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Paulo Afonso: “Carta aos Socialistas”

Caras e Caros Camaradas

Há uma verdade eleitoral que não se pode negar, nem fingir que não existe, ignorando-a, ou tão-só, afirmar que o que aconteceu foi um acidente de percurso e que, em breve, tudo voltará a ser como dantes!

Quero-vos dizer que não será assim e que durante algum tempo continuaremos a ter a percepção de que a «a Terra e o Céu mudaram de lugar».

Contudo, não podemos deixar que tal sensação, que essa ideia, que este novo modo de ver o mundo que nos rodeia se instale, se consolide e, ao criar raízes profundas, se possa perpetuar.

O desânimo, a desesperança e o desalento não são bons conselheiros! Importa pois, olhar para o futuro, não como um passado a revisitar, mas como um novo caminho para andar! Importa pois, fazer da causa pior, o fermento para a causa melhor!

Mas, antes de avançar, convém contextualizar, da seguinte forma: a Direita em Portugal ganhou as eleições antecipadas de 10 de Março último, ganhou de forma clara, se entendermos que tal é a junção, a soma do resultado da Direita Democrática  –  AD (PSD/CDS/PPM) –  que para muitos foi «poucochinho», com o resultado da Direita Radical (CHEGA), que aumentou, em muito,  a sua representação parlamentar.

“Os resultados eleitorais foram a evidência clara de um voto de protesto contra a Governação, contra o Sistema, diria, também, contra o modo de funcionamento das nossas Instituições – esta última nota dever-nos-á levar a reflectir! .”

No campo da Esquerda Democrática, o PS perdeu a maioria absoluta que obtivera em Janeiro de 2022. O apelo ao voto útil permitiu consolidar o PS na liderança da oposição, mantendo-se como principal alternativa ao futuro Governo da AD.

Por conseguinte, não foi suficiente para uma vitória, nem mesmo ao somar-se os votos da Esquerda Verde (LIVRE), da Extrema Esquerda (BE) e da Esquerda Conservadora (CDU – PCP/PEV), ajudaria a consolidar, igualmente, um «pólo das esquerdas» que pudesse suplantar qualquer maioria de Direita.

Enfim, a aritmética eleitoral não mente e não pode ser desvirtuada!

Os resultados eleitorais foram a evidência clara de um voto de protesto contra a Governação, contra o Sistema, diria, também, contra o modo de funcionamento das nossas Instituições – esta última nota dever-nos-á levar a reflectir! – .

Todavia, não foi um sinal de total reconhecimento do principal partido da oposição e da coligação que encabeça.

“A politica e os partidos políticos democráticos não podem  ser um «ninho de cucos»  e funcionar numa lógica de nicho.”

Em abono da verdade dos factos, a vitória da AD, foi uma vitória de Pirro! O resultado obtido foi mais ou menos igual, aliás, só um pouco acima do que fora obtido nas eleições de Janeiro de 2022 –  de sublinhar que o PSD concorria sozinho e não coligado com o CDS!

Destaca-se, igualmente, numa primeira reflexão, que a fórmula da Direita Democrática unida tem saído, sempre, vencedora, foi assim em 1980 (AD),  em 2015  (PáF) e, agora, em 2023.

Importa esclarecer que, apesar, de vencerem as eleições em 2015, a oposição à Esquerda no Hemiciclo tinha um maior número de Deputados e em virtude disso conseguiu encontrar uma plataforma de entendimento, de modo, a gerar um acordo de incidência parlamentar, no quadro das regras constitucionais e democráticas em vigor, o que permitiu o PS formar Governo e conduzir, com sucesso, uma legislatura até ao fim.

No entanto, o resultado de agora é diferente e como se diz por um voto se ganha e por um voto se perde!

Assim com base no score eleitoral das legislativas deste ano, como segunda reflexão, pode-se concluir que há um ponto de interrogação sobre os partidos ditos tradicionais que tem particular incidência sobre a sua forma de organização, de mobilização e de construção de linhas programáticas. Há um falhanço completo na atração de novas gerações, de novos protagonistas, de novos conteúdos e de novas pontes com a sociedade civil.

 “O PS terá de escolher entre ser a casa comum das esquerdas ou casa-mãe da esquerda progressista!”

Não podemos deixar que este lapso se repita, se consolide como prática habitual e permita que os extremos tomem conta da moderação, da esperança, da novidade e da renovação.

A política e os partidos políticos democráticos não podem  ser um «ninho de cucos»  e funcionar numa lógica de nicho.

Os partidos catch-all em Democracia são abrangentes, intergeracionais e interclassistas; são partidos como o PS e o PSD que ao posicionarem-se, originariamente, quer à Esquerda e  quer à Direita não deixam de dialogar entre si – sobre matérias fundamentais para o País, para a Europa e para o Mundo –  e de chegar ao centro politico e ao maior número possível de pessoas, simpatizantes, militantes e eleitores.

Apesar de a abstenção, e ainda bem, ter diminuído nesta última ida às urnas,  convém perceber se o comportamento eleitoral registado foi em jeito de manifestação de descontentamento ou se foi um sinal claro e um sintoma evidente da mudança de paradigma do nosso sistema politico, com o surgimento de uma «tripolizaração» politico-partidária e o fim do bipartidarismo tradicional. Por outras palavras, se esta mudança veio para ficar!

Pode-se, ainda, dar como exemplo algumas das razões  que nos levaram a esta situação que tem tanto de impasse como de desilusão, a saber: 1)  quase uma década, foram perto de 9 anos de Governo PS, que naturalmente, têm o seu desgaste, geram descontentamentos sectoriais que vão alimentando o desagrado geral; 2) o impacto tremendo  que a inflação resultante da Guerra na Ucrânia teve na vida de todos nós, nos preços, nos salários e no custo do crédito à habitação; 3) os «episódios telenovelescos» dos casos e  dos casinhos, também, potenciados pela bolha politico-mediática,  que envolveram o Governo e alguns dos seus principais protagonistas ; 4) uma Presidência da República mais interessada em «reinar do alto da sua aura sidonista»  do que usar a sua magistratura de influência para ajudar a encontrar soluções; 5) a constante e a hipermediatizada «judicialização moral» da política e dos fenómenos inorgânicos de representação sindical.

Por fim, como terceira reflexão o PS  terá de efectuar, ao mesmo tempo, que se prepara para as Eleições Europeias de Junho próximo, correndo o risco, também, de a prolongar para além dessa data, um momento de introspecção e de análise que não se cinja só aos órgãos de Direcção Nacional, mas que tenha, mais do  que um efeito bottom-up, que seja um  verdadeiro movimento de baixo para cima, de auscultação e diálogo a 360 graus, que envolva o Partido Socialista em toda a sua extensão.

O PS terá de escolher entre ser a casa comum das esquerdas ou casa-mãe da esquerda progressista!

O PS não pode deixar de reflectir sobre isto, perder tempo a fazê-lo será ganhar tempo para o futuro, caso contrário, poderá estar a caminhar para um processo de irrelevância histórica, ser abandonado pelo seu eleitorado, ver o esboroar da sua militância activa e deixar de contar para as grandes linhas de orientação estratégica do País e de fazer sentido, como força politica reformadora, na vida dos nossos concidadãos.

O PS não pode deixar, no ano em que se comemoram, os 50 anos do 25 de Abril, que a deriva autoritária, populista e extremista de uma certa visão do mundo ancorada numa Direita trauliteira e radical vingue como o «novo normal»  e o principio do «fim da História».

O PS tem de continuar a ser um farol de esperança para todos em todas as gerações!

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1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns pela excelente análise.
    Declaração de interesse: Sou assumidamente de Esquerda e não sou votante/apoiante/militante do PS.
    Concordo genericamente com a análise, em particular com a segunda reflexão, no entanto considero que não é um lapso a dificuldade de atrair novas gerações, novos protagonistas e conteúdos. É mesmo um problema estrutural do PS, alavancado quer pela inépcia partidária de estar permanentemente fechado à dita sociedade civil, quer pela perceção generalizada que a Direita Radical cavalgou de que é um polvo com todos os seus tentáculos espalhados por todo o Estado.
    Para os próximos tempos o PS terá que voltar a posicionar-se no espaço central, na medida em que considero que não conseguirá, nem crescer à esquerda (o Bloco está firme e tem outro eleitorado, o Livre irá solidificar pela visão estratégica que tem e a CDU tenderá a manter a curva descendente sem transição de votantes para o PS), nem voltar a conquistar indecisos/abstencionistas. O problema é que o PSD poderá vir a conquistar esse espaço, se fizer uma governação mais central e continuar a estabelecer um afastamento com o Chega.
    O PS corre o risco de se tornar um partido pouco relevante. Sim. Por pura e exclusivamente culpa própria.

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