O primeiro episódio do programa Maioria Absoluta, apresentado por Sílvia Agostinho, marcou a estreia de um novo espaço de debate político na Rádio Valor Local, reunindo Cláudio Lotra e António Jorge Lopes para uma análise aprofundada da atualidade política nacional e local. O programa arrancou com um tom vivo e frontal, assumindo desde o início a ambição de ir além do comentário imediato, cruzando leitura política, contexto histórico e impacto territorial.
No primeiro programa do Maioria Absoluta, na Rádio Valor Local, o debate arrancou com a situação na Venezuela e a captura de Nicolás Maduro, um acontecimento que, segundo os comentadores, expôs de forma clara as contradições do discurso político e mediático internacional. A análise centrou-se na tensão entre a invocação do direito internacional, a soberania dos Estados e a leitura política conveniente feita por várias potências globais.
Para Cláudio Lotra, a intervenção dos Estados Unidos não pode ser analisada de forma ingénua. Longe de qualquer motivação humanitária ou democrática, a ação norte-americana teria como principal objetivo o acesso aos recursos naturais venezuelanos, em particular o petróleo, violando princípios fundamentais do direito internacional, a Carta das Nações Unidas e até procedimentos constitucionais internos dos próprios Estados Unidos. A ausência de validação pelo Congresso e pelo Conselho de Segurança da ONU abre, segundo o comentador, precedentes perigosos para futuras intervenções globais.
Foi também sublinhado que a alegada “alegria do povo venezuelano” se manifesta sobretudo fora do país, entre comunidades emigrantes, já que no interior da Venezuela o regime continua em funções, agora liderado por uma presidência interina alinhada com os interesses de Washington. A oposição vencedora das eleições, nomeadamente Edmundo González, acabou por ser afastada da equação política internacional, revelando que a mudança de regime nunca foi uma prioridade real.
António Jorge Lopes enquadrou ainda o tema numa perspetiva geoestratégica mais ampla, defendendo que o direito internacional assenta numa lógica de força criada após a Segunda Guerra Mundial, onde as grandes potências atuam com impunidade. A fragilidade atual das Nações Unidas e do seu Conselho de Segurança reforça um cenário global cada vez mais dominado por três blocos: Estados Unidos, Rússia e China, deixando a Europa num papel secundário e defensivo.
O debate continuou com as eleições presidenciais, num momento em que as sondagens revelam uma fragmentação invulgar do espaço político e um cenário de grande incerteza. Um dos consensos mais fortes da conversa foi a convicção de que, pela primeira vez em décadas, a realização de uma segunda volta é praticamente inevitável. Ainda assim, ficou claro que não há garantias sobre quem disputará esse momento decisivo, face ao empate técnico entre vários candidatos e à volatilidade do eleitorado. Foi sublinhada a pulverização de candidaturas à direita, fenómeno pouco habitual neste tipo de eleições, contrastando com a tradicional dispersão à esquerda. Cláudio Lotra defendeu que algumas candidaturas de menor expressão acabam por ter um efeito estratégico relevante, ao influenciarem o equilíbrio global e beneficiarem, indiretamente, nomes mais bem posicionados.
Presidenciais, sondagens e candidatos mais bem posicionados para passarem à segunda volta
António Jorge Lopes destacou, por sua vez, a natureza unipessoal das eleições presidenciais, afastando a ideia de que estas devam ser lidas como um prolongamento direto das disputas partidárias. Nesse contexto, foram analisados apoios cruzados e declarações públicas que mostram como eleitores e dirigentes partidários tendem a valorizar perfis individuais, mais do que alinhamentos ideológicos rígidos.
A segunda parte do programa centrou-se nas eleições autárquicas e nas mudanças registadas em vários concelhos da região. A quebra de ciclos longos de governação, como em Benavente e Sobral de Monte Agraço, e a ascensão do Chega a segunda força política em alguns territórios, foram apontadas como sinais de transformação das expectativas dos eleitores. A limitação de mandatos e as alterações sociológicas das populações foram identificadas como fatores decisivos para estas mudanças, ao mesmo tempo que se reconheceu a dificuldade de muitos novos executivos em estabilizarem a governação nos primeiros meses de mandato.
Um dos momentos mais marcantes do programa foi a discussão sobre as chamadas “linhas vermelhas” nos acordos políticos locais. António Jorge Lopes defendeu que o pragmatismo acaba por se impor nas autarquias, lembrando que entendimentos entre partidos com diferenças ideológicas profundas já fizeram parte da prática política portuguesa noutras fases. A ideia de que o Chega ocupa, no atual contexto, um espaço de protesto semelhante ao que o PCP representou noutras décadas gerou um dos debates mais vivos do programa.
A figura do Interesse Público Municipal em Azambuja
O tema do Interesse Público Municipal, com particular incidência em Azambuja, trouxe o debate para o plano do ordenamento do território e da governação local. Foi criticada a utilização recorrente desta figura como solução excecional que se tornou prática comum, defendendo-se a criação de critérios orientadores claros que evitem decisões casuísticas ou percecionadas como favorecimentos. A demora excessiva na revisão dos Planos Diretores Municipais e a falta de recursos técnicos nas entidades responsáveis foram apontadas como entraves estruturais à boa gestão do território.
Hasta Pública dos terrenos da antiga Marinha
Já na reta final, o programa abordou a decisão da Câmara de Vila Franca de Xira de avançar para uma hasta pública de parte dos terrenos da antiga Marinha, adquiridos em 2017. A opção foi enquadrada na incapacidade financeira do município para executar sozinho o projeto e na necessidade de garantir transparência, solvabilidade dos investidores e uma resposta concreta ao problema da habitação.
O fecho do Maioria Absoluta ficou marcado pelas sugestões culturais e pela escolha das figuras do ano. António Jorge Lopes recomendou a leitura de “Diplomacia”, de Henry Kissinger, e apontou Luís Montenegro como figura nacional de 2025. Cláudio Lotra sugeriu o filme “Manobras na Casa Branca” e escolheu Marcelo Rebelo de Sousa como figura do ano, pelas dificuldades e instabilidade associadas ao final do seu mandato presidencial.




