A Câmara Municipal de Azambuja reconhece que desconhecia a verdadeira dimensão da Barragem da Retorta, uma realidade que só se tornou plenamente visível após os episódios de chuva intensa das últimas semanas e que obrigaram a uma intervenção urgente no local para salvaguarda de pessoas e bens.
Em declarações exclusivas ao Valor Local, o presidente da Câmara explicou que a autarquia não tinha conhecimento da existência de uma massa de água com aquela dimensão. “Aquilo que temos de informação, por parte das palavras da senhora ministra e do senhor presidente da APA, é que aquela massa de água, com cerca de um milhão de metros cúbicos, não está referenciada nos planos nem nas autorizações que deveria ter”, afirmou.
Segundo o autarca, até então apenas tinha ouvido referências à existência de uma pequena barragem utilizada informalmente no verão. “Ouvia falar que as pessoas iam para ali no verão tomar banho e ir à pesca, porque há uma barragem mais pequena, com cerca de cinco hectares. Essa, sim, ouvia falar. Agora, uma massa de água com cerca de 12,5 hectares, desconhecia completamente”, sublinhou, acrescentando que ficou “seriamente preocupado” ao perceber o risco iminente que a situação poderia representar.
Perante o agravamento do cenário e a possibilidade de rutura da Barragem da Retorta, a Câmara Municipal de Azambuja avançou com um conjunto de ações no local, sempre com o conhecimento, acordo e autorização das entidades competentes. “Nada fizemos por nossa autorrecriação. Tudo o que foi feito foi aconselhado pelos senhores engenheiros e acompanhado pelas entidades competentes”, garantiu o presidente.
Entre os trabalhos realizados, destacou a abertura de um sangrador para baixar a cota da água e reduzir a pressão exercida sobre as margens e o talude da barragem, bem como a execução de um novo dreno. “Estivemos no sábado toda a tarde a acompanhar os trabalhos. Os nossos colaboradores e meios externos estiveram no terreno até cerca das três da manhã”, referiu, explicando que estas intervenções permitiram já uma descida do nível da água entre 70 e 80 centímetros. “Queremos que a água baixe cerca de um metro e meio para termos a situação em segurança”, acrescentou.
A situação levou à evacuação preventiva de cerca de 50 a 60 pessoas na Póvoa de Manique e nos Carvalhos, devido ao risco associado à Barragem da Retorta. “Tivemos de evacuar essas pessoas e elas ainda não regressaram às suas casas”, explicou o presidente. Os desalojados encontram-se alojados em casas de familiares e amigos, não tendo sido necessário recorrer a estruturas de acolhimento de emergência. A escola da Póvoa de Manique permanece encerrada por razões de segurança.
O presidente da Câmara sublinhou que, neste momento, a prioridade absoluta da autarquia é a proteção das populações. “A minha preocupação agora não é saber se a situação é legal ou ilegal. A minha preocupação é salvaguardar os interesses das pessoas e os bens das pessoas. É só isso. O resto resolve-se depois”, afirmou.
Para além da Póvoa de Manique, o mau tempo tem provocado constrangimentos significativos noutros pontos do concelho. Em Vila Nova da Rainha, a situação continua a ser descrita como difícil, com várias ocorrências relacionadas com inundações, instabilidade do terreno e vias condicionadas, obrigando a uma monitorização constante por parte dos serviços municipais e da Proteção Civil.
O impacto global da intempérie no concelho de Azambuja traduz-se em estradas cortadas ou em risco, deslizamentos de terras, campos agrícolas completamente alagados, quintas afetadas, cortes de energia, árvores derrubadas e diversas situações de perigo. “Há estradas quase interrompidas, nacionais incluídas, terras que escorregaram, campos completamente alagados e prejuízos muito significativos para a agricultura”, descreveu o presidente.
Embora o levantamento exato dos danos esteja ainda em curso, o autarca admite que os prejuízos já registados ascendem a valores elevados. “Ainda não fizemos o rescaldo final, mas consigo pensar em centenas de milhares de euros”, afirmou.
Face à dimensão dos estragos e aos meios já acionados, a Câmara Municipal de Azambuja entrou em plano de contingência, considerando, no entanto, que este instrumento é insuficiente para responder às necessidades criadas. “O plano de contingência fica muito aquém em termos dos apoios e daquilo que já tivemos de acionar, incluindo meios externos ao município, para garantir o bem-estar das pessoas”, explicou.
Nesse sentido, a autarquia enviou um documento formal ao primeiro-ministro, ao ministro da Administração Interna, ao ministro da Presidência e ao comandante da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, dando igualmente conhecimento às autoridades locais. “Temos de olhar para esta situação de uma forma bastante efetiva e pedir apoio, porque estamos a falar de pessoas, de bens e de segurança”, concluiu o presidente.
A visita da ministra do Ambiente ao local, prevista para hoje, é encarada pela autarquia como um momento determinante para consolidar as soluções em curso e definir os próximos passos, num processo que continuará a ser acompanhado de perto pelas entidades competentes e pelo município




