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Os desafios da Escola no Carregado multicultural

A diversidade linguística no Carregado foi o mote para uma conversa com duas professoras do ensino básico, Lucília Gonçalves e Rosália Batista, que lecionam no Centro Escolar do Carregado. Confessam-nos que os desafios vão além dessa realidade, como o facto de muitos alunos serem oriundos de outros países e praticamente não falarem o português. O ensino de hoje e de antigamente, a relação com os encarregados de educação, os currículos escolares no que à educação sexual diz respeito, a inteligência artificial, as casas de banho mistas foram alguns dos temas aflorados e que estão na ordem do dia no dia a dia das escolas.

Lucília Gonçalves é professora há 33 anos e concorda que o ensino, ao contrário do que muitos dizem, “tem-se adaptado às mudanças na sociedade e às exigências” e “aos próprios alunos que hoje são muito diferentes daqueles que foram” os seus primeiros alunos. Mesmo quando estamos a falar de crianças entre os cinco e os dez anos, estas chegam à escola fortemente influenciadas pelas novas tecnologias e esse é também um dos desafios. Rosália Batista, professora há 24 anos, concorda que hoje “o ensino é mais desafiante”. Não é que os alunos cheguem ao ensino básico a saber ler e escrever, mas parece que já vêm com uma espécie de “chip” formatado às novas tecnologias. Nem todos trazem telemóvel para a escola, mas são crianças que fora do ambiente escolar passam muitas horas à frente dos computadores em casa. O controlo parental, dizem as professoras, não acontece em todos os casos. “Temos pais que controlam o telemóvel e o que os filhos assistem, mas noutros casos não há restrições de espécie alguma”, acrescenta Lucília Gonçalves.

Rosália Batista até dá o exemplo de um seu aluno que fala em português do Brasil, não porque seja oriundo daquele país, mas porque assiste a muitos conteúdos brasileiros na internet. “Foi uma surpresa quando percebi que era uma criança portuguesa filha de pais portugueses”. “Nós hoje temos de competir com muitos estímulos externos à escola”, acrescenta Lucília Gonçalves. “Quando comecei a dar aulas ainda nos anos 90, a escola era a novidade, era aquilo que acrescentava tudo, mas hoje as crianças quando nos chegam já trazem muita informação, e experienciaram muita coisa, e nem todas são boas”. A alienação parental é uma preocupação para estas professoras.

Estas professoras têm na sua sala de aula diversas nacionalidades estrangeiras com alunos ucranianos, angolanos, cabo-verdianos, brasileiros, venezuelanos. Apesar de existir uma comunidade proveniente da região do subcontinente indiano (Índia, Paquistão, Bangladesh, Nepal e Butão) no Carregado ainda não é muito evidente o fenómeno do reagrupamento familiar, e consequentemente a possibilidade de os filhos frequentarem as escolas locais. As duas professoras contam que ainda não têm alunos desses países, mas temem que mais cedo ou mais tarde cheguem à escola. “Essa á uma realidade já muito presente no concelho de Santarém e os nossos colegas dão-nos conta de muitas dificuldades porque estamos a falar de miúdos que não sabem falar português nem inglês e o que se consegue obter deles em termos de rendimento escolar é muito pouco”, referem. Em muitas escolas vai funcionando o google tradutor. Os alunos estrangeiros estão bem integrados nas escolas do Carregado, concordam- “Nós também os recebemos muito bem, particularmente as nossas crianças”. As duas professoras lembram que as crianças portuguesas “vivem desde cedo esta experiência de várias nacionalidades existentes aqui no nosso Carregado, que como diz o slogan é uma terra de encontros”.

A existência de várias nacionalidades no agrupamento de escolas do Carregado é uma experiência enriquecedora e também ela desafiante, até porque mesmo no caso do português do Brasil “estamos a falar não só de uma pronúncia diferente, mas também da construção frásica que é distinta da nossa”. “Falam de outra maneira em casa, e acaba por ser muito complicado, porque nos trabalhos de casa, os pais ensinam de uma maneira e nós de outra”. Na sua maioria “os pais estão despertos para as diferenças, mas nem todos acham isso importante”, o que acaba por ser, por vezes, desapontante para estas professoras. “Temos de proteger o nosso português”, aludem. Na opinião de Lucília Gonçalves, o Português sofreu ainda com o acordo ortográfico em que cada um escreve como quer, ora de acordo com o antigo, ora com o mais recente “e isso não é bom”. “Todos deviam seguir uma regra única”, acrescenta Rosália Batista. Ainda no que toca aos alunos brasileiros notam “que se esforçam no contexto de sala de aula para se aproximarem do nosso português, mas lá fora no recreio voltam ao modo de falar do Brasil, o que não deixa de ser engraçado”.

E na relação com os encarregados de educação há muitas diferenças consoante a sua origem no globo. Lucília Gonçalves explica: “Posso dizer que os pais de crianças oriundas do leste da Europa são muito presentes na escola, e exigentes com o percurso escolar dos filhos, querem sempre mais e melhores resultados escolares; no caso de pais vindos de países africanos de expressão portuguesa têm uma grande humildade perante a escola, mas não têm o mesmo sentido da exigência e do rigor em comparação com os de Leste. Já quando passamos para o continente americano, Brasil e outros países vizinhos, os pais são mais liberais”, diz a sorrir enfatizando que como “em tudo há exceções”.

Bohdana é uma imigrante ucraniana que também aprendeu a falar melhor Português com os filhos

Bohdana Iakiviuk é ucraniana, tem 28 anos, e veio para Portugal com 18 anos. Tem três filhos e a do meio frequenta o Centro Escolar do Carregado. Fala a língua portuguesa com relativa facilidade e encontrou no nosso país e no Carregado um porto de abrigo. Em 2012, a Ucrânia já vivia na antecâmara da invasão da Crimeia que aconteceu dois anos depois, e esta imigrante decidiu que seria melhor rumar a outro país. Veio com o marido e os filhos. Desde o primeiro dia que vive no Carregado. Conta que ter os filhos a frequentar a escola portuguesa acabou por ajudá-la na aprendizagem da língua. As professoras também realçam que muitos alunos falam melhor o Português do que os pais por estarem no ensino. Na sua opinião a escola em Portugal tem uma grande qualidade e isso vê-se no facto de existirem os chumbos, algo que não acontece na Ucrânia, “em que os alunos passam de ano mesmo com más notas”. “Concordo que as crianças que não obtenham aproveitamento escolar, reprovem”. À distância vê a atual guerra com muita preocupação. Ainda tem no país, o pai que não quer sair da Ucrânia mesmo nas atuais condições. Lucília Gonçalves é a professora da filha de Bohdana, a Vitória “uma menina muito independente, que dá gosto ensinar”. “É muito recompensador poder ensinar estas crianças de outros países, apesar de algumas contrariedades que possam ir surgindo. A escola está sempre de braços abertos para os alunos independentemente da nacionalidade”, acrescenta Rosália Batista.

Educação sexual na escola e casas de banho mistas

Uma das matérias que tem sido mais controversa diz respeito à educação sexual nas escolas e as críticas quanto à forma como certas matérias são apresentadas como desajustadas, ou de forma hipersexualizada para crianças em idades demasiado jovens ainda. Lucília Gonçalves refere que o que se estuda nestas idades são conteúdos relacionados com o corpo humano e a reprodução em Estudo do Meio. “Sinto-me magoada porque ensinamos com rigor científico e sem tabus. Temos meninas que entram no seu período menstrual antes dos 10 anos, aqui na escola, e que é importante desmistificar medos para que se sintam bem com o seu corpo e principalmente respeitadas pelos meninos, porque todos fazem parte do processo”, diz Lucília Gonçalves. A colega acrescenta – “São apresentadas imagens e textos completamente adequados a estas idades”. Bohdana acrescenta que a sua filha já sabe que dentro de um ou dois anos pode ser menstruada e que isso também lhe foi transmitido em contexto de sala de aula.

A ideia de casas de banho mistas merece nota negativa por parte das professoras, porque “mais parece que estamos perante a ditadura das minorias, e é algo que não faz sentido nenhum”. O Parlamento aprovou o direito à autodeterminação de género nas escolas em dezembro do ano passado, em que a existência de casas de banho mistas permite que alguém que não se identifique com o seu sexo de nascença, passe a usar a casa de banho do sexo oposto. “Se temos de ter respeito pelo diferente, este também deve ter respeito pelo igual”, enfatiza Rosália Batista. “Estamos a cair num exagero e no ridículo”, concretizam.

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