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O desafio das famílias que convivem com a doença mental dos que mais amam

No último mês foi notícia o desaparecimento de duas pessoas na nossa região, o Daniel Sousa e a Beatriz Pinto. Ele com 48 anos, ela com 20. O Daniel sofre de esquizofrenia atípica e vive na Castanheira do Ribatejo. A Beatriz Pinto, segundo o avô à nossa reportagem, ainda não tem um diagnóstico, mas sofre de grande instabilidade emocional e tem uma consulta marcada para a especialidade de Psiquiatria no Hospital de Vila Franca de Xira. No espaço de pouco mais de uma semana regressaram a suas casas, mas o susto para as famílias foi total. Dias de desespero e de angústia. Como vivem os familiares a doença mental dos seus entes queridos e que ajuda lhes é prestada foi o que procurámos saber nesta reportagem, também com a ajuda da Federação Portuguesa das Associações das Famílias com Experiência de Doença Mental e o enquadramento do diretor de serviço de Psiquiatria no Hospital de Vila Franca de Xira, Gustavo Jesus.

José Pinto é o avô da Beatriz. Foi com ele falámos quando o Valor Local lançou a notícia do desaparecimento da neta. Era um homem com o coração nas mãos preocupado com toda a situação. A neta estava a morar em casa dos avós em Olhalvo quando decidiu ir embora sem informar a família e sem dar notícia do seu paradeiro. O divórcio, a dada altura, entre o filho de José Pinto, acredita este avô, e a ex-nora “também não contribuiu para a estabilidade emocional” da Beatriz. Foi a primeira vez que a neta desapareceu. Com muita frequência apresenta quadros de indiferença perante os outros. “A avó chama-a e ela nem responde”. Depois de ter regressado a casa começou a trabalhar num armazém de vinhos na parte do engarrafamento. José Pinto espera que a neta estabilize.

José Pinto acredita que é positivo que “pessoas com o mesmo quadro” da sua neta “possam estar ocupadas a nível profissional”. Atualmente a neta está a viver na casa do namorado que reside também em Olhalvo. “Pessoas como a minha neta deviam ser acompanhadas desde cedo por um médico especialista. O problema é que nem sempre é acessível ir a um psiquiatra. Ela tem uma consulta marcada para abril para o hospital de Vila Franca que foi marcada por uma assistente social”. Tendo em conta os últimos acontecimentos, José Pinto considera que a consulta devia ser mais cedo. “Ela já foi acompanhada numa psiquiatra particular em Lisboa e no hospital de Vila Franca. Foi à primeira consulta. Passaram-lhe os medicamentos, mas não sei se ela os tomou”. Aqui reside um dos principais dramas dos familiares, o facto de nem sempre a medicação ser vista como vital para o bem-estar e para a saúde mental de quem é portador deste tipo de quadros. Há quem descure a necessidade de nunca deixar para trás os fármacos que no caso da doença mental são um fator determinante.

José Pinto é um homem presente no acompanhamento da saúde da neta

José Pinto acredita que o facto de estar ocupada agora num trabalho a pode ajudar, mas lamenta que tenha deixado para trás um curso profissional que estava a frequentar numa escola em Arruda dos Vinhos. Apesar de tudo diz que não é difícil lidar com o caso da neta porque o amor supera tudo. “Se não gostasse dela não estava agora a falar consigo. Podia não querer saber, depois dela ter aparecido”, confidencia. Durante os cinco dias em que a neta esteve desaparecida “praticamente não dormi”. “Foi uma agonia grande e só quem passa por uma situação destas é que pode falar”, acrescenta. A neta nunca saiu de Olhalvo. Estava na casa do novo namorado. Cinco dias depois bateu à porta da casa dos avós “a chorar e a pedir desculpa”. Antes disso, o avô procurou-a em várias localidades da região, sem saber que estava em Olhalvo. Durante esses dias nunca foi vista na localidade. Como acontece neste tipo de casos, sucedem-se os pseudo-avistamentos. Telefonaram ao avô a dizer que a tinham visto em Torres Vedras, Alenquer, Alverca, Cardosas em Arruda dos Vinhos. “Dei muitas voltas nesta zona”.

“Espero que com a medicação certa e com o acompanhamento talvez consiga acabar o curso. No dia da consulta em abril vou com ela para ver o que se passa.”

Entretanto José Pinto foi conhecer a casa onde a neta está a viver com o namorado. Os avós são a família mais próxima. A mãe vive em Inglaterra e o pai não tem muito contacto com a filha, que acabou por não dizer muito sobre as razões do desaparecimento. “Espero que com a medicação certa e com o acompanhamento talvez consiga acabar o curso. No dia da consulta em abril vou com ela para ver o que se passa. Tendo em conta que ainda faltam alguns meses, já tentei ir com ela a um médico de clínica geral mas ele disse que o caso da Beatriz só com um especialista”. José Pinto fala sem constrangimentos do caso da neta, acredita que já houve mais estigma em relação à doença mental. “Infelizmente há muita gente com problemas psicológicos, talvez porque as famílias também não ajudam. Há cada vez mais desunião. O apoio das famílias é essencial para essas pessoas”.

Família de Daniel tenta lidar com a esquizofrenia atípica da melhor forma

Hugo Silva e Miquelina Santos relatam o drama desta família

Daniel Santos é informático de profissão. Tem 48 anos e nos últimos 15 anos já desapareceu cerca de três vezes. Da última vez esteve ausente 11 dias. Foi em janeiro último. Vive uma vida mais ou menos autónoma e consegue estar minimamente equilibrado quando toma a medicação tendo em conta o seu diagnóstico de esquizofrenia atípica ou indiferenciada, uma das menos graves dentro da classificação geral da doença. Ainda assim os familiares vivem com o coração nas mãos, se bem que a mãe de Daniel, Miquelina Santos, prefere não atribuir uma carga muito pesada ao quadro. Conta que se foi habituando a viver com a doença do filho. Encontrámo-nos para esta reportagem com Miquelina Santos e com o cunhado de Daniel Santos, Hugo Silva.

Daniel Santos sempre teve alguns problemas de sociabilidade até tendo em conta que foi associado ao seu quadro a síndrome de Asperger. No trabalho é cem por cento dedicado ao que faz, com uma capacidade que “excede a de uma pessoa normal”, enfatiza o cunhado. A medicação tem como uma das contraindicações causar sonolência e o facto de ter sido advertido recentemente no trabalho, dado que não era do conhecimento da empresa o seu quadro clínico, fez Daniel abandonar a medicação, o que esteve na origem, acreditam os familiares, do seu desaparecimento. Recorde-se que Daniel Santos desapareceu durante uma semana em janeiro. Foi encontrado bem de saúde e sem problemas aparentes num supermercado do Algarve. Levou dinheiro consigo, e hospedou-se em vários hotéis. O telemóvel desligou-o assim que saiu da Castanheira. Graças à comunicação social e a um apelo em massa nas redes sociais foi possível detetar o paradeiro do Daniel.

Daniel não convive com outras pessoas para além da família e não expressa afetos, “embora seja muito apegado à mãe”

É no trabalho que Daniel se realiza “até porque tem uma capacidade de fazer as coisas superior à de um ser humano normal”, conta Hugo Silva. A sogra acrescenta: “Ele já esteve em algumas das principais empresas internacionais, em Seattle no Estados Unidos, Alemanha, França e escolhe trabalhar pelo projeto não pelo vencimento. Nunca esteve desempregado”. Contudo as dificuldades sociais “são evidentes”. O cunhado conta que Daniel não convive com outras pessoas para além da família e não expressa afetos, “embora seja muito apegado à mãe”. Hugo Silva considera que Daniel Santos deveria ser mais autónomo, embora viva sozinho, se bem que numa casa ao lado dos pais. Miquelina Santos não discorda, mas prefere estar sempre que pode junto do filho e fazer-lhe as refeições. Não consegue controlar se o filho toma ou não a medicação que no caso dos quadros de esquizofrenia tem um efeito muito positivo no controle da doença. “Quando está medicado fica equilibrado, caso contrário diz que ouve vozes na cabeça”, acrescenta Hugo Silva.

Foi através do alerta massivo sobre o desaparecimento do Daniel nas redes sociais que se chegou ao paradeiro do informático, “que levou dinheiro e não cometeu nenhum tipo de ilícito” na sua aventura pelo Algarve. “Ainda hoje não consegue explicar por que razão desapareceu. Não disse a ninguém para onde ia”, conta Hugo Silva. Das outras vezes que desapareceu, Daniel não levou carteira “e quando o gasóleo acabava regressava a pé no sentido contrário”, descreve.

“Imagine o que é um filho desaparecer e ao fim de 11 dias alguém dizer que está ao pé do Daniel. É um acumular de angústia causada em todos nós. O Hugo e a minha filha estavam uma pilha de nervos. Nem quero imaginar a vida das pessoas que nunca mais voltam a ver os familiares que desaparecem por quaisquer motivos. É uma coisa terrível”.

Hugo Silva acrescenta que uma das grandes dificuldades neste tipo de casos é que as autoridades judiciárias agem muito lentamente, “como por exemplo o acesso à conta bancária para percebermos se havia ou não movimentos durante aqueles dias para se poder alertar em tempo real, foi algo que não aconteceu”. Os tribunais foram lentos e dificultaram, no seu entender, o trabalho das forças de segurança. “Bastava o despacho do juiz de instrução criminal que nunca foi emitido”.

Daniel Santos é acompanhado por pedopsiquiatra e psiquiatra há vários anos. Já quanto à família e à necessidade de suporte face ao problema do familiar, Hugo Silva considera que a sogra deveria ser mais bem elucidada por profissionais sobre como lidar com o filho, “porque por vezes o coração de mãe fala mais alto”. O estigma associado à esquizofrenia ainda é grande, “sobretudo porque se associa à violência, o que não acontece no caso do Daniel que sofre da atípica. Ele é educado, não reage mal, não deu nas vistas durante os 11 dias em que esteve desaparecido”.

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