A estreia do programa Diz Que Disse, na Rádio Valor Local, ficou marcada por um debate intenso e plural sobre política internacional, nacional e local, com Flávia Pimenta e Jorge Andrade, sob moderação de Miguel Rodrigues.
O programa arrancou com a análise da crise na Venezuela, num momento em que Nicolás Maduro foi presente a tribunal nos Estados Unidos após a sua detenção. Flávia Pimenta manifestou preocupação com a intervenção externa liderada pelos EUA, sublinhando os riscos para o direito internacional, a soberania dos Estados e o impacto no povo venezuelano, defendendo que qualquer transição política deve ser conduzida pelos próprios venezuelanos. Destacou ainda a necessidade de garantir a proteção da numerosa comunidade portuguesa residente no país. Jorge Andrade concordou que a queda de um regime ditatorial pode ser encarada como positiva, mas considerou discutível o método utilizado, alertando para o regresso de uma lógica de potências a “policiar o mundo” e para os precedentes que este tipo de atuação pode criar a nível internacional.
No plano nacional, o debate centrou-se na mensagem de Natal do primeiro-ministro. Flávia Pimenta criticou o tom da intervenção, considerando infeliz e descontextualizada a comparação com a chamada “mentalidade Cristiano Ronaldo”, num país onde grande parte da população enfrenta dificuldades económicas e um custo de vida crescente. Jorge Andrade discordou desta leitura, defendendo que a mensagem apontou para a necessidade de maior produtividade e responsabilizando anos de políticas públicas pelo atual desequilíbrio entre salários, impostos e criação de riqueza.
A segunda parte do programa trouxe a política local para o centro da conversa, com destaque para a subida das tarifas da água no concelho de Azambuja. Jorge Andrade criticou o aumento acima da inflação, apontando responsabilidades ao executivo municipal e sublinhando que a abstenção do vereador da CDU permitiu a aprovação da medida. Flávia Pimenta reconheceu não ter conhecimento técnico aprofundado sobre o processo, mas defendeu a legitimidade das decisões do executivo, sublinhando que a população poderá avaliar politicamente essas opções.
Seguiu-se o debate em torno do caso do eurodeputado Bruno Gonçalves e da polémica relacionada com o número de assessores, reacendida por uma reportagem recente. Flávia Pimenta centrou a sua intervenção nos comentários dirigidos às assessoras, denunciando comportamentos sexistas e a persistência de preconceitos de género na política, defendendo maior respeito e dignidade no debate público. Jorge Andrade repudiou esse tipo de comentários, embora tenha relativizado a leitura de parcialidade da reportagem e questionado a utilização de recursos públicos.
O programa encerrou com a análise da entrada de António Torrão, da CDU, como vereador remunerado no executivo municipal de Azambuja. Jorge Andrade questionou a coerência entre o discurso assumido em campanha, onde foi afastada a hipótese de acordos com o Partido Socialista, e a solução política encontrada logo no início do mandato, sublinhando a ausência de uma explicação clara aos eleitores sobre os contornos e objetivos desse entendimento. Foi ainda recordado que esta não é uma situação inédita, uma vez que, no mandato anterior, também uma vereadora da CDU integrou o executivo em circunstâncias semelhantes, garantindo maioria ao PS. Flávia Pimenta defendeu a legitimidade dos acordos políticos em contextos sem maioria absoluta, considerando que a integração de um vereador a tempo inteiro pode ser entendida como uma solução de estabilidade governativa, embora reconhecendo que o esclarecimento político junto dos eleitores é sempre desejável.
A primeira edição do Diz Que Disse ficou assim marcada por um confronto de ideias direto, plural e sem filtros, prometendo novos debates na próxima emissão, agendada para o dia 19.




