A sala de exposições da Fábrica das Palavras em Vila Franca de Xira, acolhe, por estes dias, uma mostra que assinala uma década de renovação da Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, reunindo os trabalhos dos grandes premiados entre 2016 e 2024. Com curadoria de David Santos, diretor do Museu do Neo-Realismo, a exposição propõe um percurso pela fotografia contemporânea, sublinhando o reforço da qualidade artística, a consolidação de um programa curatorial exigente e a afirmação da Bienal no panorama nacional.
A renovação iniciada em 2016 representou uma viragem profunda na história da Bienal, ao nível do regulamento, do sistema de premiação e da própria filosofia curatorial. A introdução de um conselho de curadores, responsável por selecionar um conjunto restrito de finalistas, permitiu uma triagem mais rigorosa das obras a concurso, garantindo uma seleção baseada essencialmente na qualidade fotográfica e na consistência conceptual dos trabalhos apresentados. Segundo David Santos, a prioridade passou a ser a valorização da expressão artística e da contemporaneidade do exercício fotográfico, rejeitando leituras meramente circunstanciais ou alinhadas com modas estéticas.

A exposição reúne, assim, um conjunto de linguagens muito diversas, refletindo a pluralidade de caminhos que hoje atravessam a prática fotográfica. Entre os trabalhos em destaque encontra-se o de Rui Dias Monteiro, premiado em 2016, cuja obra parte da recolha de imagens no interior do país para refletir sobre a identidade local e a universalidade da condição humana. As suas fotografias cruzam o íntimo e o coletivo, convidando à contemplação e à interrogação sobre o lugar de cada um no mundo.
Em 2018, o prémio distinguiu José António Quintanilha, cujo trabalho propõe uma observação poética do mundo através de pequenos objetos e artefactos do quotidiano. As suas imagens convocam memórias, símbolos e histórias fragmentadas, remetendo para uma arqueologia afetiva onde os amuletos, as formas e os vestígios do passado ganham nova densidade narrativa. Questionado sobre os critérios de escolha, o curador sublinha que não existe uma linha temática pré-definida, sendo cada edição avaliada de forma autónoma, em função da qualidade e da originalidade das propostas apresentadas.
A certa altura, confrontado com a ideia de que há fotografias que, aparentemente, qualquer pessoa poderia fazer, David Santos salienta que a prática artística não se esgota na dimensão técnica. Embora a aprendizagem dos meios permita a muitos alcançar resultados semelhantes, aquilo que distingue verdadeiramente um autor é a sua capacidade de interpretar o mundo e propor uma visão própria. Mais do que captar o real, o fotógrafo constrói uma leitura subjetiva desse real, mobilizando referências culturais, sensibilidade estética e imaginação. É nesse território, entre o visível e o invisível, que a fotografia se transforma em obra artística, permitindo ampliar as perceções do observador sobre a vida, o tempo e o mundo.
O percurso expositivo integra ainda a obra de Alexandre de Magalhães, vencedor em 2024, cuja fotografia alia uma notável qualidade técnica a uma dimensão metafísica. As suas imagens do real adquirem um carácter de transcendência, criando atmosferas de suspensão e mistério que desafiam o observador a construir a sua própria narrativa. Para o curador, trata-se de um exemplo claro de como a fotografia pode ultrapassar a mera representação do real, abrindo espaço à reflexão e à interpretação subjetiva.
Outro dos núcleos marcantes pertence a Sebastiano Raimundo, premiado em 2022, que apresenta um trabalho de investigação visual e conceptual sobre a simbologia da Sicília. Entre fotografias a preto e branco e a cores, o artista constrói uma narrativa onde mitologia, memória, trabalho agrícola e identidade cultural se entrelaçam, revelando uma paisagem humana profundamente enraizada na tradição e na passagem do tempo. Todas as imagens, lembra o curador, transportam uma história em potência, que se completa sempre no olhar de quem observa.
A exposição inclui também a obra de Teresa Huertas, vencedora em 2020, que explora a noção de paisagem através de diaporamas digitais. As suas sequências de imagens introduzem uma subtil sensação de movimento, criando uma experiência imersiva onde o estático e o dinâmico se fundem, conduzindo o público a uma perceção mais abstrata e sensorial do real.
Para além da celebração do percurso da Bienal, esta mostra antecipa também as próximas exposições previstas ao longo do ano, dedicadas aos prémios da tauromaquia e do concelho de Vila Franca, reforçando a dinâmica cultural contínua deste projeto. Em paralelo, a organização prepara já a edição de 2026, que assinala igualmente o reforço do valor monetário dos prémios, agora fixado nos 10 mil euros, numa aposta clara na valorização artística e na atração de criadores de reconhecida qualidade.
Dez anos depois da renovação, a Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira afirma-se como um espaço de experimentação, reflexão e encontro entre artistas e públicos, confirmando a fotografia como um território aberto, plural e em constante transformação.




