Em Cardosas, aldeia marcada por profundas transformações ao longo das últimas décadas, o Clube Desportivo, Recreativo e Cultural continua a afirmar-se como um dos principais pilares de convivência e identidade local. À frente da coletividade estão Isabel Costa e Cláudio Ricardo, dois rostos de uma direção que assume, sem romantismos, as dificuldades e as exigências do associativismo, mas também a convicção de que vale a pena insistir.
Depois de um período particularmente difícil durante a pandemia, em que a associação esteve praticamente parada e sem atividade, o clube entrou numa nova fase de dinamização. Sem nunca ter acumulado dívidas, mas enfrentando constrangimentos financeiros e humanos, a atual direção apostou na realização regular de eventos como forma de recuperar a vitalidade do espaço e reforçar o espírito de comunidade. Almoços de aniversário, festivais gastronómicos, noites de fados, festas tradicionais e iniciativas dirigidas a diferentes faixas etárias passaram a marcar o calendário anual.
Atualmente, o clube conta com cerca de 300 sócios, embora apenas uma parte esteja ativa no pagamento de quotas, numa aldeia com pouco mais de 700 habitantes. A coletividade reúne não só residentes, mas também antigos moradores e familiares que mantêm uma ligação afetiva à terra. Ainda assim, mobilizar quem vive na aldeia nem sempre é simples. “As pessoas muitas vezes não veem a associação, veem quem lá está”, resume Cláudio Ricardo, apontando divisões antigas, dinâmicas familiares e até questões políticas como obstáculos à participação.
Isabel Costa reconhece que o voluntariado exige perseverança. “Nem toda a gente aguenta este tipo de compromisso”, admite. Estar à frente de uma associação implica tempo, disponibilidade e capacidade para lidar com críticas, muitas vezes feitas à distância. “As pessoas dizem que o trabalho está bem feito, mas depois não aparecem. E sem participação é difícil evoluir”, acrescenta Cláudio Ricardo, sublinhando que o maior desgaste não é financeiro, mas humano.
Apesar das dificuldades, há sinais positivos. O clube conseguiu criar atividades regulares como aulas de ginástica e zumba, dinamizou um centro sénior em parceria com a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia e abriu espaço a novas áreas, como a pesca desportiva federada, que hoje leva o nome de Cardosas a várias zonas do país. A aposta passa por eventos inclusivos, pensados para diferentes realidades económicas, e por formatos que promovem o convívio, como mesas corridas e entradas acessíveis.
O apoio das autarquias, sobretudo ao nível logístico, tem sido decisivo, permitindo melhorar equipamentos, legalizar património e garantir condições mínimas de funcionamento. Ainda assim, a sustentabilidade da coletividade continua a depender, em grande medida, do envolvimento das pessoas.
“Se não forem estas associações, se não houver quem esteja disposto a dar tempo e energia, as aldeias ficam apenas como locais de passagem”, resume Cláudio Ricardo. Entre dificuldades, críticas e pequenos sucessos, o Clube Desportivo, Recreativo e Cultural de Cardosas resiste como espaço de encontro e pertença, sustentado por quem acredita que o espírito de comunidade não se decreta, constrói-se, dia após dia.




