O impasse em torno do restaurante Páteo do Valverde, em Azambuja, voltou a marcar a mais recente reunião de Câmara. O vereador do PSD, Luís Benavente, quis saber em que ponto se encontra o processo, lembrando que a abertura do espaço continua adiada apesar de sucessivas expectativas criadas ao longo dos últimos anos.
O Valor Local já tinha noticiado anteriormente que o concessionário não cumpriu os prazos previstos no contrato firmado com o município, mantendo o edifício fechado e impedindo a concretização do objetivo inicial: ter no centro da vila um restaurante de referência que dinamizasse a zona envolvente.
Perante a pergunta do vereador, o presidente da Câmara, Silvino Lúcio, confirmou que a autarquia está a atuar juridicamente para resolver a situação. Nas suas palavras, o concessionário “não cumpre minimamente aquilo que estava comprometido através do contrato que assinou com a Câmara, já lá vão quase quatro anos”. O autarca adiantou ainda que o município se encontra “num processo de expulsão”, expressão que reconheceu ser forte, mas que traduz o ponto a que a situação chegou.
A intenção da autarquia passa agora por recuperar o espaço, resolver o vínculo com o atual concessionário e garantir que o Páteo do Valverde possa finalmente vir a abrir portas e funcionar como estava previsto desde o início. “Aquilo que todos pretendemos é ter aqui um restaurante de referência. Foi esse o intuito que nos levou a avançar, mas as coisas não correram bem e agora temos de ir por este caminho”, afirmou Silvino Lúcio.
Para já, a Câmara assume que está a ultimar os procedimentos legais que permitam desbloquear a situação e devolver utilidade a um espaço que continua fechado desde o início da concessão.
Cronologia de um restaurante que não voltou a abrir portas
A concessão do Restaurante Páteo do Valverde foi atribuída no início de 2022 à empresa Prime Alecrim Events & Food Experience, do empresário Luís Espírito Santo. O objetivo era claro: transformar o espaço num restaurante de referência e contribuir para o reforço da oferta gastronómica e turística da sede de concelho. Dois anos depois, o cenário era o oposto do esperado.
Em janeiro de 2024, o Valor Local revelou que o concessionário acusava o construtor Joaquim Mesquita, da empresa Léguas Nítidas, de atrasar deliberadamente as obras, apesar de ter recebido um sinal de 10 mil euros. A reportagem confirmou no local que embora o interior tivesse sofrido várias intervenções estruturais, o restaurante permanecia em estado de estaleiro. Espírito Santo relatava dificuldades constantes em contactar o empreiteiro, apontando promessas falhadas e trabalhos mal executados. O empresário pediu sucessivas prorrogações de prazo à Câmara, argumentando que o atraso não lhe era imputável, e solicitou ainda a suspensão das rendas durante 2024, apesar de afirmar que as vinha pagando desde o início da concessão.
As obras recomeçaram dias depois, já no final de janeiro de 2024, após a publicação da notícia do Valor Local, com a Léguas Nítidas a colocar no local uma equipa subcontratada. O concessionário considerou na altura que eram “boas notícias”, esperando que os trabalhos pudessem finalmente avançar para permitir a reabertura do espaço.
Um caso repleto de “últimas chances”
Em abril de 2024, a Câmara concedeu uma última prorrogação: 270 dias para finalizar a obra, fixando novembro como prazo limite. Tanto o executivo como a oposição consideraram que era impossível prolongar mais o calendário. O vice-presidente António José Matos classificou aquele período como “a última chance”, sublinhando que as rendas estavam a ser pagas apesar do restaurante permanecer fechado. Mas mesmo nesta fase Espírito Santo continuava a relatar problemas com empresas responsáveis por fachadas e janelas, mostrando-se receoso quanto à capacidade de cumprir o prazo, embora convicto de que tentaria fazê-lo.
O caso voltou a agravar-se em 2025. Em agosto desse ano, o Valor Local noticiou que, três anos após o início da concessão, o restaurante continuava encerrado e sem horizonte definido. A Câmara rescindiu unilateralmente o contrato com a Prime Alecrim Events, após sucessivos incumprimentos e prazos falhados. O vice-presidente assegurou que o município tinha concedido mais tempo do que o previsto no contrato, mas sem resultados. Elementos da oposição criticaram quer o atraso na atuação do município, quer a degradação do espaço ao longo de anos, defendendo a necessidade de um novo concurso e de maior transparência no processo. Ainda no anterior mandato, a vereadora Inês Louro lamentava o estado de abandono, enquanto Rui Corça, também antigo vereador, considerava que apenas uma nova concessão poderia resolver o problema.
O futuro do restaurante permanece agora dependente da conclusão do processo jurídico iniciado pela Câmara, que pretende recuperar o espaço e lançar uma nova solução para um edifício que, apesar do potencial reconhecido por todos, nunca chegou a abrir portas.




