Na sociedade portuguesa, há poucas datas que continuam a ter tanto significado para os portugueses como o 25 de abril, mas será que os jovens pensam da mesma forma? Para responder a essa questão o Valor Local questionou vários jovens com idades compreendidas entre os 26 e 27 anos, dos concelhos de Benavente e de Santarém
Um dos jovens com quem conversámos foi Rúben Cabo que, apesar de não ter vivido o ano de 1974, diz sentir-se próximo dessa época através dos relatos familiares. “As histórias que ouço nem sempre coincidem com a ideia que muitas vezes se tenta transmitir. É certo que existiam dificuldades, mas também havia estabilidade, respeito e valores. Hoje parece que se fala sobretudo dos aspetos negativos, esquecendo que nem tudo era mau e que algumas coisas funcionavam melhor do que atualmente.”
Acima de tudo, na opinião de Rúben, a História não deve ser utilizada como uma arma política. “É importante reconhecer os erros do passado, mas também ter coragem para admitir que nem tudo o que veio depois foi necessariamente melhor.”
Por sua vez, Tiago Miguel Jorge, conta que são os seus avós, os que lhe transmitem uma ideia mais concreta do que era viver naquela época. “Os meus avós, que estão atualmente com idades entre os 70 aos 80 anos, lembram-se naturalmente desse tempo. Portugal era um país pobre e o povo era pobre, no geral, sobretudo aquele que vivia fora dos meios urbanos. Por exemplo, não havia água canalizada, muito menos luz.”

Por outro lado, Ana Margarida Ramos, outra jovem com quem o Valor Local falou, explica que, apesar de não ter vivido nessa época, há aspetos de que ouviu falar, que não carecem de um grande exercício de imaginação. “Em criança tinha a sensação de que o ambiente totalitário vivido, antes de 74, no país era bem vivo, mas estava muito distante do que é hoje o presente.” “Não preciso de imaginar os meus avós, aos 10 anos, a ceifar, nem mais tarde dedicados ao trabalho de fábrica e doméstico. Ou o meu tio-avô a fugir à perseguição da PIDE.”
Para João Morgado, apesar de ter sido uma altura marcada pelas dificuldades, é importante relembrar a história. “Esses testemunhos são importantes porque tornam mais concreta uma realidade que, para a minha geração, poderia facilmente ser vista como distante no tempo e naquilo que temos hoje como garantido.”
No entanto, apesar de todos os pontos negativos deste regime, Tiago salienta que houve quem ficasse triste com a queda do salazarismo. “Nesse parâmetro tenho uma tia-avó que creio, por ter tido uma posição privilegiada no antigo regime (o marido era diretor no Banco Nacional Ultramarino), que me diz que não liga grande coisa ao 25 de Abril”. Relativamente à sua opinião, Tiago explica que há apenas uma certeza: “O maior culpado dessa tão desgraçada descolonização portuguesa foi António de Oliveira Salazar”.
Mesmo depois de 52 anos da Revolução dos Cravos, Rúben Cabo salienta que continua a ser importante recordar e celebrar esta data, no entanto, sem romantizar. “Contudo, não podemos esquecer o 25 de novembro de 1975, que deve ser lembrado com a mesma, ou até maior, importância do que o 25 de abril.”
Apesar de concordar que a liberdade foi um ponto positivo, não se contém de refletir sobre os aspetos negativos. “52 anos depois, o país está refém de interesses e a liberdade conquistada foi traída pela corrupção. As pessoas passaram de ser oprimidas por um regime ditatorial, para passarem a ser esquecidas por um regime democrático que falha em muitos aspetos.” No fundo, Rúben remata a dizer que “essa liberdade não põe comida na mesa nem resolve o preço dos combustíveis, alimentação e da habitação”.
Apesar das duas convicções políticas estarem alinhadas aos partidos mais à direita, Tiago Jorge acredita que o 25 de Abril terá sempre um papel relevante. “Quando se ouvem líderes políticos a dizerem que Portugal precisaria de 3 Salazares, este assunto torna-se ainda mais importante.” Além disso, apesar de muito se ouvir sobre como era a vida antes desta revolução, Tiago acredita que quem defende um regime autoritário o faz por “pura ignorância”. “Muitas pessoas não têm noção do que é um regime político persecutório como era o Estado Novo. Já pouca memória sobra disso, até porque a maioria da população viva não presenciou esses tempos”.
No mesmo tom, Ana Margarida Ramos explica que nenhum regime é perfeito. “Apesar de reconhecer que mesmo no regime atual existam decisões políticas e governamentais, que limitam a nossa qualidade de vida, também sei que o livre arbítrio de identidades e o cumprimento da Constituição são fundamentais, para à partida se cumprirem bases dos direitos humanos que a ditadura violava pela sua natureza.”

Jovens com opinião diferente sobre o hino nacional
Nos últimos anos, um dos temas que esteve em debate foi o próprio hino nacional, que muitos acham que assinala uma nuvem negra, marcada por violência por parte dos portugueses. E quem partilha dessa opinião, é precisamente Ana Margarida Ramos. “Apesar de não apoiar na totalidade o apagar histórico de um país, não consigo ter um agrado face ao hino nacional. É um hino que nos relembra a opressão colonialista portuguesa e requer o seu cuidado e enquadramento histórico do país.”
No entanto, Rúben Cabo considera essencial manter. “Como ex-militar, sei e acredito que todos os portugueses deveriam saber o que o Hino Nacional significa e que este vai muito além de uma simples música.” Na sua opinião “A Portuguesa” é um símbolo de identidade dos portugueses “enquanto nação, com história, soberania e fronteiras definidas.”
Quem concorda, é João Morgado – “É um dos símbolos mais fortes da identidade portuguesa”. “Vejo o hino como uma expressão de patriotismo saudável, que deve ser vivido com respeito, mas também com consciência crítica, enquadrando-o na história e nos valores que queremos projetar para o futuro”.
Já Tiago Jorge compreende os dois lados da moeda. “Sim, matámos e escravizámos muita gente e cometemos muitas injustiças. Mas antes de nós nunca ninguém tinha comprovado que a Terra era redonda, ou tinha colocado os continentes em contacto. Havia monstros no mar, e fomos nós que os matámos. Portanto, sim, fomos heróis do mar.”




