Os Bombeiros Voluntários de Azambuja assinalaram este sábado o seu 94.º aniversário numa cerimónia marcada pela emoção, pelo reconhecimento do voluntariado, por críticas contundentes ao subfinanciamento do setor e pela reafirmação do compromisso do município com a proteção civil.
A sessão solene ficou especialmente marcada pela intervenção da comandante da corporação, Thays Freixo, que abriu os discursos com palavras profundamente sentidas dirigidas a bombeiros, dirigentes, funcionários, estagiários, cadetes e famílias, sublinhando o espírito de missão que caracteriza a instituição.
“Hoje celebramos 94 anos de história, de entrega, de coragem e de serviço à nossa comunidade. Uma data que honra o passado, valoriza o presente e projeta o futuro desta instituição”, afirmou, destacando o caráter voluntário e solidário do trabalho desenvolvido diariamente pelos bombeiros.
Num dos momentos mais emocionantes da cerimónia, a comandante evocou dois bombeiros falecidos em 2025, António Valada e Joaquim Sérgio, convidando os presentes a substituírem o habitual minuto de silêncio por um aplauso prolongado. “A vida que deram à causa merece ser lembrada com gratidão, orgulho e respeito”, sublinhou.

Ao longo da sua intervenção, Thays Freixo deixou palavras de profundo reconhecimento à direção, aos órgãos sociais e aos funcionários da associação, que classificou como “pilares silenciosos do dia a dia”, bem como aos estagiários, aos veteranos e às crianças da escolinha de infantes e cadetes, destacando a importância da formação cívica e do serviço ao próximo desde tenra idade.
A comandante não esqueceu o sacrifício das famílias dos bombeiros, sublinhando que “são elas que ficam, que esperam, que se preocupam e que, em silêncio, suportam a ausência de cada bombeira e bombeiro”.
O discurso abordou ainda a dureza do último ano operacional. “O ano de 2025 foi especialmente duro. Foram incontáveis horas longe de casa, momentos importantes perdidos, corpos cansados e corações sobrecarregados. Houve desgaste, houve sacrifício, mas nunca faltou dedicação, profissionalismo e espírito de missão”, frisou.
Um dos momentos mais simbólicos da cerimónia foi protagonizado pelo grupo Firekids, a escola de bombeiros destinada às crianças mais pequenas, que prestou uma homenagem surpresa à comandante. Um gesto carregado de simbolismo, que emocionou os presentes e reforçou a aposta da associação na formação das novas gerações e na transmissão dos valores da solidariedade, da responsabilidade e da cidadania ativa.
Seguiu-se a intervenção de Edgar Anastácio, em representação da direção da associação, num discurso marcado por um tom mais institucional e reivindicativo, com críticas diretas ao Estado e ao subfinanciamento crónico das corporações de bombeiros.
O dirigente alertou para as dificuldades financeiras que continuam a afetar a sustentabilidade das associações humanitárias, apontando atrasos significativos nos pagamentos por parte do INEM. “Neste momento, o Estado deve à associação os meses de novembro e dezembro, estando já a chegar ao final de janeiro, o que torna muito difícil uma gestão equilibrada e o cumprimento de todos os compromissos”, afirmou.
Edgar Anastácio criticou ainda a desigualdade de exigência entre o Estado e os particulares. “Entre privados, o incumprimento gera sanções imediatas. Mas quando é o Estado a não cumprir, não acontece nada. Isto é profundamente injusto e coloca em risco a capacidade operacional das corporações”, alertou.
No seu discurso, destacou também o peso determinante dos bombeiros no sistema nacional de proteção civil, lembrando que cerca de 87% das operações de socorro em Portugal são asseguradas por corporações voluntárias. “Se não fossem os bombeiros, a proteção civil simplesmente colapsava”, sublinhou.
Apesar das críticas, o dirigente deixou palavras de reconhecimento ao município de Azambuja e às juntas de freguesia da área de intervenção, salientando o investimento feito na melhoria de equipamentos, viaturas, formação e infraestruturas, bem como o reforço dos meios operacionais. Entre os apoios referidos estiveram a aquisição de equipamentos de proteção individual, meios de suporte básico de vida, materiais para formação e viaturas elétricas destinadas a reforçar a mobilidade operacional.
A encerrar a sessão, interveio António José Matos, presidente da direção da associação e vice-presidente da Câmara Municipal de Azambuja, que assumiu a representação institucional do município na ausência do presidente da autarquia.
Reconhecendo a “posição particular” de acumular funções na direção da associação e no executivo municipal, António José Matos sublinhou a importância de um novo paradigma de cooperação entre o poder político, os bombeiros e as juntas de freguesia. “Hoje existe mais proximidade, mais diálogo, mais compromisso e mais esperança. Só assim conseguimos servir melhor a população”, afirmou.
O autarca destacou o papel central dos Grupos de Intervenção Permanente e o investimento contínuo do município no reforço da proteção civil, sublinhando que “cada euro investido nos bombeiros é um investimento direto na segurança das pessoas”.
António José Matos garantiu ainda que o município continuará a reforçar os meios humanos e materiais, assegurando uma resposta operacional permanente ao longo dos 365 dias do ano. “Azambuja tem sido, e continuará a ser, um exemplo na proteção civil. Isso deve-se à dedicação dos bombeiros, mas também à cooperação institucional que temos vindo a consolidar”, concluiu.
A cerimónia ficou marcada por vários momentos simbólicos, homenagens, entrega de distinções e um ambiente de forte reconhecimento público, numa celebração que refletiu o peso histórico, social e humano de quase um século de serviço dos Bombeiros Voluntários de Azambuja à comunidade.




