de ser atendidas, o mesmo pode voltar à estaca zero, enfatizando por isso que estamos perante “um longo processo”, em que outras entidades externas terão de dar igualmente parecer. Se obtiver o estatuto de interesse público municipal ainda que numa fase inicial a empresa pode beneficiar de isenções fiscais no município, e não deixa de ser uma espécie de Via Verde para obtenção de mais valias do seu interesse junto de organismos da Cultura e do Ambiente, nomeadamente, em relação ao Instituto de Conservação da Natureza e Florestas ao permitir-se construção em zona de elevado risco de incêndio.

Segundo o Valor Local apurou à hora de fecho deste jornal, integra ainda o capital da empresa, João Cox, que vive em S. Paulo no Brasil. Segundo informação no Linkedin do mesmo é especialista em oportunidades de capital de risco, assessoria corporativa, fusões e aquisições. Tendo sido CEO de várias empresas é de acreditar que seja este brasileiro, eleito em 2008 como um dos 100 brasileiros mais influentes e eleito empresário do ano pela revista “Isto É”, o elemento verdadeiramente interessado no imóvel se se vier a comprovar que não se trata de mais um intermediário. Tem escritório em Lisboa, a Cox Empreendimentos, na mesma sede de uma empresa de advogados, a Correia Afonso, Archer e Associados.

Um espaço alvo de saque e de vandalismo ao longo dos anos

Depois de ter sido habitada pelo clero nos primeiros séculos de existência, o complexo foi transformado em casa nobre, no século XIX, e sofreu várias tentativas para se tornar um espaço turístico nos anos mais recentes. Desocupado desde o final do século XX e com o processo de insolvência da empresa que o adquirira em 2013, o convento tem sido sucessivamente saqueado ao longo dos anos.

Em 2013, a Polícia Judiciária e O Museu de Arte Antiga deram conta da destruição abrupta de quase todas as peças de barro e do saque a que o antigo mosteiro estava a ser sujeito. O museu resgatou as peças: algumas partes de figuras em barro, e o conjunto escultórico que compunha o retábulo do altar da igreja do convento, dedicado ao casamento místico de Santa Catarina. Este último foi recolhido em múltiplas partes, já fragmentado e vendido em leilão, e restaurado na medida do possível pelos serviços do museu. Em 2016 a empresa que tutela o complexo doou o que restava deste retábulo ao museu. Fonte: “Contadores de Histórias”

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