O Município de Alenquer estima em cerca de 14 milhões de euros os prejuízos provocados pelas recentes intempéries, um valor que resulta de um levantamento técnico detalhado realizado ao longo das últimas semanas e que reflete a dimensão dos danos nas infraestruturas públicas do concelho. Estradas municipais destruídas ou fortemente degradadas, taludes colapsados, muros de suporte danificados, edifícios públicos afetados e falhas na rede de abastecimento de água e saneamento compõem um cenário que o presidente da Câmara Municipal de Alenquer, João Nicolau, considera particularmente exigente, tanto do ponto de vista financeiro como operacional.
Segundo o autarca, os danos mais significativos concentram-se na rede viária municipal, onde várias estradas ficaram intransitáveis ou com circulação condicionada devido a abatimentos de pavimento, deslizamentos de terras e destruição de infraestruturas de suporte. Em muitos casos, não se trata apenas de reparações superficiais, mas de intervenções estruturais profundas que implicam reconstrução integral de troços e reforço de estabilidade de encostas e muros.
Também edifícios municipais foram afetados, incluindo equipamentos escolares e infraestruturas de utilização pública. A escola primária de Aldeia Gavinha é um dos exemplos mais evidentes, ficando fora de serviço devido aos danos registados, obrigando o município a encontrar soluções alternativas para garantir o normal funcionamento das atividades letivas. A estes prejuízos juntam-se danos em outros equipamentos municipais que necessitam agora de intervenção técnica especializada.
A rede de abastecimento de água e saneamento foi igualmente afetada de forma significativa, com várias dezenas de ruturas registadas em diferentes pontos do concelho. Estas ocorrências obrigaram à implementação de soluções provisórias e a intervenções técnicas urgentes para garantir o restabelecimento do serviço. O custo estimado para repor esta infraestrutura ronda um milhão de euros, sendo esta uma das áreas que exige maior investimento imediato. Apesar de a rede estar concessionada, trata-se de uma infraestrutura municipal, o que obriga a uma articulação entre o município, o concessionário e as entidades competentes para garantir a reposição integral das condições de funcionamento.
Perante este cenário, João Nicolau reconhece que o município terá de mobilizar um conjunto alargado de recursos financeiros e técnicos para assegurar a recuperação. O financiamento poderá passar por fundos comunitários, pelo orçamento municipal e, eventualmente, pelo recurso a mecanismos de crédito, num processo que exigirá uma gestão rigorosa e uma resposta faseada ao longo do tempo.
Apesar do impacto significativo nas infraestruturas públicas, o presidente da autarquia sublinha que a principal preocupação continua a centrar-se nas famílias afetadas. “Temos pessoas que perderam as suas casas e outras com danos muito graves. Há situações em que as habitações ficaram totalmente arruinadas e essas pessoas precisam de apoio concreto e urgente. Essa é a nossa maior preocupação neste momento”, afirma.
Foi neste contexto que o município solicitou a declaração de estado de calamidade, um estatuto que permitiria acesso a instrumentos de apoio mais robustos e a um enquadramento mais favorável na mobilização de fundos e na articulação com seguros e outras entidades. No entanto, o concelho ficou de fora dessa classificação, uma decisão que o autarca lamenta e que considera limitadora da capacidade de resposta.
“Esse enquadramento permitiria outro tipo de apoio às populações e às empresas, facilitando o acesso a financiamento e acelerando os processos de recuperação. Era uma medida importante face à dimensão dos prejuízos que registámos”, refere João Nicolau, acrescentando que o município continua a aguardar esclarecimentos adicionais sobre os mecanismos disponíveis.
O anúncio do novo programa PRR-PT surge agora como uma possibilidade de enquadramento para os municípios afetados que ficaram fora do estado de calamidade. Ainda assim, o presidente da Câmara alerta que os apoios previstos poderão revelar-se insuficientes face à dimensão real dos danos. Em particular, os apoios destinados à habitação particular, que poderão atingir os 10 mil euros, não são suficientes em muitos dos casos identificados no concelho, onde os prejuízos ultrapassam largamente esse valor.
Também o tecido empresarial local foi afetado, com várias empresas a registarem prejuízos e constrangimentos operacionais. O município está a acompanhar o levantamento de danos em articulação com a Comunidade Intermunicipal do Oeste, num processo que permitirá avaliar o impacto económico global e identificar as necessidades de apoio.

João Nicolau garante que o município estará disponível para apoiar as empresas no acesso aos mecanismos de recuperação e financiamento, reconhecendo que a recuperação económica será um dos principais desafios dos próximos meses. Para o autarca, será essencial garantir condições para que o tecido empresarial recupere rapidamente, evitando impactos prolongados na economia local.
Apesar da gravidade da situação, o presidente da Câmara destaca que algumas infraestruturas estruturantes contribuíram para mitigar os efeitos das intempéries. A intervenção realizada no rio de Alenquer revelou-se particularmente importante, evitando que o centro urbano fosse diretamente afetado pelas cheias e prevenindo danos potencialmente muito mais graves.
O município ativou o Plano Municipal de Emergência e implementou um conjunto de medidas preventivas e de resposta, em articulação com a Proteção Civil e outras entidades. A resposta coordenada e a colaboração da população contribuíram para reduzir o impacto das intempéries e garantir a segurança das pessoas.
O foco está agora na recuperação e na mobilização de todos os recursos disponíveis para repor as infraestruturas afetadas, apoiar as famílias e garantir a retoma da atividade económica, num processo que exigirá esforço continuado e acompanhamento próximo nos próximos meses.
Memória das cheias reforça preparação e resposta da população
A memória das grandes cheias continua profundamente presente em Alenquer, onde os relatos de episódios dramáticos marcaram várias gerações. Numa grande reportagem publicada pelo Valor Local em novembro de 2017, por ocasião dos 50 anos das cheias de 1967, foram recolhidos testemunhos que retratam o impacto devastador desses acontecimentos e as dificuldades enfrentadas pela população.
Décadas depois, essa memória coletiva continua a influenciar a forma como a comunidade reage a situações de risco. Durante as recentes intempéries, foi visível uma resposta preventiva significativa por parte da população, nomeadamente na retirada de viaturas das zonas ribeirinhas e na proteção de estabelecimentos comerciais.

O Plano Municipal de Emergência foi ativado e prevê um conjunto de medidas específicas para situações de cheia, incluindo ações de sensibilização, definição de locais de apoio e mecanismos de coordenação. A Proteção Civil e os serviços municipais realizaram alertas diretos junto da população e dos comerciantes, permitindo uma resposta mais organizada e eficaz.
Esta preparação e a consciência do risco contribuíram para reduzir o impacto das cheias nas zonas urbanas e demonstram que a experiência acumulada ao longo dos anos tem reforçado a capacidade de resposta do concelho.
Intervenção no rio de Alenquer evitou danos mais graves
A intervenção realizada no rio de Alenquer há cerca de 15 anos revelou-se determinante para evitar consequências mais graves durante as recentes intempéries. A obra permitiu reforçar as margens e melhorar as condições de escoamento, reduzindo o risco de transbordo no centro urbano.
Segundo o presidente da Câmara Municipal, esta intervenção tem demonstrado a sua eficácia ao longo dos anos e voltou a provar a sua importância durante o episódio mais recente. Apesar de o rio ter extravasado em zonas agrícolas a montante e a jusante, manteve-se dentro das margens no centro da vila, evitando inundações em áreas mais sensíveis. João Nicolau considera que esta infraestrutura desempenhou um papel essencial na proteção da população e na mitigação dos danos, evitando um cenário potencialmente muito mais grave.

Sobral de Monte Agraço: “Foram dias de angústia, mas também de enorme solidariedade”
O concelho de Sobral de Monte Agraço atravessou semanas particularmente exigentes na sequência das tempestades que atingiram a região, com impactos sociais, ambientais e económicos significativos. A presidente da Câmara Municipal, Raquel Soares Lourenço, fala de “dias muito duros”, marcados por sucessivas ocorrências, cortes de serviços essenciais e um sentimento generalizado de incerteza entre a população.
“O Município foi severamente afetado por condições meteorológicas adversas que exigiram uma resposta acrescida à escala municipal”, afirma. Mas, apesar dos danos materiais relevantes, a autarca faz questão de sublinhar o essencial: “Conseguimos cumprir a missão fundamental da Proteção Civil — proteger e socorrer. O bem maior, a vida humana, foi salvaguardado.”
Os momentos mais críticos foram vividos no terreno, quase sem pausas. “Tivemos abatimentos de vias, quedas de árvores, muros e postes, danos em equipamentos associativos e habitações, galgamentos de linhas de água e inundações, tudo em curtos intervalos de tempo”, recorda. A estas ocorrências juntaram-se, numa primeira fase, falhas no fornecimento de energia elétrica e, depois, interrupções prolongadas no abastecimento de água.
Foi precisamente a crise no abastecimento que mais marcou a vida quotidiana dos sobralenses. “As sucessivas roturas nas condutas sob responsabilidade da EPAL afetaram a totalidade do concelho”, explica Raquel Soares Lourenço. “O impacto foi direto na vida das pessoas, nas escolas, nas unidades de saúde, nas instituições de solidariedade social e nas empresas.”
Durante dias, famílias organizaram-se para gerir baldes, garrafões e reservas improvisadas. A Câmara e as Juntas de Freguesia mobilizaram camiões-cisterna para distribuir água pelas localidades. “Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para mitigar os impactos junto da população. Mas a resolução estrutural extravasa a competência municipal. A infraestrutura é da responsabilidade da EPAL.”
A presidente admite que a falta de informação clara agravou a ansiedade. “Muitas vezes a informação disponibilizada foi insuficiente, sobretudo quanto aos prazos previsíveis para reposição do serviço. Isso aumenta a sensação de insegurança nas pessoas.”
Perante o cenário, o Município e as Juntas subscreveram uma carta aberta dirigida à EPAL, exigindo um relatório técnico detalhado sobre as causas das roturas e um plano de intervenção estrutural devidamente calendarizado. “Precisamos de respostas técnicas e de soluções concretas. Não podemos permitir que uma situação semelhante se repita.”
As intempéries deixaram também famílias desalojadas. Em Pêro Negro, nove pessoas que residiam em habitações pré-fabricadas ficaram sem condições para permanecer nas suas casas. “A nossa equipa de ação social identificou soluções temporárias, recorrendo à rede familiar e social.” Houve ainda deslocações preventivas em Pé do Monte e na Barqueira, envolvendo dez cidadãos. “Em alguns casos foi possível recorrer a habitação própria; noutros, assegurámos realojamento temporário numa unidade de turismo rural.”
Para Raquel Soares Lourenço, estes momentos foram particularmente marcantes. “Quando estamos perante pessoas que veem a sua casa afetada, sentimos o peso da responsabilidade. Não falamos apenas de infraestruturas, falamos de vidas, de histórias, de memórias.”
Face à sucessão de danos provocados pela saturação dos solos, o Município ativou, a 3 de fevereiro, o Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil. “A ativação permitiu reforçar a capacidade operacional, mobilizando meios humanos e equipamentos adicionais, incluindo recursos externos ao concelho.”
A presidente faz questão de enaltecer o papel dos agentes de Proteção Civil. “Os trabalhadores do Município e das Freguesias, os Bombeiros Voluntários de Sobral de Monte Agraço e os militares da GNR revelaram um sentido de missão absolutamente exemplar.” A Câmara aprovou por unanimidade um voto de louvor a estes profissionais. “Foram dias de trabalho ininterrupto, de enorme dedicação e espírito de sacrifício.”
A articulação com entidades regionais e nacionais foi igualmente determinante. “Conseguimos reforçar meios sempre que necessário, quer através do apoio de associações humanitárias da Sub-região do Oeste e da Sub-região de Lisboa, quer mediante a colaboração do Exército Português.”
Apesar da dimensão dos danos, o concelho não foi incluído no estado de calamidade decretado pelo Governo. A autarca revela que, ainda antes da publicação do decreto, foi enviado um dossier ao gabinete do Primeiro-Ministro com registo fotográfico e identificação das principais necessidades. Posteriormente, foram remetidas listagens atualizadas aos ministérios competentes.
“Considero que reuníamos critérios para integração, com fundamento nos danos registados”, afirma. No entanto, sublinha que mais importante do que o enquadramento formal é a concretização de apoios. “A prioridade é garantir que os recursos chegam com urgência.”
A aprovação das linhas gerais do programa Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência surge como uma oportunidade. “Esta decisão constitui uma janela de oportunidade para financiar o investimento necessário em Sobral de Monte Agraço.”
Ao nível dos prejuízos materiais, os danos mais relevantes registaram-se na rede viária municipal, com deslizamentos de taludes, colapsos de pavimentos e instabilidade das plataformas rodoviárias. “A mobilidade concelhia foi significativamente afetada”, refere.
A crise deixou lições claras. “Precisamos de reforçar a nossa resiliência face a situações extremas. É urgente concluir a revisão do Plano Municipal de Emergência e investir na conservação preventiva da rede viária e na modernização da rede de abastecimento de água.”
Raquel Soares Lourenço reconhece que ainda existem vulnerabilidades, mas assegura determinação política para as enfrentar. “As vulnerabilidades estão identificadas e este Executivo está determinado a priorizar investimentos que não podem continuar a ser adiados.”
À população, deixa uma mensagem emotiva. “Quero expressar a minha profunda solidariedade com cada pessoa, instituição e empresa que enfrentou dias difíceis. Quero agradecer a todos os que se mobilizaram para apoiar familiares, vizinhos e amigos. A resiliência e a solidariedade demonstradas são um exemplo do espírito do nosso concelho.”
E conclui com um compromisso: “Estamos a trabalhar incansavelmente para restaurar serviços, reparar danos e garantir que, perante futuras adversidades, Sobral de Monte Agraço estará mais preparado, mais resiliente e mais seguro.”

Doze dias de isolamento e milhões em prejuízos no Cartaxo
Cartaxo viveu um dos episódios mais exigentes dos últimos anos com o isolamento de quatro localidades ribeirinhas durante doze dias consecutivos, num cenário que o presidente da Câmara Municipal, João Heitor, não hesita em classificar como “das situações mais graves que tivemos de enfrentar”.
A subida das águas do rio Tejo e da Vala Real levou ao corte dos acessos rodoviários a Porto de Muge, Valada, Reguengo e Palhota entre 4 e 15 de fevereiro, afetando diretamente cerca de 600 residentes, para além de trabalhadores, empresas, instituições sociais e toda a atividade económica associada à freguesia de Valada.
“Foi a situação que mais recursos exigiu nestes dias e aquela que mais prejuízos causou, com especial destaque para o impacto na agricultura e nas empresas que laboram na freguesia de Valada”, afirma o autarca. “Mas o impacto é muito mais abrangente.”
Desde 28 de janeiro, com a passagem da tempestade Kristin, os serviços municipais registaram 30 derrocadas de edifícios, inúmeras quedas de postes de eletricidade e comunicações e danos significativos em várias infraestruturas. Cerca de 30 por cento do concelho ficou sem energia elétrica, falha que arrastou também cortes no abastecimento de água em muitos pontos do território.
Estradas submersas, vias fragilizadas pela persistência da chuva, habitações e edifícios danificados, instalações empresariais afetadas, maquinaria e culturas destruídas e equipamentos municipais comprometidos compõem o retrato de um território sob forte pressão. A fluvina de Valada foi totalmente destruída, num dos símbolos mais visíveis dos estragos.
“Os prejuízos serão de muitos milhões de euros, quer em infraestruturas e equipamentos públicos, quer em vias de comunicação e propriedade privada”, sublinha João Heitor.
Apesar do isolamento físico das localidades ribeirinhas, o município garante que bens essenciais, cuidados de saúde e deslocações inadiáveis foram assegurados ao longo de todo o período crítico. O presidente da Câmara destaca o trabalho de coordenação prévio entre serviços municipais, juntas de freguesia de Valada e Vale da Pedra, Bombeiros Municipais do Cartaxo, Serviço Municipal de Proteção Civil, forças de segurança, unidade de saúde, instituições de solidariedade social e serviço municipal de ação social.
“Desde o primeiro ao último dia, a população teve acesso aos bens necessários. Conseguimos manter as consultas e os cuidados médicos na extensão de saúde e assegurar que as deslocações inadiáveis fossem possíveis”, afirma.

Em Valada manteve-se permanentemente uma equipa dos Bombeiros Municipais, apoiada por um veículo de combate a incêndios e uma ambulância de socorro. O Centro de Dia de Valada continuou a apoiar os mais idosos e o serviço municipal de ação social acompanhou as situações de maior vulnerabilidade, prevenindo carências e mitigando o isolamento.
Uma das soluções mais marcantes foi a utilização do transporte ferroviário no troço entre a Ponte do Reguengo e o Morgado. A disponibilização de uma automotora por parte da CP permitiu manter ligações essenciais, tanto para trabalhadores como para alunos.
“O transporte ferroviário permitiu agilizar o transporte de bens essenciais em maior escala e com maior segurança, sobretudo para apoiar o trabalho dos nossos bombeiros, que fizeram centenas de travessias de barco”, explica João Heitor. “Permitiu também que pessoas saíssem da freguesia para trabalhar e que as crianças e jovens mantivessem o acesso às aulas.”
O autarca destaca o empenho da CP numa altura em que a empresa enfrentava constrangimentos noutras regiões do país, sublinhando o sentido de serviço público demonstrado. A operação implicou uma articulação estreita entre juntas de freguesia, Rodoviária do Tejo, serviços municipais de educação e agrupamento de escolas, garantindo transporte até aos apeadeiros e continuidade do ano letivo.
No plano da emergência médica, o município assegura que todas as situações foram acompanhadas, incluindo evacuações sempre que necessário. “Mantivemos, em permanência, uma equipa dos bombeiros em Valada. Toda a resposta de emergência médica foi assegurada, mesmo nos casos em que houve necessidade de evacuação.”
Os momentos de maior preocupação concentraram-se nos diques de Valada, onde ocorreram ressurgências provocadas pela pressão da água do lado do rio e pela saturação dos solos. “Houve momentos de incerteza. As ressurgências deixaram-nos alerta e preocupados”, admite o presidente.
A avaliação técnica conduzida pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil e pela Agência Portuguesa do Ambiente, em articulação com o Exército, agricultores, juntas de freguesia, município vizinho de Salvaterra de Magos e população, permitiu implementar soluções de reforço consideradas essenciais à segurança da população.
“A articulação foi rápida, assertiva e eficaz. Sentimos que as estruturas de proteção civil estavam disponíveis e conseguiram prestar o apoio necessário”, afirma.
Durante o período crítico, o concelho recebeu a visita do Presidente da República, acompanhado pelo Secretário de Estado da Proteção Civil, bem como do Ministro das Infraestruturas, da Ministra do Ambiente e Energia e do presidente da Agência Portuguesa do Ambiente. Para João Heitor, estas presenças demonstram reconhecimento da dimensão dos danos e da necessidade de apoio.
“O que pedimos é que o nosso território, que não foi considerado em situação de calamidade, seja tratado com equidade face a outros territórios, no que respeita aos danos concretos e efetivos registados”, afirma.
O município já reportou à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional uma lista detalhada de prejuízos em infraestruturas e equipamentos públicos. Paralelamente, os agricultores estão a comunicar as suas perdas à mesma entidade. A reivindicação de apoio foi igualmente formalizada no memorando subscrito no âmbito da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo.
Para o autarca, a vulnerabilidade do território ribeirinho é estrutural. “O nosso território, pelas suas características, está sujeito a fenómenos como aqueles que agora enfrentámos. É fundamental garantir que os equipamentos e infraestruturas de proteção estejam sempre preparados para responder às exigências a que possamos estar sujeitos.”
João Heitor reconhece que houve momentos de tensão e desgaste, mas sublinha o espírito de missão e união demonstrado. “Foram dias difíceis, de muito trabalho, de longas horas de dedicação e de muitos obstáculos. Mas o sentido de serviço público e de união foi permanente.”
A resposta, considera, permitiu proteger as pessoas e garantir o essencial num cenário que poderia ter tido consequências ainda mais gravosas.
A Câmara Municipal do Cartaxo informou que já se encontra disponível o procedimento para declaração de danos e prejuízos em explorações agrícolas afetadas pelas condições meteorológicas adversas associadas à tempestade Kristin.
Os agricultores da Região de Lisboa e Vale do Tejo que tenham sofrido prejuízos podem declarar os danos ao abrigo do aviso “Restabelecimento do Potencial Produtivo – Tempestade Kristin”. De acordo com a autarquia, este procedimento não corresponde a uma candidatura a apoios financeiros, tratando-se de uma declaração necessária para permitir a avaliação dos prejuízos registados em explorações agrícolas e florestais e a preparação de eventuais medidas de apoio futuras.
O formulário para declaração de danos está disponível no site da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo. A medida enquadra-se na Portaria n.º 240/2025, publicada em Diário da República.
Paralelamente, encontram-se igualmente abertas candidaturas no âmbito do PEPAC, integradas no mesmo aviso de restabelecimento do potencial produtivo.
A Divisão de Desenvolvimento Económico da Câmara Municipal do Cartaxo, através da Unidade Funcional de Apoio às Empresas e ao Investimento, encontra-se disponível para apoiar os agricultores quer na fase de reporte dos danos sofridos, quer na apresentação das candidaturas PEPAC. Os interessados podem contactar os serviços através do número 243 700 261 ou do endereço eletrónico investir@cm-cartaxo.pt.

Arruda enfrenta reconstrução sem precedentes após rasto de destruição das tempestades
As consequências da sucessão de tempestades que atingiram Arruda dos Vinhos nas últimas semanas deixaram um cenário de destruição generalizada que o município não tem capacidade financeira para resolver sozinho, obrigando a uma reconstrução que dependerá fortemente do apoio do Estado.
O presidente da Câmara, Carlos Alves, traça um retrato duro da realidade no terreno e admite que os danos ultrapassam claramente os recursos municipais. “Para terem uma imagem, o orçamento municipal é de 22 milhões de euros e se ele fosse alocado na totalidade para reconstruir a Arruda não seria suficiente”, afirma, sublinhando que a dimensão dos prejuízos exige uma resposta nacional.
O impacto fez-se sentir em toda a vida do concelho, com consequências sociais, económicas e estruturais profundas. Mais de 60 pessoas ficaram diretamente afetadas, várias habitações tornaram-se impróprias e dezenas de vias ficaram destruídas ou severamente danificadas, comprometendo acessos, atividade económica e serviços essenciais.
O autarca descreve o que aconteceu como um fenómeno de enorme magnitude, comparável a uma catástrofe natural de grande escala. “Em alguns pontos, o descritivo mais aproximado é de zona em que sofreu uma atividade sísmica muito acentuada, portanto é um rasto de destruição que fica para trás”, refere.
Este cenário gerou também um sentimento de injustiça entre a população, sobretudo pelo facto de o concelho não ter sido incluído no decreto formal de estado de calamidade. “Não percebo, não vou perceber não ter sido feita essa justiça perante o concelho de Arruda dos Vinhos, porque a calamidade está no terreno, só falta decretá-la”, afirma.
Apesar disso, Carlos Alves diz ter recebido garantias do Governo quanto ao acesso aos apoios necessários. “Foi garantido que esse enquadramento jurídico não poria em causa aquilo que são todas estas medidas que estão a ser preparadas pelo Governo e que a Arruda teria certamente acesso a esses fundos imprescindíveis para a reconstrução”, afirma, reforçando a confiança nas promessas assumidas.
Danos estruturais atingem rede viária, habitações e serviços essenciais
O impacto das tempestades atingiu de forma particularmente severa as infraestruturas do concelho, com danos extensos na rede rodoviária, sistemas de abastecimento e estruturas públicas e privadas, criando um efeito em cadeia que condicionou o funcionamento normal do território.
Segundo Carlos Alves, mais de quatro dezenas de vias ficaram afetadas, entre estradas nacionais, municipais e caminhos rurais, muitas delas com cortes totais ou com circulação fortemente condicionada. “Ficámos com uma rede rodoviária muito posta em causa, estamos a falar nesta altura de mais de quatro dezenas de vias afetadas, muitas delas cortadas na totalidade, outras a serem monitorizadas constantemente, com um acentuar das fissuras e constantes deslizamentos”, explica.
Os deslizamentos de terras provocaram também roturas sucessivas nas condutas de abastecimento de água, comprometendo um serviço essencial e obrigando a intervenções constantes. “A parte do abastecimento de água também muito comprometido porque estes deslizamentos afetavam com muitas roturas todo o sistema de condutas”, refere, acrescentando que uma conduta adutora comprometeu significativamente o fornecimento em várias zonas do concelho.
A destruição afetou igualmente infraestruturas estratégicas e acessos fundamentais. O terminal rodoviário ficou “completamente destruído”, enquanto várias zonas residenciais ficaram isoladas durante períodos críticos. Mais de duas dezenas de habitações tornaram-se impróprias para habitação, obrigando ao realojamento das famílias afetadas e comprometendo projetos de vida construídos ao longo de anos.
O autarca rejeita críticas que atribuem os danos a falhas na construção ou manutenção das vias, defendendo que se trata de um fenómeno excecional. “Estamos a falar de um evento sem precedentes, com uma pluviosidade anormal em que num dia choveu aquilo que habitualmente chove em três”, afirma, acrescentando que a destruição foi transversal a vários municípios e incluiu estradas nacionais, o que demonstra a dimensão do fenómeno e a sua natureza extraordinária.

Proteção civil, bombeiros e resposta social garantiram apoio às populações
Perante a dimensão da crise, a resposta mobilizou múltiplas entidades, desde forças de proteção civil e segurança até serviços sociais e voluntários, num esforço contínuo para apoiar as populações afetadas e restabelecer a normalidade possível.
Carlos Alves destaca o papel determinante dos bombeiros, proteção civil, forças armadas e forças de segurança, bem como das equipas municipais que estiveram no terreno desde o primeiro momento. “Uma grande palavra de apreço para a proteção civil, para os nossos bombeiros que nos ajudaram quando o abastecimento de água não era possível, enchendo os depósitos de água, e para todas as entidades que estiveram no terreno”, afirma.
Os serviços municipais também desempenharam um papel central, com equipas técnicas e operacionais a trabalhar sem interrupções. “Os colaboradores do município foram incansáveis, madrugada dentro, sem horário, para verificarmos as condições de segurança”, refere.
No plano social, o município assegurou soluções de emergência para as famílias desalojadas, recorrendo a habitações disponíveis, unidades contentorizadas e apoio junto de familiares e amigos. “As pessoas estão acompanhadas e estão bem. Foram encaminhadas para várias soluções, incluindo unidades contentorizadas e habitações disponíveis”, explica.
Foi também criada uma linha de apoio psicológico para acompanhar as vítimas, reconhecendo o impacto emocional e humano da destruição. “Há pessoas que ficaram com o seu projeto de vida completamente comprometido e isso é danoso não só do ponto de vista material, mas também emocional e psicológico”, sublinha.
O presidente da Câmara destaca ainda o espírito de solidariedade demonstrado pela população e pelas instituições locais, que contribuíram com apoio e recursos para enfrentar a crise. “A Arruda está forte, está coesa, está unida e está solidária”, afirma.
Reconstrução dependerá de apoio nacional e compromissos assumidos pelo Governo
O município enfrenta agora um longo e exigente processo de reconstrução, com desafios financeiros e operacionais que ultrapassam claramente a sua capacidade orçamental. Carlos Alves sublinha que, sem o apoio direto do Estado, será impossível devolver ao concelho as condições de normalidade. “Quero acreditar que a Arruda não ficará para trás”, afirma, assumindo que a recuperação exigirá um esforço articulado entre o município, o Governo e as várias entidades públicas.
A presença recente do ministro Manuel Castro Almeida no concelho veio reforçar essa expectativa, numa visita ao terreno que permitiu observar diretamente a dimensão dos estragos e ouvir os responsáveis locais. O governante reconheceu que os prejuízos registados nas infraestruturas, nas redes de abastecimento e no tecido económico representam um desafio que não pode ser suportado exclusivamente pelo município, assumindo que o Estado terá de desempenhar um papel decisivo na recuperação.
Durante essa deslocação, foi assumido o compromisso de que Arruda dos Vinhos não ficará excluída dos mecanismos de apoio que estão a ser preparados para os territórios afetados pelas intempéries, independentemente de não ter sido formalmente incluída no decreto inicial de situação de calamidade. Essa garantia foi recebida pelo executivo municipal como um sinal de reconhecimento da gravidade da situação e da necessidade de uma resposta proporcional aos danos sofridos.
Carlos Alves afirma confiar nas garantias transmitidas, mas lembra que a recuperação será um processo longo e exigente, que implicará intervenções estruturais profundas e um investimento muito significativo. O autarca sublinha que os prejuízos acumulados, tanto ao nível das infraestruturas como das habitações e da atividade económica, exigem uma resposta célere e eficaz, sob pena de comprometer o desenvolvimento do concelho nos próximos anos.
O presidente da Câmara considera que este é um momento decisivo para Arruda dos Vinhos e defende que o compromisso assumido pelo Governo terá de se traduzir em medidas concretas no terreno. “Compromisso é compromisso. Palavra dada, palavra honrada”, afirma.
A dimensão dos danos e o impacto social e económico colocam Arruda dos Vinhos perante um dos maiores desafios da sua história recente, num processo de reconstrução que marcará o futuro do concelho e que exigirá uma resposta sustentada, capaz de devolver às populações a segurança, a estabilidade e as condições de vida que foram abruptamente interrompidas pelas tempestades.

Barragem “fantasma” obriga a evacuar dezenas e expõe risco oculto em Manique do Intendente
Foi um susto profundo para as populações da Póvoa de Manique e zonas envolventes, que durante vários dias viveram com o receio de uma eventual rutura da barragem da Retorta e foram obrigadas a abandonar as suas casas por razões de segurança. O cenário de risco iminente levou à evacuação preventiva de cerca de 50 a 60 pessoas, ao encerramento da escola local e do centro de saúde, e mobilizou meios técnicos e operacionais de emergência numa operação que expôs uma realidade até então desconhecida do próprio município: a verdadeira dimensão da massa de água existente na Herdade da Torre Bela.
Em declarações ao Valor Local, o presidente da Câmara Municipal de Azambuja reconheceu que a autarquia desconhecia a dimensão real da infraestrutura. “Aquilo que temos de informação, por parte das palavras da senhora ministra e do senhor presidente da APA, é que aquela massa de água, com cerca de um milhão de metros cúbicos, não está referenciada nos planos nem nas autorizações que deveria ter”, afirmou.
O autarca explicou que apenas tinha conhecimento da existência de uma pequena barragem utilizada informalmente pela população, mas não da dimensão efetiva da estrutura agora identificada. “Ouvia falar que as pessoas iam para ali no verão tomar banho e ir à pesca, porque há uma barragem mais pequena, com cerca de cinco hectares. Essa, sim, ouvia falar. Agora, uma massa de água com cerca de 12,5 hectares, desconhecia completamente”, sublinhou, admitindo que ficou “seriamente preocupado” ao perceber o risco que a situação poderia representar.
Perante o agravamento do cenário, e face à pressão exercida sobre os taludes da barragem após dias consecutivos de chuva intensa, o município avançou com intervenções técnicas de emergência, sempre sob orientação das entidades competentes. “Nada fizemos por nossa autorrecriação. Tudo o que foi feito foi aconselhado pelos senhores engenheiros e acompanhado pelas entidades competentes”, garantiu o presidente.
Entre as medidas implementadas esteve a abertura de um sangrador e a execução de um novo dreno, com o objetivo de reduzir a pressão sobre a estrutura. Os trabalhos prolongaram-se durante várias horas, com equipas no terreno até à madrugada. “Estivemos no sábado toda a tarde a acompanhar os trabalhos. Os nossos colaboradores e meios externos estiveram no terreno até cerca das três da manhã”, referiu, acrescentando que estas intervenções permitiram uma descida significativa do nível da água. “Queremos que a água baixe cerca de um metro e meio para termos a situação em segurança.”
O risco associado à infraestrutura obrigou à evacuação preventiva de dezenas de residentes, que permaneceram fora das suas casas durante vários dias, acolhidos por familiares e amigos, numa medida que o autarca classificou como essencial para garantir a segurança. “A minha preocupação agora não é saber se a situação é legal ou ilegal. A minha preocupação é salvaguardar os interesses das pessoas e os bens das pessoas. É só isso. O resto resolve-se depois”, afirmou.
A situação mobilizou também entidades nacionais, incluindo o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e o Ministério do Ambiente, que acompanharam a evolução do caso e as intervenções realizadas no terreno. Após nova avaliação técnica, foi considerado que estavam reunidas as condições de segurança necessárias, permitindo o regresso da população às suas habitações e a reabertura progressiva dos serviços públicos entretanto encerrados.
Apesar da estabilização da situação, o episódio expôs fragilidades ao nível do conhecimento e monitorização de infraestruturas com potencial risco, levantando questões sobre o enquadramento legal, a fiscalização e a evolução da barragem ao longo dos anos. O próprio presidente da Câmara confirmou que sabia da existência de uma barragem na zona, mas não da dimensão da massa de água existente. “Sabia que havia uma barragem ou duas na Retorta, mas não imaginava que fosse com aquela dimensão, porque aquilo é uma propriedade privada e nós só entramos dentro das propriedades quando somos convidados ou em situações de emergência”, explicou.
O impacto do episódio não se limitou à barragem. O concelho foi também afetado por múltiplas ocorrências relacionadas com o mau tempo, incluindo deslizamentos de terras, estradas cortadas, campos agrícolas alagados e prejuízos significativos para a agricultura e infraestruturas locais, obrigando a uma monitorização permanente por parte dos serviços municipais e da Proteção Civil.
A situação da barragem da Retorta tornou-se, assim, um dos episódios mais marcantes das últimas semanas no concelho de Azambuja, evidenciando a necessidade de reforçar mecanismos de monitorização e prevenção, bem como a articulação entre entidades públicas e privadas, numa realidade que colocou em causa a segurança de populações e expôs vulnerabilidades até então desconhecidas.
PSD exige esclarecimentos e apresenta 100 perguntas sobre barragem da Retorta
Ultrapassada a fase de maior risco imediato, os vereadores do PSD na Câmara Municipal de Azambuja entregaram um requerimento ao executivo municipal com 100 perguntas sobre a situação da barragem da Retorta, exigindo esclarecimentos detalhados sobre os acontecimentos que levaram à evacuação de populações e à mobilização de meios nacionais de proteção civil.
Os vereadores Margarida Lopes e Luís Benavente consideram essencial garantir “o completo esclarecimento dos factos, a transparência da atuação das entidades públicas e a definição de medidas que evitem a repetição de situações semelhantes no concelho”.
O documento solicita respostas escritas e documentadas sobre o conhecimento que o município tinha da existência e dimensão da infraestrutura, a cronologia dos acontecimentos, o enquadramento legal e administrativo da barragem, e o funcionamento dos mecanismos municipais de proteção civil.
Entre as questões levantadas estão também o alegado impedimento de acesso a técnicos municipais à Herdade da Torre Bela em 2021, a evolução da massa de água ao longo dos anos, e a eventual ocupação de domínio hídrico público.
Os vereadores pedem ainda esclarecimentos sobre os custos suportados pelo município com as intervenções de emergência realizadas para evitar o colapso da infraestrutura, incluindo o valor das despesas, a sua imputação aos proprietários e os mecanismos de eventual ressarcimento.
Para Margarida Lopes, a situação exige respostas claras. “Quando populações são retiradas das suas casas, quando serviços públicos encerram e quando se mobilizam meios nacionais de engenharia e proteção civil, estamos perante uma questão de confiança institucional e de segurança pública que exige respostas claras”, afirmou.
O PSD sublinha que o objetivo do requerimento é garantir transparência e prevenir situações futuras, defendendo que o concelho deve conhecer “exatamente o que aconteceu, que responsabilidades existiram e que medidas serão adotadas para reforçar a prevenção e a segurança das populações”.
Silvino Lúcio: “O primeiro-ministro disse que ninguém ficará para trás. Esperamos que assim seja”
O concelho de Azambuja enfrenta ainda as consequências de uma sucessão de tempestades e episódios de precipitação intensa que provocaram cheias, deslizamentos de terras, danos em infraestruturas públicas e privadas e prejuízos relevantes em várias freguesias. O presidente da Câmara Municipal de Azambuja, Silvino Lúcio, traça um retrato que considera ainda provisório em termos financeiros, mas suficientemente sólido para demonstrar a dimensão do impacto no território.
“Em termos quantitativos, em termos financeiros, ainda não temos o cenário fechado”, afirma o autarca. “Começámos agora a poder ir ao terreno com maior detalhe, a olhar para cada situação, a falar com as juntas de freguesia e a perceber, com rigor, o que aconteceu.”
A prioridade inicial, explica, foi garantir segurança. “Numa primeira fase, a nossa preocupação foi proteger pessoas e bens. Não era o momento de fazer contas, era o momento de intervir.” Só depois de estabilizadas as situações mais críticas foi possível iniciar um levantamento mais estruturado.
Um dos pontos mais sensíveis é a Vala da Azambuja. “Andei este fim de semana na vala a ver os rombos que a cheia efetuou. São muitos e são significativos”, refere. “Há ali muito trabalho estrutural para fazer. Não estamos a falar de pequenas reparações, estamos a falar de consolidação de taludes, reforço de margens e avaliação técnica profunda.”
O presidente lembra que parte da responsabilidade daquela linha de água, fora do perímetro urbano, não é municipal. “A Vala da Azambuja não é totalmente responsabilidade da Câmara. Há troços que competem à Agência Portuguesa do Ambiente. Mas isso não nos impede de acompanhar, de pressionar e de exigir que as intervenções avancem.”
Para além da vala, o concelho registou deslizamentos de terras em vários pontos. “Ainda temos estradas interrompidas. Estamos a aguardar que o tempo estabilize para podermos fazer ancoragens e consolidações definitivas. Não podemos fazer esse tipo de intervenção com o terreno saturado.”
Em várias zonas houve derrocadas de muros e danos em habitações antigas. “Há construções que já tinham fragilidades estruturais e que, com a saturação dos solos, acabaram por ceder”, explica. Em Casais dos Britos foram identificados problemas ao nível das coberturas. “Estamos a trabalhar em conjunto com as juntas para identificar cada situação.”
Vila Nova da Rainha foi uma das freguesias mais afetadas. “Houve um conjunto de pessoas que ficaram com as casas submersas. Tivemos de deslocar cerca de 17 pessoas”, recorda. O regresso às habitações está agora em curso, mas o cenário encontrado é exigente. “Quando a água sai, é que as pessoas percebem verdadeiramente o que perderam. Eletrodomésticos inutilizados, armários danificados, equipamentos comprometidos.”
O autarca reconhece que esta fase é particularmente difícil. “A fase da emergência é intensa, mas é rápida. A fase da reconstrução é mais silenciosa e mais pesada.”
No plano institucional, o município considerou que estavam reunidas condições para a declaração de estado de calamidade. “Achámos que estavam reunidos os pressupostos para calamidade. Pela dimensão territorial, pelo número de ocorrências, pela mobilização de meios.”
No entanto, Azambuja ficou enquadrada apenas em situação de contingência. “É um patamar inferior. Dá menos acesso a determinados instrumentos financeiros e a mecanismos excecionais que poderiam facilitar a recuperação.”
Silvino Lúcio sublinha que a diferença não é meramente formal. “A calamidade permite um enquadramento mais robusto. A contingência é mais limitada. E quando falamos de reparar infraestruturas, apoiar famílias e consolidar linhas de água, isso faz diferença.”
A expectativa está agora nos mecanismos anunciados pelo Governo, designadamente no âmbito do PRR-PT. “Ainda não temos indicação concreta de valores. Fala-se que em abril poderão começar a ser operacionalizados apoios. Vamos acompanhar com atenção.”
“O primeiro-ministro disse que ninguém ficará para trás. Esperamos que assim seja”, acrescenta. “Esperamos que as famílias afetadas não fiquem esquecidas e que o apoio seja proporcional à dimensão dos prejuízos.”
O município está a consolidar o levantamento detalhado das ocorrências. “Estamos a associar impacto financeiro a cada situação identificada. Queremos ter uma resposta cabal quando formos chamados a apresentar dados.”
Enquanto isso, a resposta continua a ser assegurada com meios próprios. “Para já, é a Câmara que tem de chegar à frente. Não podemos esperar por decisões administrativas para resolver situações urgentes.”
A ativação do Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil permitiu acelerar procedimentos. “Podemos contratar, podemos alugar máquinas, podemos intervir e regularizar depois. Foi isso que fizemos.”
Houve aluguer de maquinaria pesada, mobilização de equipas municipais e intervenção direta na desobstrução de vias. Em Vila Nova da Rainha está já em curso a reconstrução de uma ponte destruída pela força da água. “Não podíamos deixar aquela população condicionada.”
O presidente destaca com particular ênfase a presença do Exército no terreno. “Foi um fator de estabilidade e serenidade. Deu muita segurança às pessoas.” Para as populações que viram as suas casas invadidas pela água, a presença militar foi interpretada como sinal de coordenação e resposta do Estado.
“A articulação entre Exército, bombeiros, Proteção Civil, Cruz Vermelha e GNR foi determinante”, afirma. “Foi um esforço coletivo.”
Silvino Lúcio elogia igualmente os bombeiros de Azambuja e Alcoentre. “Estiveram no terreno em momentos muito difíceis, muitas vezes até altas horas da madrugada.”
A situação mais crítica ocorreu na Retorta. “Aquela massa de água transformou-se num problema gravíssimo em termos de segurança”, afirma. Foi necessário deslocar cerca de 30 famílias da Póvoa de Manique e dos Carvalhos.
Com acompanhamento técnico do Laboratório Nacional de Engenharia Civil e coordenação da Proteção Civil, foi criado um descarregador de superfície que permitiu baixar significativamente o nível da água. “Conseguimos estabilizar a situação e permitir o regresso das pessoas.”
O novo coordenador municipal de Proteção Civil enfrentou ali a sua primeira grande operação. “Foi uma prova de fogo. Demonstrou capacidade de decisão e disponibilidade total.”
A tempestade reacendeu o debate sobre a limpeza das linhas de água. “Toda a gente critica a falta de limpeza”, reconhece o presidente. “Mas quando a água é demais, mesmo com rios limpos, o problema pode acontecer.”
O rio de Alenquer recebe contributos de uma vasta bacia hidrográfica. “Vem água de quilómetros de distância. Pequenas ribeiras tornam-se grandes em poucas horas.” Ainda assim, defende maior fiscalização e intervenção preventiva. “Tem de haver uma abordagem mais ativa e estruturada.”
Para o autarca, a principal lição é clara. “Não podemos evitar fenómenos naturais, mas podemos preparar melhor o território.” E reforça: “A resposta imediata foi dada. Agora precisamos que a resposta estrutural também venha.”
Entre a contingência decretada, a expectativa nos apoios do PRR-PT, a intervenção municipal e a mobilização de meios como o Exército, o concelho de Azambuja entra agora numa fase decisiva. Uma fase em que a reconstrução deixa de ser apenas técnica e passa a ser estratégica. “O importante é que consigamos reforçar a nossa capacidade de resposta futura e que ninguém fique para trás”, conclui Silvino Lúcio.
Exército reforçou segurança no terreno
A presença do Exército em Vila Nova da Rainha foi, segundo o presidente da Câmara Municipal de Azambuja, um elemento determinante para tranquilizar a população num dos momentos mais críticos da tempestade. “Foi um fator de estabilidade e serenidade. Deu muita segurança às pessoas”, afirma Silvino Lúcio, sublinhando que, em situações de emergência, a perceção de controlo e coordenação é tão importante quanto a intervenção técnica.
Os militares estiveram no terreno em articulação com bombeiros, Proteção Civil, Cruz Vermelha e GNR, apoiando operações logísticas, vigilância de zonas de risco e garantindo presença visível junto das áreas mais afetadas. Para o autarca, essa presença teve também um efeito psicológico relevante. “Quando as pessoas veem o Exército no terreno, sentem que o Estado está ali, que a situação está a ser acompanhada ao mais alto nível.”
Silvino Lúcio considera que a cooperação institucional funcionou de forma eficaz e que o envolvimento das forças militares reforçou a confiança da população num momento de incerteza e preocupação generalizada
Proteção Civil e a “prova de fogo” do novo coordenador
A tempestade constituiu o primeiro grande teste operacional para o novo coordenador municipal de Proteção Civil, em funções há cerca de um mês. A situação mais crítica registou-se na Retorta, onde a acumulação de uma massa de água representou risco grave para pessoas e bens, obrigando à retirada de cerca de 30 famílias da Póvoa de Manique e dos Carvalhos.
“Foi uma prova de fogo”, afirma o presidente da Câmara. “Acompanhei de perto as decisões e vi capacidade, serenidade e disponibilidade total.” Segundo Silvino Lúcio, o coordenador assumiu a liderança operacional numa fase de elevada pressão, articulando meios no terreno até de madrugada, nomeadamente na criação de um descarregador de superfície que permitiu baixar significativamente o nível da água e estabilizar o cenário.
A atuação envolveu articulação permanente com o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, bombeiros, Cruz Vermelha, GNR e Exército. Para o presidente, a coordenação demonstrada foi decisiva para evitar consequências mais graves. “Houve tomada de decisão atempada e houve coragem operacional”, sublinha.
Silvino Lúcio destaca também o papel das equipas municipais e dos bombeiros de Azambuja e Alcoentre, que estiveram no terreno em regime quase contínuo durante os dias mais críticos. “Foi um esforço coletivo, mas a coordenação é essencial nestes momentos. E essa coordenação existiu.”
Para o autarca, a tempestade mostrou a importância de uma Proteção Civil preparada, capaz de agir rapidamente e de articular entidades distintas sob uma mesma estratégia. “Estas situações não se resolvem apenas com meios. Resolvem-se com liderança, organização e capacidade de antecipação.”
Se quiseres, posso ajustar o tom para ficar ainda mais institucional ou mais humano, consoante a paginação que vais fazer.
Depois da água, as contas: o tempo difícil das famílias à espera de apoio
Com a água retirada das ruas e das habitações, começou uma fase menos visível, mas particularmente exigente, para muitas das famílias afetadas pelas cheias no concelho de Azambuja. Em Vila Nova da Rainha e noutras zonas atingidas, o regresso a casa tem sido acompanhado por um processo lento e emocionalmente pesado de avaliação de prejuízos.
Portas abertas, divisões ainda húmidas, móveis encostados ao exterior para secar ao sol e eletrodomésticos desligados à espera de perceber se voltam a funcionar. É neste cenário que as famílias começam a fazer contas. Frigoríficos, máquinas de lavar, sofás, armários, colchões, pequenos eletrodomésticos, documentos e objetos pessoais afetados pela água. Em muitos casos, aquilo que parecia resistir acaba por revelar danos dias depois, quando surgem infiltrações, ferrugem ou bolor.
“Quando a água desce é que se percebe verdadeiramente o impacto”, reconhece o presidente da Câmara Municipal de Azambuja. Para muitas famílias, trata-se de um esforço financeiro inesperado e difícil de suportar. Nem todos têm margem para substituir, de imediato, os bens essenciais que ficaram inutilizados.
O município, em articulação com as juntas de freguesia, está a acompanhar o levantamento detalhado dos prejuízos. Técnicos municipais recolhem informação, registam ocorrências e ajudam a estruturar a documentação necessária para eventual acesso a mecanismos de apoio. O objetivo é garantir que cada situação esteja devidamente identificada e fundamentada.
A expectativa das famílias está agora centrada nos apoios anunciados pelo Governo, designadamente no âmbito do PRR-PT, cuja operacionalização poderá arrancar em abril. Embora ainda não existam valores concretos definidos para cada território, a promessa de que ninguém ficará para trás mantém viva a esperança de uma resposta que permita aliviar o peso das perdas.
“Esperamos que os apoios cheguem com rapidez e que sejam proporcionais aos danos sofridos”, sublinha o presidente. Até lá, entre limpezas, substituições urgentes e decisões difíceis, as famílias tentam reconstruir o quotidiano com os recursos que têm, aguardando que a ajuda prometida se traduza em medidas concretas e eficazes.

Oito dias de isolamento na EN118 expuseram fragilidades no concelho de Benavente
A submersão da Estrada Nacional 118 durante oito dias foi, nas palavras da presidente da Câmara Municipal de Benavente, Sónia Ferreira, “um dos momentos mais críticos” vividos no concelho durante o recente ciclo de tempestades. A via estruturante, que liga diretamente Benavente a Samora Correia e serve milhares de pessoas todos os dias, esteve inoperacional num dos seus troços centrais, alterando profundamente a mobilidade no território.
“Durante oito dias aquela via esteve submersa. Um percurso habitual de seis quilómetros passou a obrigar a desvios por Santo Estêvão ou pela ponte da Lezíria, rumo a Vila Franca de Xira, para depois voltar para trás”, explica a autarca. A consequência foi imediata: aumento significativo do tempo de deslocação, custos acrescidos de combustível e constrangimentos para trabalhadores, empresas e serviços públicos.
“Esta situação causou grandes prejuízos para os milhares de pessoas que ali circulam diariamente”, sublinha Sónia Ferreira. A EN118 é um eixo central na mobilidade do concelho e a sua interrupção quase isolou o território. Perante a limitação de alternativas viárias, a Câmara solicitou ao Governo a isenção temporária do pagamento de portagens na A10 e na A13, procurando mitigar os encargos adicionais suportados por moradores e empresas.
A presidente reconhece que a EN118 não é a primeira vez que enfrenta condicionamentos associados a fenómenos de cheia, mas lembra que “há muitos anos que não era encerrada desta forma”. Ainda assim, o episódio deixou clara a vulnerabilidade desta acessibilidade estratégica. “O que aconteceu mostrou-nos o quão expostos estamos quando falha uma via estruturante.”
A partir deste ponto crítico, o retrato alarga-se ao restante território. As cheias provocadas pela subida dos rios Sorraia e Almansor, em confluência com a bacia do Tejo, geraram danos significativos em infraestruturas rodoviárias, taludes e equipamentos municipais. “As recentes tempestades tiveram fortes impactos predominantemente nas infraestruturas rodoviárias, em instalações de clubes e coletividades, em empresas, sobretudo do setor agrícola, e em diversas habitações que sofreram estragos consideráveis”, descreve a autarca.
Entre os danos permanentes registados estão o aluimento de terras na Rua do Vale, nos Foros da Charneca, e dois fortes rombos nos valados do talude adjacente ao Rio Almansor, na Várzea de Samora, entre Benavente e Samora Correia. “Foram ocorrências graves, que exigem intervenção estrutural”, afirma.
Diversas estradas municipais estiveram submersas durante vários dias, condicionando não apenas a circulação de passagem, mas sobretudo a mobilidade quotidiana da população. Estradas como a EM1456, a Rua do Rio Almansor na frente ribeirinha de Samora Correia, a Rua 1.º de Maio nos Foros de Almada, a EM515 no Paul do Trejoito, a Estrada do Convento de Jericó, o Caminho Del Rey e vários troços da EN118 e da EN10 apresentam agora danos que exigem avaliação técnica detalhada.
“Apesar de reabertas após inspeção pelos nossos serviços e pela Infraestruturas de Portugal, praticamente todas necessitam de cuidados redobrados”, alerta Sónia Ferreira. A submersão prolongada pode originar ruturas futuras, pelo que já foi solicitada uma reunião de trabalho com a Infraestruturas de Portugal para avaliar intervenções necessárias.
Para além das cheias, os ventos fortes associados aos solos saturados provocaram a queda de inúmeras árvores e postes elétricos. “Os trabalhos de desobstrução de vias foram prioritários e implicaram um esforço operacional acrescido por parte dos Bombeiros, das equipas da Câmara e das Juntas de Freguesia”, explica. A presidente destaca ainda o contributo de empresas e particulares, com especial referência à Companhia das Lezírias, que colaborou desde a primeira hora na remoção de árvores e obstáculos, apoiando a desobstrução da EN10 e da EN118.
No plano social, a autarquia teve de prestar apoio direto a famílias afetadas. “Várias famílias foram acolhidas em Zonas de Concentração e Apoio à População como medida de prevenção perante a subida das águas, mas também devido a possíveis danos estruturais provocados pela queda de árvores.” Foram distribuídas cerca de 900 refeições, confecionadas nas cantinas do Centro Escolar de Benavente e de Samora Correia, destinadas à população deslocada, aos Bombeiros e aos efetivos da GNR e da Marinha envolvidos nas operações.
As Piscinas Municipais e os Estaleiros Municipais foram temporariamente adaptados a funções de abrigo, assegurando balneários, pontos de carregamento de equipamentos e confeção de refeições para quem ficou sem energia elétrica nas habitações.
Questionada sobre se os meios foram suficientes, Sónia Ferreira considera que a resposta foi adequada às circunstâncias. “A Proteção Civil Municipal manteve uma presença constante no terreno, assegurando uma resposta célere às ocorrências e promovendo o seu adequado encaminhamento.” Várias equipas estiveram em alerta permanente, enfrentando condições adversas. “O essencial é que não houve vítimas.”
A articulação entre entidades foi descrita como eficaz. Câmara, Juntas de Freguesia, Bombeiros Voluntários, GNR e um destacamento do Corpo de Fuzileiros da Marinha Portuguesa trabalharam em estreita coordenação. “Bastou um contacto para termos no terreno os fuzileiros com os seus veículos anfíbios”, refere a presidente, destacando a prontidão da resposta.
No plano político, Sónia Ferreira defende uma abordagem técnica e dialogante face às vulnerabilidades expostas. “Não há que atribuir responsabilidades a ninguém. Passámos por um comboio de tempestades completamente anormal. Há que aprender com o que aconteceu e dialogar para encontrar soluções.”
A Câmara solicitou ao Governo vistorias técnicas urgentes às estradas submersas, sobretudo à EN118, pela sua importância estratégica. Num município que terá no seu território uma das maiores obras de investimento público do país, a garantia de boas acessibilidades é vista como fundamental.
“Temos mantido um canal de diálogo aberto com o Governo desde a primeira hora e sentimos preocupação e proximidade”, afirma, referindo a visita do Ministro das Infraestruturas como sinal dessa atenção institucional.
O episódio, reconhece, expôs fragilidades, mas também demonstrou capacidade de coordenação e resiliência. “Foram dias muito duros, de muita angústia, mas também de muita aprendizagem. Crescemos todos com esta experiência.”
Ainda assim, deixa uma nota de realismo. “O nosso território, pela sua geografia, está sujeito a cheias. A natureza é imprevisível. O que podemos fazer é melhorar a prevenção, reforçar infraestruturas e estar cada vez mais preparados.”
Para o futuro, defende inspeções estruturais detalhadas e relatórios técnicos que permitam reduzir a vulnerabilidade do território face a fenómenos extremos. “O que vivemos foi de uma dimensão enorme, não apenas pela quantidade de água, mas também pelos ventos fortes que assolaram o país. Temos de estar atentos e preparados.”
A EN118 foi o símbolo visível do impacto, mas, para Sónia Ferreira, o verdadeiro desafio começa agora: transformar a experiência numa estratégia de reforço estrutural que garanta maior segurança às populações e às atividades económicas do concelho.

Cheias e intempérie colocaram Salvaterra de Magos à prova durante quase um mês
Entre 22 de janeiro e 16 de fevereiro de 2026, o concelho de Salvaterra de Magos enfrentou um dos períodos meteorológicos mais exigentes dos últimos anos, marcado por precipitação persistente, vento forte e uma subida significativa dos caudais do rio Tejo e do rio Sorraia. Não se tratou de um fenómeno isolado, mas de um processo cumulativo, resultado da sucessão de sistemas depressionários que conduziram à saturação dos solos e ao agravamento progressivo do risco de cheias e inundações.
Durante este período crítico foram registadas mais de duas centenas de ocorrências operacionais, incluindo inundações em habitações e anexos, queda de árvores e estruturas, estradas submersas, cortes de circulação e falhas no fornecimento de energia elétrica. As zonas ribeirinhas foram as mais afetadas, com especial incidência na aldeia do Escaroupim, Porto de Sabugueiro, Muge e áreas baixas de Salvaterra de Magos.
Em declarações ao Valor Local, a presidente da Câmara Municipal, Helena Neves, descreve um cenário de elevada exigência para o território e para os meios de resposta. “Não estávamos perante um episódio isolado, mas sim uma situação prolongada no tempo, com impacto cumulativo. O solo já se encontrava saturado e cada novo episódio de chuva agravava o risco e as consequências no terreno”, refere.
A autarca sublinha que houve momentos de particular preocupação, sobretudo nas zonas mais vulneráveis. “Tivemos situações de isolamento temporário, nomeadamente na aldeia do Escaroupim, onde o acesso rodoviário esteve submerso durante vários dias. Isso obrigou a uma resposta muito próxima das populações, garantindo que nada lhes faltava”, explica.
O Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil foi ativado, com a instalação do Posto de Comando Municipal no quartel dos Bombeiros Voluntários e a mobilização de diversos agentes no terreno. “A articulação entre todas as entidades foi permanente e essencial. Serviço Municipal de Proteção Civil, bombeiros, GNR, juntas de freguesia e serviços municipais trabalharam de forma coordenada, com o apoio das entidades nacionais sempre que necessário”, destaca Helena Neves.
Durante os momentos de maior criticidade foram realizadas evacuações preventivas, assegurado o acolhimento temporário de população e garantido o fornecimento de bens essenciais, medicação e transporte de doentes. Foram ainda instalados geradores em infraestruturas críticas, de forma a garantir a continuidade dos serviços. “Conseguimos dar resposta às situações mais delicadas e, felizmente, não houve vítimas mortais a registar no concelho”, sublinha a autarca.
Ao nível dos impactos, os prejuízos são significativos e abrangem diferentes áreas. Foram identificados danos em habitações, explorações agrícolas, caminhos rurais, sistemas de drenagem e equipamentos municipais. A agricultura, setor estruturante da economia local, foi particularmente afetada. “Os campos estiveram submersos durante vários dias, com consequências diretas na produção e nos rendimentos dos agricultores. Estamos a fazer um levantamento rigoroso dos prejuízos para que possam ser enquadrados em apoios adequados”, afirma.
A informação recolhida já foi remetida às entidades supramunicipais competentes, com vista à ativação de mecanismos de apoio às populações e aos agentes económicos. Ainda assim, Helena Neves admite que este tipo de episódios levanta questões estruturais. “Estes fenómenos têm-se tornado mais frequentes e exigem uma resposta que vá além da intervenção imediata. É fundamental reforçar a prevenção e investir na manutenção das linhas de água e nos sistemas de drenagem”, defende.
A autarca aponta também para a necessidade de maior atenção por parte do Estado aos territórios ribeirinhos. “São zonas com vulnerabilidades específicas e recorrentes. É importante que haja investimento e planeamento que permitam reduzir o risco e proteger melhor as populações”, refere.
O Município de Salvaterra de Magos mantém agora os trabalhos de recuperação das áreas afetadas e prepara medidas de reforço da capacidade de resposta a futuras situações. “Estamos focados na reposição da normalidade e na criação de condições para enfrentar episódios semelhantes no futuro com maior resiliência”, conclui.




