Em muitas aldeias e freguesias da nossa região, o espírito comunitário continua a resistir graças ao trabalho discreto, persistente e voluntário de associações, coletividades e comissões de festas. São, muitas vezes, pessoas jovens — algumas com raízes antigas na terra, outras que chegaram mais tarde — que recusam deixar morrer tradições, memórias e espaços de encontro. Entre dificuldades, dedicação e vontade de fazer, estas associações mostram que a vida comunitária não se perdeu: constrói-se todos os dias, com presença e compromisso.
Em Arrifana, pequena aldeia do concelho de Azambuja situada quase na fronteira com Santarém, a Sociedade Recreativa voltou a ser muito mais do que um edifício aberto em dias de festa. Tornou-se, novamente, um ponto de encontro, de memória e de futuro, impulsionado por uma direção que acredita que a vida comunitária se constrói com trabalho, persistência e presença.
À frente desta dinâmica estão Filipe Couto e Irina Marcelino, dois percursos diferentes, unidos pela mesma vontade de não deixar fechar portas nem apagar tradições. Filipe chegou a Arrifana em 2020, depois de anos ligados ao associativismo e às artes, e sentiu desde cedo que viver numa aldeia implica participar nela. “Desde o princípio não fez sentido estar numa comunidade sem contribuir minimamente para ela”, afirma. Já Irina mantém uma ligação familiar profunda à Arrifana, onde várias gerações da sua família estiveram sempre ligadas à sociedade. “Isto é uma forma de estar ligada às minhas raízes”, explica.
Quando a atual direção tomou posse, em 2022, a Sociedade estava fechada há mais de um ano, sem atividade e com sinais evidentes de abandono. “As pessoas não gostavam de ver a sociedade fechada, porque isto representa o trabalho de gerações inteiras da aldeia”, recorda Filipe. A partir daí, começou um processo paciente de recuperação: arrumar, pintar, reparar, equipar e, sobretudo, devolver vida ao espaço. O princípio foi simples e exigente ao mesmo tempo: organizar, pelo menos, um evento por mês e recuperar tradições antigas de Arrifana.
Uma das primeiras apostas foi o Jantar dos Compadres e das Comadres, uma tradição antiga, ligada ao Carnaval, que durante décadas existiu apenas em ambiente privado. A Sociedade trouxe-a para o espaço coletivo, juntando homens e mulheres, respeitando os rituais antigos, mas adaptando-os aos dias de hoje. Seguiram-se noites de fados, sessões de cinema, karaoke, magustos, festas das vindimas, passeios culturais e festas anuais que já não se realizavam há cerca de 20 anos.

As festas maiores tornaram-se momentos particularmente marcantes. Durante três dias, a aldeia enche-se de música, tasquinhas, bombos, ranchos, folclore e convívio. “No domingo de manhã, quando a banda percorre todas as ruas, vemos pessoas mais velhas a chorar, a reviver a juventude. É um misto de alegria e saudade”, conta Filipe. São momentos que devolvem sentido à memória coletiva e combatem o isolamento, sobretudo entre os mais idosos.
A direção é composta por cerca de 15 pessoas, com idades entre os 21 e os 72 anos, o que permite uma diversidade de ideias e de ritmos. Ainda assim, o desgaste existe. “Nem toda a gente aguenta este tipo de dedicação”, reconhece Filipe. São horas diárias, fins de semana inteiros, meses de preparação para três dias de festa. “É quase como um segundo trabalho”, admite Irina. Quando o mandato terminou, chegou a haver várias assembleias sem candidatos a nova direção, mas a ausência de alternativas levou o grupo a renovar o compromisso.
Apesar das dificuldades, os resultados são visíveis. A Sociedade tem atraído novos sócios, recuperou o espaço exterior, criou murais, melhorou cozinhas, salas e equipamentos, e tornou-se novamente uma extensão da casa das pessoas. “Queremos que isto seja um espaço de encontro, onde se possa fazer um jantar de família, um convívio, uma atividade cultural”, explica Filipe.
O Recuperar da Tradição do Chocalho
No Natal de 2024, a aposta passou também pela recuperação de tradições quase desaparecidas, como o evento do chocalho, uma prática antiga que envolvia os rapazes da aldeia e que deixou de se realizar há cerca de 50 anos. A escassos dias, os dois elementos da associação explicavam assim a aposta neste evento: “Estamos a falar com as pessoas mais velhas para recolher memórias e fazer isto da forma mais fiel possível”. O objetivo passou por envolver toda a comunidade, independentemente da idade, e transformar o passado em experiência partilhada no presente.
Há também um lado solidário que marca o trabalho da Sociedade. No ano passado, após um incêndio que destruiu a casa de uma família com duas crianças, a coletividade organizou um almoço solidário que reuniu mais de 300 pessoas e permitiu angariar quase seis mil euros para a recuperação da habitação. “Foi um gesto pequeno, mas com grande significado”, sublinha Filipe.
Em Arrifana vivem cerca de 180 pessoas. Algumas trabalham fora, outras regressaram depois da reforma, muitas mantêm ligações antigas à terra. A Sociedade Recreativa tem sido um ponto de equilíbrio entre essas realidades. “Quando vemos pessoas que estavam fechadas em casa a aparecer às seis da manhã para ajudar a descascar batatas, percebemos que isto vale a pena”, resume Irina.
Num tempo em que muitas aldeias perdem serviços, gente e espaços de encontro, a Arrifana prova que o espírito comunitário não desaparece por decreto. Resiste onde há quem esteja disposto a fazer, a insistir e a acreditar que a tradição não é nostalgia, é continuidade.

“O Chocalho fazia-nos sentir livres”
António Fernando tinha pouco mais de 10 anos quando correu as ruas de Arrifana com chocalhos, guizos e campainhas, na quinzena que antecedia o Natal. “Éramos miúdos, 10, 11, 12 anos, e andávamos pela aldeia a fazer barulho, a mostrar que havia animais de trabalho, bois, vacas”, recorda. Não batiam às portas, mas havia desafios e brincadeiras, muitas vezes guiadas por um adulto que iluminava o caminho numa aldeia ainda sem eletricidade. “Ele andava à nossa frente com uma cana e uma sola de sapatilha a arder, era o nosso guia.”
Eram dezenas de rapazes, “só rapazes naquele tempo”, numa época em que as famílias tinham muitos filhos e as brincadeiras inventavam-se na rua. “Não havia eletricidade, não havia nada. Nós é que fazíamos as nossas brincadeiras. Cada época tinha a sua.” O ritual dos chocalhos era vivido como um desafio e também como uma pequena transgressão. “Era um desafio à autoridade”, admite, lembrando os tempos de maior rigidez antes do 25 de Abril.
António Fernando acredita que a tradição vinha de trás, passada entre gerações. “Os meus pais e os meus avós também deviam ter feito isto. Tinha de vir de algum lado.” Com o passar dos anos, muitas dessas práticas perderam-se. “Depois do 25 de Abril deixou de existir. Houve muita coisa que se perdeu.”
Por isso, vê com bons olhos o esforço atual da Sociedade Recreativa em recuperar esta memória. “Acho bonito. Tenho 64 anos e há pessoas mais novas que já não se lembram disto. Assim fica uma recordação para os filhos e para os mais novos.” Para António Fernando, trazer de volta os chocalhos não é nostalgia: é manter viva uma parte da identidade da Arrifana.
À semelhança do que aconteceu noutras zonas do país, sobretudo em meio rural, este tipo de rituais informais protagonizados por rapazes funcionava como uma verdadeira válvula de escape simbólica numa época marcada pelo autoritarismo, pela disciplina rígida e, muitas vezes, por práticas educativas assentes no castigo físico e na obediência absoluta. Durante o Estado Novo, a vida quotidiana era fortemente regulada pela família, pela escola, pela Igreja e pelas autoridades locais, restando poucos espaços de liberdade para a juventude. Nessas ocasiões específicas, associadas ao ciclo festivo do inverno, os jovens apropriavam-se temporariamente das ruas, faziam ruído, corriam a aldeia e quebravam a ordem estabelecida, num gesto coletivo que não era político, mas profundamente libertador. Tradições semelhantes, com maior ou menor expressão, existiram em várias regiões do país, do Ribatejo às Beiras, do Alentejo ao Norte interior, embora muitas se tenham perdido com o tempo, ficando apenas na memória de quem as viveu.




