Há empresas instaladas na zona da Castanheira do Ribatejo disponíveis para avançar com investimento próprio na criação de um ramal ferroviário ligado à Linha do Norte, numa solução que pode acelerar um dos maiores projetos económicos da região de Lisboa. A revelação foi feita ao Valor Local pelo presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, que admite que o envolvimento privado pode desbloquear uma infraestrutura considerada crítica para o futuro da plataforma logística e empresarial ali instalada.
O tema foi abordado diretamente com o ministro das Infraestruturas e Habitação durante uma recente visita ao “Vila Franca de Xira Business District”, numa deslocação que não contou com conhecimento prévio da comunicação social. O encontro serviu para colocar em cima da mesa uma das questões consideradas estruturais para o desenvolvimento daquele território: a criação de um ramal ferroviário dedicado às atividades económicas.
Ficou então acordada a realização de uma reunião técnica com a Infraestruturas de Portugal para avaliar a viabilidade concreta da ligação, seguida de um novo momento de articulação política envolvendo os ministérios das Infraestruturas, da Economia e do Ambiente. Para o município, este é o passo necessário para transformar uma intenção num compromisso efetivo, numa altura em que o investimento privado já dá sinais de disponibilidade para avançar.
“Este ramal pode vir a ser construído exclusivamente com investimento privado, o que significa que a própria Infraestruturas de Portugal não tem que investir”, afirmou Fernando Paulo Ferreira, sublinhando que várias empresas exportadoras já manifestaram interesse direto na solução.
Quadruplicação pode dar o empurrão definitivo
Apesar desse interesse, o avanço do projeto está dependente de um fator estrutural: a quadruplicação da Linha do Norte naquele troço, uma intervenção que não contemplava, à partida, esta ligação à plataforma logística. É precisamente neste ponto que autarcas e empresas procuram agora ganhar terreno, defendendo que a modernização da infraestrutura ferroviária deve ser aproveitada para integrar esta solução, sob pena de se perder uma oportunidade estratégica para a região.
Em causa está uma área que reúne atualmente cerca de três dezenas de empresas, num território com aproximadamente 360 hectares, e que deverá crescer para cerca de 740 hectares até 2030. Mais do que uma plataforma logística, o espaço tem vindo a assumir um perfil híbrido, integrando indústria, distribuição e novos setores tecnológicos, incluindo investimentos relevantes na área dos data centers e inovação.
A aposta na ferrovia surge como peça central de um modelo logístico multimodal que inclui já acessos rodoviários estruturantes, através da A1 e da A10, e um porto fluvial na Castanheira, atualmente em construção e com conclusão prevista ainda este ano. “Estamos a falar da extensão natural do Porto de Lisboa”, referiu o autarca, apontando para uma articulação entre transporte rodoviário, fluvial e ferroviário que poderá reposicionar toda a região no mapa logístico nacional.
O argumento económico acompanha a dimensão da ambição. O volume de negócios gerado pelas empresas atualmente instaladas ronda os mil milhões de euros, podendo mais do que duplicar com a expansão prevista. “Com este alargamento conseguiremos certamente mais que duplicar esse valor”, afirmou Fernando Paulo Ferreira, acrescentando que o impacto não se esgota na faturação, uma vez que os investimentos diretos em novas unidades empresariais deverão ultrapassar largamente esse montante.
Espera-se aumentar o número de trabalhadores
Também ao nível do emprego a evolução é significativa. O número de trabalhadores diretos, atualmente na ordem dos 2.300, poderá crescer para cerca de 4.200, num processo que o município vê como determinante para reforçar a captação de emprego qualificado e consolidar o papel do concelho na dinâmica económica da região de Lisboa.

Entre as empresas já instaladas encontram-se grupos com forte vocação exportadora, que veem na ferrovia uma alternativa estratégica ao transporte rodoviário. “A possibilidade de retirar camiões da estrada cresce muito com esta solução”, destacou o presidente da Câmara, referindo setores industriais e agroalimentares altamente dependentes de cadeias logísticas eficientes.
A expansão do “Business District” deverá ainda atrair novas empresas, podendo elevar o número total para cerca de quatro dezenas num horizonte de médio prazo. Um crescimento sustentado por uma localização estratégica, à entrada norte da área metropolitana de Lisboa, e por uma combinação de infraestruturas que poderá afirmar a Castanheira do Ribatejo como um dos principais hubs económicos do país.
Para o autarca, o alcance do projeto ultrapassa claramente as fronteiras do concelho. “Não é sequer um projeto de Vila Franca de Xira. É um projeto com capacidade para transformar completamente a logística, a indústria e as exportações no contexto metropolitano de Lisboa”, afirmou, deixando implícita a expectativa de que o Governo acompanhe o ritmo de investimento privado já disponível no terreno.




