Na Granja, freguesia de Vialonga, o desconforto da população com a polémica instalação de uma vacaria a poucos metros das habitações e de uma escola ganha novos contornos. Depois de a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira ter embargado os trabalhos no terreno e da CCDR-LVT (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo) ter notificado formalmente o proprietário, Francisco Clamote, para parar com as movimentações, os moradores garantem que a obra continua — agora de forma mais dissimulada, mas não menos preocupante.
Ao Valor Local, João Nisa, residente na localidade, denuncia que o proprietário voltou ao terreno em pleno mês de agosto, período de férias para muitos, e tem estado a avançar com novas movimentações ilegais. “Está a retirar terra da margem da ribeira e a usá-la para encher ainda mais o terreno junto à estrada. Em vez de repor a cota de 2003, como foi exigido, está a fazer precisamente o contrário — está a levantar o terreno onde devia estar a escavar”, lamenta o morador, que alerta para a possibilidade de o inverno trazer cheias ainda mais intensas à aldeia. “Com o terreno naquela zona mais elevado e a margem do rio cortada, a água vai entrar mais cedo e com mais força na Granja.”
Estava previsto instalar uma vacaria em regime extensivo num terreno de 12 hectares, na zona da Lezíria das Madrugas. Fica apenas a 100 ou 200 metros das casas e a cerca de 350 metros da escola. O projeto começaria com 15 vacas. Mas os moradores receiam que esse número aumente com o tempo. Temem maus cheiros, pragas, cheias e a desvalorização das casas. A contestação já levou à recolha de mais de mil assinaturas. O abaixo-assinado foi enviado à CCDR-LVT.
“Proprietário está a aproveitar-se da passividade das entidades”
Para João Nisa, a estratégia do proprietário é clara: “Está a aproveitar o silêncio e a passividade das entidades em agosto para continuar a obra como se nada se tivesse passado. A Câmara disse-nos que ele já não pode instalar a vacaria porque perdeu a licença. Mas ele continua lá, todos os dias, até às dez da noite, a encher o terreno de terra.”
Vídeos e fotos das movimentações têm sido enviados à Junta de Freguesia e à Câmara Municipal, mas as respostas têm sido escassas. “Recebemos mensagens a dizer ‘vamos ver’ ou ‘vamos verificar’. Parece que a fiscalização é feita à hora certa para não ver nada”, ironiza João Nisa, que teme que este arrastar da situação resulte numa “vitória por cansaço” do lado do investidor.
GNR não conseguiu atuar
Entretanto, a GNR, contactada pelos moradores, respondeu que nada pode fazer por se tratar de um terreno privado. Mas os residentes refutam essa leitura. “A CCDR foi clara: ele está proibido de movimentar terra. Não é uma questão de propriedade, é uma questão de ilegalidade”, sublinha o morador.
Com a aproximação do inverno e as margens da ribeira a desaparecerem sob camadas de terra, a população da Granja exige uma atuação urgente e eficaz. “Não podemos ficar à espera que a água nos entre pelas portas para então as entidades acordarem”, avisa João Nisa. “Estamos fartos de promessas. Queremos ações.”