A notícia foi um balde de água fria para a população de Vila Nova da Rainha. A possibilidade de a linha sul do TGV passar a escassos metros das suas habitações fez soar todas as campainhas, e segundo os moradores ouvidos pelo Valor Local, não estão descartadas formas de luta. O comboio de alta velocidade pode passar a cerca de 46 metros das vivendas da Urbanização Corte das Freiras, ou até menos. O presidente da junta de Vila Nova da Rainha, Bruno Borda de Água, esteve na sessão de apresentação do traçado por parte da Infraestruturas de Portugal (IP), em finais de março, e espera que seja possível desviar a linha para 300 metros a sul da localidade, como de resto foi sugerido por outros autarcas do concelho na mesma reunião.

Para Bruno Borda de Água não há sistema de insonorização ou túnel que aguente “uma proximidade como aquela que está desenhada em relação à vila”, o que no seu entender pode tornar a vida insustentável na freguesia. A deslocalização da linha em cerca de 300 metros pode no seu entender atenuar o impacto do projeto, embora não deixe de estar presente. Nas proximidades da futura linha de TGV moram cerca de 200 pessoas. O autarca ficou preocupado tendo em conta que já existe um projeto, embora a IP tenha referido que ainda se encontra em fase de estudos.

Linhas a azul como o futuro traçado do TGV. IP não contemplou no projeto a realidade das torres de muito alta tensão da fotovoltaica da Cerca

Carlos Teixeira, morador na freguesia, refere que recebeu a notícia com um misto de preocupação e de humor. Também eleito na assembleia de freguesia, esteve na reunião com a Infraestruturas de Portugal (IP) e convidou “os senhores da Infraestruturas de Portugal” a deslocarem-se a sua casa para imaginarem o cenário futuro. O morador não tem dúvidas – “Vamos ter aqui um monstro a 11 metros de altura”, referindo-se ao viaduto do TGV que vai, na sua opinião, ter um impacto visual forte na freguesia. Carlos Teixeira adianta ainda que o projeto elaborado pela IP não contemplava a existência das linhas de muito alta tensão que passaram a fazer parte da paisagem da localidade, devido ao projeto da Central Fotovoltaica da Cerca, o que na sua opinião apenas prova que houve falta de estudo e de trabalho no terreno, até porque “vão conflituar com toda a certeza com o projeto em altura do TGV”. Carlos Teixeira não tem dúvidas de que toda a população se vai mobilizar em torno desta nova frente de batalha. “O desenvolvimento é preciso, mas não é a qualquer preço”, lembrando ainda que a população já sofre bastante com o ruído da Nacional 3.

André Caixeiro, outro dos vizinhos, opina que a obra em perspetiva vai ser um grande fator de perturbação também a nível da movimentação de terras, tendo em conta “que as casas já sofrem uma grande trepidação devido à Nacional 3, e vão sofrer ainda mais danos, podendo começar as paredes a estalar e os prédios a ceder”. Para além disso, já imagina a sua vida num inferno com os comboios a passar a todas as horas do dia e pela madrugada fora.
O morador conta que se ouve os comboios que passam a 500 metros, e mesmo que a linha recue 300 metros pode tornar-se um incómodo, sendo que para contornar esta questão a insonorização deve ser tratada convenientemente. A ideia é que o traçado seja redesenhado para lá das linhas de muito alta tensão numa zona erma entre a localidade e Casal Pinheiro já no concelho de Alenquer, onde à partida não causará incómodo às populações daquela área.

O morador José Carlos Valete também se encontra desgostoso, porque “este projeto vai cortar as pernas aos moradores”. “Todos temos o coração nas mãos. Até a nível dos animais vai ter impactes porque temos aqui várias espécies protegidas”.

Já a casa de José Formigo, na Estrada da Várzea, fica mesmo no atravessamento da possível linha férrea. O presidente da junta mostra preocupação quanto ao caso deste morador que ao Valor Local se afirma desolado – “Chegaram ali, inventaram a linha e já está. Não quero nada disto ao pé da minha porta. Já basta as linhas de alta tensão que puseram aqui recentemente”.

Durante a reunião com os autarcas, a IP referiu que que a deslocalização da linha poderia ser difícil dada a existência de uma captação de água da EPAL, encostada à linha ferroviária do Norte, contudo a mesma encontra-se desativada, pelo que Silvino Lúcio, presidente da Câmara de Azambuja, já assegurou em reunião do executivo que vai promover um conjunto de reuniões para que a IP articule a passagem do traçado para uma localização mais distante da pretendida.

O traçado do TGV, comboio de alta velocidade, foi dado a conhecer pela Infraestruturas de Portugal numa reunião que juntou o executivo municipal, oposição e presidentes de junta do concelho de Azambuja, e logo as campainhas soaram quando se percebeu que a linha construída em viaduto “pode passar a cerca de 10 metros das habitações de Vila Nova da Rainha”, estas foram as contas feitas por Rui Corça, vereador da oposição PSD, tendo em conta a proximidade a um estabelecimento de pneus. A opção de traçado apresentada deixou os autarcas apreensivos.

Noutras partes do concelho, é previsível que a linha de TGV passe por trás da CLC, sendo que a opção naquela zona mais a norte da área do município azambujense é que atravesse junto à Torre Bela ou vire a poente/nascente em Alcoentre. Já na zona mais a sul desenrola-se entre a Quinta da Alegria e a Nacional 3 com o viaduto a ser construído em zona de Lezíria.

Segundo o que o Valor Local apurou o documento entrará em Avaliação Ambiental Estratégica a breve trecho, pelo que o tempo está a contar desde já para que Azambuja leve para a frente as suas pretensões. O projeto do TGV no que ao concelho de Azambuja diz respeito faz parte do troço Soure- Carregado e deverá arrancar até 2026. A construção de uma nova Linha ferroviária de Alta Velocidade, ligando as duas áreas metropolitanas do Porto e de Lisboa, é um projeto previsto no Plano Nacional de Investimentos 2030 (PNI2030).

A concretização final do projeto vai permitir uma redução do tempo de viagem entre as duas principais cidades do país, das atuais 2h49 do serviço Alfa Pendular para apenas 1h15 numa viagem sem paragens.

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