Tivemos um mês rico em acontecimentos económicos e políticos que poderiam fazer debruçar o nosso pensamento, escrever páginas inteiras emitindo as mais diversas opiniões sobre o que vai bem e mal, o que devia mudar. Podíamos estar a falar dos resultados eleitorais no meu concelho (Vila Franca de Xira) onde o sabor é agridoce, da possível contagem decrescente da vida política de André Ventura, de um Orçamento de Estado mais contabilístico do que político ou dos problemas nos bancos regionais nos Estados Unidos que poderão trazer-nos uma nova crise. Mas vamos falar da decisão parlamentar do fim do uso das burcas em espaços públicos. Um atentado à liberdade como não víamos há muito tempo.
A Constituição da República Portuguesa no seu artigo primeiro afirma: “Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”. Leram bem… uma sociedade livre. A liberdade está presente na nossa Constituição quando diz que: “A liberdade de consciência, de religião e de culto é inviolável”. Como diz o povo, “para bom entendedor, meia palavra basta”.
A proibição do uso de burcas é o início de uma era, onde as liberdades e a democracia serão enfraquecidas à conta de supostas sensações e atitudes por parte de seres considerados superiores. Não podemos considerar isto como o novo normal, onde são criadas leis porque se acha ou se tem a sensação de algo. Não somos todos criminosos pela nossa religião, orientação sexual ou raça. Acreditar na Igreja Católica não nos faz todos pedófilos, acreditar no Islão não nos faz todos bombistas suicidas. Tocar na liberdade de podermos ser o que quisermos, acreditarmos no que quisermos, amarmos quem quisermos, vestirmo-nos como quisermos é uma linha vermelha que não devemos deixar ultrapassar.
Não podemos voltar a admitir que a religião interfira no Estado e por isso, o Estado não pode interferir na religião. Este princípio é o que nos ajudou a dar o direito de voto às mulheres, da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adoção por casais do mesmo sexo, o aborto ou a eutanásia. Porque no fim, o Estado tem de garantir os direitos e liberdades (e respetivos deveres) para que cada um tenha a liberdade de as usar. O extremismo é mesmo isto, a imposição de normas sobre uma minoria com o objetivo de ir demonstrando força à maioria. A pergunta que devemos fazer é: qual a diferença entre a proibição skinny jeans, mullets e certos piercings na Coreia do Norte considerados elementos de “uma vida capitalista”, com a proibição das burcas em Portugal por uma suposta sensação de insegurança?
Este é o momento de repensarmos a nossa forma de agir enquanto sociedade. Precisamos de mais respeito pelos outros. Não há seres humanos de primeira e de segunda só porque acreditamos em algo diferente. Se considero que a prática ou a forma de pensar de alguém não é aceitável, o método que tenho ao meu dispor de provocar a mudança chama-se pedagogia. É mostrar ao outro que o caminho pode ser diferente e melhor, que as sociedades evoluem. Mas nunca pela imposição da minha vontade.




