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Grande Tribuna com Paulo Colaço: “Temos todos que Melhorar”

Há uns vinte anos ouvi uma história engraçada. Tinha havido um temporal numa província italiana e afetou os agricultores. Para os compensar, o governo criou um subsídio.Os agricultores tinham de dizer qual fora a área afetada. Quanto maior a área afetada, mais subsídio recebiam. No final do processo, alguém somou a área que os agricultores declararam e esse somatório era o triplo de toda a província atingida pelo mau tempo.

Cada um tire a sua conclusão…

E, bem a propósito, chegou-nos ao ouvido o processo “Maestro”, que envolve um jornalista, por quem tenho muita estima, e um comentador desportivo.

Todos são inocentes até prova em contrário, mas as muitas investigações sobre o uso de fundos europeus têm de preocupar toda a gente.

No décimo terceiro episódio deste podcast eu falei da corrupção como um fenómeno global, contrariando a ideia de alguns patetas que acham que só os políticos são corruptos.

Vou voltar a algumas das minhas palavras: não se deve pensar que o presidente de junta que vai de férias com o carro da freguesia é diferente do rececionista de hotel que imprime um trabalho escolar do filho na impressora do patrão. A malandrice é a mesma: a diferença está no valor do prejuízo.

O empregado que usa o telefone do serviço para ligar à tia do Brasil; a senhora que leva para casa uns clips do economato sem ninguém ver; o porteiro do hospital que entrega uma senha a um amigo para ele passar à frente na fila; aquela pessoa que fica com a fatura da mesa toda num jantar de grupo; e nós mesmos, naquela vez que vimos um jogo de futebol num site pirata.

Todos já fizemos uma vez ou outra uma coisa destas e não damos conta de que é uma chico-espertice.

O pior é que nada disto é muito diferente dos agricultores que em Itália declararam uma área afetada muito superior à área realmente afetada. A diferença está apenas no valor do lucro para uns e no valor do estrago para outros.

Importa todos termos consciência de que os fundos europeus e nacionais não são apenas atribuídos a pessoas conhecidas ou a grandes empresários: são também dados a pessoas comuns, com quem nos cruzamos no nosso dia-a-dia.

Termino dizendo que se todos melhorarmos a base, o topo será melhor.

Até para a semana.