Para José Pedro Soares, tudo começou com o ingressar num simples movimento artístico. Esta é a história de mais uma figura local ligada ao 25 de Abril. “Em Vila Franca de Xira houve um movimento neorrealista liderado por Alves Redol, no qual me comecei a envolver.” “Estes grupos eram conhecidos por contar com a presença de Álvaro Cunhal, António Dias Lourenço e Soeiro Pereira Gomes”, começa por recordar como tudo começou.
Nessa altura, José tinha apenas 13 anos quando principiou u a interessar-se por cultura ao ler várias obras, tanto portuguesas como estrangeiras. “Foi aí que comecei a ter uma pequena noção do mundo que nos rodeava. Na altura tínhamos quase todos a quarta classe, mas queríamos evoluir e alargar os nossos horizontes.” “Ao mesmo tempo, é normal quando crescemos num mundo, onde ouvimos dizer que determinada coisa é proibida, e aos poucos começamos a questionar um pouco de tudo.”
Mas foi quando começou a trabalhar nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico (OGMA) que se apercebeu de todas as facetas da cultura do medo vivida e das injustiças sociais que existiam. “Eu era um jovem tipógrafo. Na altura trabalhava junto de outros jovens e aos poucos íamos falando sobre o estado dos países.”
Aos poucos, José Pedro Soares começou a organizar grupos clandestinos, onde partilhava opiniões sobre a guerra colonial por parte do Partido Comunista Português. “Era um risco que tínhamos de correr, não podíamos continuar a compactuar com o regime instalado, e fazíamos o que estava ao nosso alcance, mas a verdade é que nos íamos mentalizando para o que pudesse acontecer.”
Foi assim que José começou um movimento jovem trabalhador contra a Guerra Colonial. Nesta época foi quando Salazar caiu da cadeira e Marcelo Caetano preparava-se para ascender ao poder. “Nessa altura, preparávamos encontros clandestinos em alguns locais, onde discutíamos os problemas atuais. Como muitos desses jovens, em 1971, acabei por ser preso.” “Uma das pessoas importantes do movimento jovem trabalhador foi presa e acabou por relevar alguns nomes de participantes e eu fui um deles.”
“Era raro passar um dia sem que alguém fosse preso. O medo estava sempre presente nas nossas mentes.” José tinha apenas 21 anos e ainda se lembra desse dia como se fosse hoje, e como era militar, a PIDE foi buscá-lo ao quartel. “Disseram logo que era perigoso porque fazia reuniões clandestinas.”

“Durante 21 dias apenas me deixaram dormir uma noite”
E foi neste momento que toda a tortura começou. “Queriam fazer-me falar, mas desde o primeiro momento que decidi que não o faria. Era questão de honra.” No entanto, o caminho foi tudo menos fácil. “Muitos amigos já tinham sido presos, então sabia que o período de interrogatório seria o mais complicado.” Durante três meses, José esteve numa sala onde era vigiado pela PIDE, onde não comia nem dormia. “Numa das alturas mais críticas, num período de 21 dias, só me deixaram dormir uma noite.” Além disso, José estava quase sempre no escuro e quando não dava as informações que a PIDE queria, a solução era a pancadaria. “Cheguei a pensar que morreria.”
Depois desse período de três meses, era altura de José aguardar julgamento e esteve 23 meses na prisão de Caxias, e depois um ano em Peniche, até ser libertado. “Em Caxias, tratava-se de uma prisão mista, com salas onde estavam cerca de 5 a 7 presos juntos à espera de julgamento.” Depois desse período foi para Peniche, “uma cadeia com um regime muito severo onde os guardas estavam equipados muitas armas.”
Durante esses anos, as visitas eram apenas permitidas a familiares de primeiro grau, isto quer dizer pais e filhos, através de um vidro. “Foi um período de muito isolamento. É tudo feito de forma a desmotivar-nos e a destruir a essência das pessoas, para abandonarmos a luta. Mas a verdade, é que com tudo o que nos faziam, só nos davam mais força contra o sistema.” Para se motivarem uns aos outros, os presos políticos procuravam sempre estar presentes, com palavras de apoio.
Apesar de José ansiar pela queda do regime fascista, nunca imaginou como pudesse acontecer. “Enquanto militar sabia que havia movimentos lá fora a acontecer, e que muitos estavam a lutar por isso, mas não fazia ideia como tudo iria suceder.”
Para além do que se possa pensar, José explica que o que aconteceu a 25 de abril de 1975 foi mais do que apenas um desfile. “Foi uma tomada dos meios do Governo um por um.” José acompanhou todo o progresso na televisão da prisão.
Nesse dia, a emissão tinha sido interrompida e quando voltou apareceu uma imagem a dizer que se seguia um manifesto do Movimento das Forças Armadas. “Foi uma mistura de emoções, estávamos muito felizes, mas incertos com o futuro e tudo o que pudesse acontecer daí para a frente.” Os presos políticos foram libertados a 27 de abril, dois dias depois da Revolução.
“Durante o fascismo havia uma associação composta por, principalmente, advogados, que denunciavam tudo o que a PIDE fazia e que teve um papel muito importante.” Quando o sistema caiu deixou de haver a necessidade de denunciar a PIDE, por isso nasceu uma nova associação, a União de Resistência Antifascista Portugueses. “Surgiu com o propósito de valorizar as lutas que todos enfrentámos, e para que todos os factos fossem contados da forma correta.” O movimento nasceu quando foi aprovada a Constituição da República.
“Ao longo de 50 anos tivemos esse papel de celebrar as vidas e agora, algo que continua mais atual e necessário do que sempre” José, salienta que agora estamos a enfrentar uma época política conturbada, “onde querem tirar os direitos às mulheres e apostar na pena de morte”. “Isto são coisas que já tínhamos como garantidas, que agora são colocadas em causa.” Na opinião de José, estas “ideias extremistas” aproveitam-se da “desinformação da população” para ganharem pontos. “Por isso é que faço questão de partilhar a minha experiência. Para mostrar a realidade.”
Depois de 52 anos da revolução de 25 de abril, as ideias extremistas e machistas voltam a ganhar força, na sua opinião. “Estamos a viver um contexto triste e surpreendente. É importante chamar as pessoas à atenção, porque os retrocessos vão sempre ser sentidos pelo povo.”
Mas o tópico da imigração também não fica esquecido. “Portugal é um país que precisa de imigrantes e é triste ver este tipo de discursos. É preciso aprender a respeitar todas as pessoas enquanto cidadãos e lutar pela paz. Até mesmo com as guerras e com todas as crianças a morrer. É muito triste.”
Na opinião de José, toda esta conjuntura atual torna ainda mais essencial relembrar a importância do 25 de abril. “Temos de construir a democracia e só se chega lá quando todos participamos dela e dela cuidamos.”




