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Grande Tribuna com Paulo Colaço – “Combater o populismo da corrupção”

Muitos portugueses acham que os políticos são todos corruptos. E alguns até acham que só os políticos são corruptos.

Uma boa parte dos portugueses pensa que somos todos muito sérios, muito trabalhadores e muito produtivos. O problema do país são os cerca de seis mil que escolheram ser políticos.

Portanto, somos nove milhões, novecentos e noventa e quatro mil portugueses muito qualificados, trabalhadores e honestos, mas o problema são aqueles seis mil…

Ora, que grande disparate!

E trago três mensagens para tentar explicar o meu ponto.

Primeira mensagem: o político não é um paraquedista que desce das nuvens e se vai sentar na cadeira do poder. Nada disso: o político não é paraquedista, ele é alpinista! Ele não desce: ele sobe!

O político emerge, desponta, estica o pescoço, percorre caminho.

Como diria Mário Soares, “um político assume-se”.

Como em todo o lado. Só fica presidente da comissão de pais aquele que se chega à frente. Só fica professor catedrático aquele que estuda muito. Só fica à frente na corrida quem se esforça mesmo.

Repito: o político não desce, como o paraquedista – ele sobe, como o alpinista!

E sobe precisamente a partir da sociedade.

O político vem da mesma rua que nós, do mesmo bairro, da mesma cidade; fez connosco a primeira comunhão, estudou na mesma escola, frequenta a mesma praia, senta-se ao nosso lado na missa.

Podemos não o reconhecer, mas ele está lá. Pode ser um secretário de estado, um deputado, um presidente de junta.

E, como pessoa, o político não é diferente.

Ri-se das mesmas piadas que nós, emociona-se com o mesmo, sabe de cor as mesmas músicas, e ao fim do dia só quer ir para casa tirar os sapatos.

Ou seja: o político português é um português como qualquer outro. Tal como o político nórdico é um nórdico como outro qualquer.

Na verdade, os países têm os políticos que conseguem produzir.

Povos com determinada maneira de ser vão parir políticos com essa mesma maneira de ser.

Há sociedades que criticam quem não paga impostos. Mas os portugueses dizem: “Esperto é ele”. E depois tentamos perceber como é que ele fez para não pagar impostos…

A minha segunda mensagem é muito ligada à primeira: jamais pensem – jamais pensem – que o vereador que vai passar férias com verbas da câmara é diferente do rececionista que imprime o trabalho do filho na impressora do patrão. A malandrice é a mesma: a diferença está no valor do estrago.

A senhora que usa o telefone do serviço para ligar à tia do Brasil; o funcionário que leva para casa uns clips do economato sem ninguém ver; o porteiro do hospital que entrega uma senha a um amigo para ele passar à frente na fila; aquele amigo que fica com a fatura da mesa toda e não apenas do valor que ele pagou; aquela vez que usámos um site pirata para assistir a um jogo do nosso clube.

Enfim, tudo isto é o caldo de cultura de onde vem um político.

A terceira mensagem é que os países com menos corrupção na sociedade são precisamente os países com menos corrupção na política.

É que há na política a mesma variedade de pessoas que existe no próprio meio social. No tribunal, no restaurante, na repartição, nas caixas de um supermercado, existem os bons, os maus e os médios.

Não há na política mais incompetentes ou desonestos do que numa oficina de carros. Estão na mesma proporção.

E depende de nós sermos mais competentes, mais honestos, mais fiscalizadores daquilo que se passa na sociedade. Se todos melhorarmos, os políticos serão melhores.

Não! Os políticos não são todos corruptos: uns são bons, outros maus, capazes ou incapazes, trabalhadores ou preguiçosos na mesma proporção da sociedade.

Para terminar, conto uma história passada comigo. Uma vez  apanhei um táxi para ir para a Assembleia da República. O taxista, talvez apenas para meter conversa, disse “os políticos são todos ladrões”. Eu respondi que isso também se dizia dos taxistas e perguntei-lhe se ele me iria roubar. Não houve mais conversa até São Bento.