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Do incêndio do Chiado aos quatro AVC: a vida de Pedro Gago ao serviço dos outros

Entrar nos bombeiros nunca foi um plano. Mas Pedro Gago, hoje com 64 anos, cresceu a ver o pai e, olhando para trás, acredita que isto já lhe corria no sangue. Ao longo dos últimos anos tem-se destacado também pelo trabalho voluntário na região.

“O meu pai nunca quis que eu entrasse nos bombeiros. Ele sabia bem os perigos… mas eu sempre tive essa determinação”, começa por contar. Tudo começou em 1982, depois de fazer vários cursos de primeiros socorros. “Queria ajudar o próximo. E sabia que os bombeiros dão tudo, às vezes até a própria vida.”

Foram 14 anos de serviço, com muitos episódios marcantes. Um deles ficou para sempre na memória: o incêndio dos Armazéns do Chiado, em 1988.

Esteve no incêndio do Chiado

Na altura trabalhava na Câmara de Lisboa. Ia a passar junto ao Rossio quando olhou para o lado e viu labaredas com mais de três metros de altura. “Pensei logo: isto vai ser complicado para os bombeiros.”

Seguiu caminho, mas começou a ver carros de bombeiros por todo o lado e ruas a serem cortadas. Quando chegou à Câmara, foi chamado ao quartel. “Não tinha um tostão na carteira. Pedi à minha mulher cinco escudos… era tudo o que tinha.”

O percurso até lá foi um pesadelo. Primeiro de autocarro, depois de táxi. “Dizia ao taxista: leve-me o mais rápido possível, eu sou bombeiro.” Acabaram por ser escoltados pela polícia. “Parecia uma cena de filme.”

No meio de tudo isto, houve momentos que nunca esqueceu. Um deles aconteceu já no segundo dia. “Deram-nos um tempo para comer, mas não tínhamos nada. Fui a um café com os cinco escudos. Estávamos sujos, suados… as pessoas afastaram-se quando entrámos.” Pediu uma sandes, mas no fim a dona não quis aceitar o dinheiro. “Agradeceu-nos. Aquilo marcou-me.” “Foi uma experiência de loucos”, resume.

O cansaço também foi extremo. “Deram-nos ordem para descansar ao fim do dia, mas antes da meia-noite já estávamos a sair outra vez, desta vez para um incêndio em Sacavém.” Horas depois, regressaram ao Chiado. “As bilhas de gás começavam a explodir… era muito complicado.”

O desastre ferroviário da Póvoa

Outro momento que nunca esqueceu foi o acidente ferroviário de Póvoa de Santa Iria, em 1986, que fez 17 mortos e 83 feridos.

“Um colega até brincou quando chegámos, disse que não sabia que a CP tinha comboios de dois andares… mas aquilo era tudo menos para brincar.” Um comboio tinha ficado em cima do outro. “O cenário era devastador.” Mais tarde, o inquérito concluiu que o travão não tinha sido acionado.

Em 1996, decidiu sair dos bombeiros. “Custou-me muito. Ainda hoje, quando ouço uma sirene, dá-me vontade de ir a correr. ”A vida profissional seguiu por vários caminhos. “Fui distribuidor, trabalhei em fábricas, segurança… até tive armas apontadas à cabeça.” Reformou-se por invalidez em 2017.

Mas os maiores golpes vieram na vida pessoal. Perdeu dois filhos, em acidentes, um em 1994 e outro já nos anos 2000. “Foi muito difícil recuperar disso.”

A saúde também não ajudou. Sofreu quatro AVC. “Nos primeiros três nem dei conta… foram os meus pais e a minha companheira que perceberam.” O último foi há cerca de dois anos. “Estava sozinho em casa. Comecei a sentir a cara a tremer, mas não liguei. Fui tomar banho, deitei-me… depois levantei-me e vi ao espelho que tinha a cara torta.”

Foi ao hospital. A tensão estava descontrolada. Ficou com sequelas e foi também detetado um pequeno tumor cerebral, ainda em acompanhamento.

“Nunca deixei de ajudar”

Apesar de tudo, nunca perdeu o foco. “Sempre tentei ajudar da forma que podia.”

Fundou a Comissão de Utentes da Castanheira do Ribatejo, depois de sentir na pele as falhas do sistema. “Quis dar voz às pessoas.” Recentemente, voltou ao ativo no voluntariado, ao integrar a Associação Humanitária Resgate Emergência de Portugal. Inicialmente recusou. “Não estava pronto… era muito trabalho.” Mas acabou por aceitar e foi nomeado comandante distrital de Lisboa.

“Mesmo com os meus problemas de saúde, quiseram contar comigo. E eu aceitei.”

A associação conta já com mais de 100 operacionais e está neste momento a promover uma campanha de recolha de bens para famílias afetadas pelas cheias.

Uma vida marcada por perdas, doença e momentos extremos… mas com uma constante que nunca mudou: a vontade de ajudar os outros.

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