O fecho das urgências de obstetrícia no Hospital de Vila Franca de Xira está a pressionar os bombeiros da região, com tempos de resposta a duplicar, aumento de partos em ambulância e maiores custos operacionais. Para várias corporações, trata-se de um sinal claro de fragilidade do Serviço Nacional de Saúde. As grávidas em situação de urgência passam a ser transferidas para o Hospital Beatriz Ângelo em Loures.
Só a título de exemplo, as distâncias até ao Hospital de Loures ajudam a perceber a dimensão do problema. Desde a Merceana, o percurso pode rondar os 50 quilómetros, enquanto de Santo Estêvão, em Benavente, ultrapassa os 55 quilómetros. Já no caso de Alcoentre, no concelho de Azambuja, a deslocação pode chegar aos 80 quilómetros. Na prática, cada transporte pode significar viagens de mais de 150 quilómetros, entre ida e volta, com impacto direto no tempo de resposta, na disponibilidade dos meios e no risco acrescido para grávidas em trabalho de parto.
O fecho das urgências de obstetrícia surpreendeu toda a linha de cuidados de saúde e os bombeiros não foram exceção. Com o aumento do número de partos nas ambulâncias, estradas ainda fechadas devido aos danos causados pelas tempestades e horas de espera para dar entrada nas urgências, as equipas de socorro continuam prontas para assegurar os seus serviços, que agora foram novamente desafiados.
Para conhecer de perto todas as problemáticas que envolvem esta decisão, o Valor Local falou com cinco corporações de bombeiros que se encontram mais afastadas do Hospital Beatriz Ângelo. Isto inclui as localidades de Merceana, Benavente, Arruda, Alcoentre e Castanheira do Ribatejo. Tudo isto, de modo a compreender de que forma esta decisão afeta a vida diária dos utentes e os constrangimentos que pode causar a curto e longo prazo para os corpos de bombeiros.

Segundo Nuno Almeida Santos, comandante dos Bombeiros Voluntários da Merceana, esta foi uma decisão que impactará diretamente os meios disponíveis e com a qual não contava. “Para os utentes das freguesias do alto concelho de Alenquer, de certeza que irá impactar e muito. Vila Franca já faz parte da rotina das pessoas e agora é muito mais complicado conseguirem chegar, pelos seus próprios meios, até Loures”, salienta.
Mas será na própria organização da corporação que os maiores impactos serão sentidos. “Afeta principalmente o tempo de atuação. Em vez de 30 a 40 minutos, vamos demorar até duas horas”, acrescenta.
No último ano, os dados indicam que o número de partos tem vindo a aumentar e o comandante acredita que essa tendência irá continuar. “Isto significa um impacto quer para a mulher e a sua segurança, mas também para os bombeiros, que temos de estar preparados para estas situações.”
Segundo a ministra da Saúde, esta é uma decisão temporária, algo com que o comandante não concorda. “Não acredito que isto se altere.” Apesar disso, admite que o Hospital de Vila Franca de Xira já não era uma solução viável nos últimos anos. “Se em 2020 nos dissessem que isto ia acontecer, ninguém ia acreditar. Mas a verdade é que as urgências já encerravam ao fim de semana e agora esta decisão só se tornou permanente.”
No entanto, esta decisão impactará mais do que apenas as grávidas. “Não acredito que o Hospital de Loures tenha capacidade para receber todos os utentes de Vila Franca de Xira, mesmo quando estamos a falar apenas a nível de urgências.”
Nos últimos anos, explica, Vila Franca de Xira tinha um serviço de excelência, que tem vindo a degradar-se. “Mas temos de dar estabilidade às pessoas.” Na sua opinião, acima de tudo, esta decisão não transmite segurança nem confiança aos utentes, algo que considera fundamental. No entanto, esta decisão não é a única que impacta a qualidade do serviço dos bombeiros.
Bombeiros da Merceana reforçam formações para estar mais bem preparados
“Todos estes aumentos que temos sentido nas últimas semanas criam constrangimentos financeiros. Se as nossas equipas ficarem mais tempo retidas num serviço, poderá haver necessidade de as reforçar e, sem dinheiro, isso não pode acontecer.”
Apesar de tudo, o comandante garante que já estão a ser tomadas medidas para que a população não seja afetada. “Estamos a reforçar as formações, para termos maior capacidade de resposta e capacitar todos os operacionais.” Atualmente, a equipa é composta por 55 bombeiros no ativo e 22 profissionais.
“A garantia que podemos dar é que podem contar connosco. Estamos disponíveis 24 horas por dia e somos o único elo da cadeia de saúde que não fecha. Há sempre alguém disponível para socorrer”, remata.

“Não temos alternativas, mas uma coisa é certa: o socorro não pode parar.”
Mas há quem tenha uma leitura diferente. O comandante José Nepomuceno, dos bombeiros de Benavente, considera que “não foi uma grande surpresa”. “Eram mais as vezes que estava fechado do que aberto”, afirma. “A surpresa foi a referenciação para o Hospital de Loures. Achei que pudesse ser o Hospital de Santarém.”
Ainda assim, identifica pontos positivos e negativos. “Se estivermos sempre referenciados para o mesmo hospital, pode ser positivo, porque não perdemos tempo com reencaminhamentos. Já sabemos com o que contar e isso pode ser uma mais-valia.”
No entanto, alerta para os custos. “Isto significa um aumento superior a mil euros por mês só em combustíveis. Embora tenhamos acordo com o INEM, é manifestamente insuficiente.” Para se deslocar até Loures, a corporação passa a percorrer mais de 80 quilómetros adicionais. “Não temos alternativas, mas uma coisa é certa: o socorro não pode parar.”
Em 2025, a equipa de Benavente fez quatro partos em ambulâncias e mesmo antes do fecho das urgências de obstetrícia, o número de formações já tinha aumentado. “Todos os bombeiros têm formação a nível de parto que fizemos junto de enfermeiros para nos ajudarem a aliviar algumas preocupações.”
Fora essas situações, o Comandante acredita que não haverá outros tipos de constrangimentos. A equipa dos Bombeiros Voluntários de Benavente tem a capacidade de aguentar quatros emergências ao mesmo tempo, por isso, as horas gastas nas deslocações espera-se que não terá repercussões.
“Quando corre bem, os bombeiros são uns heróis, mas quando isso não acontece, somos crucificados. É pensar que continuamos a contar com o apoio dos hospitais e lidar com cautela”, assegura.

Bombeiros de Alcoentre: “Pode ser um risco acrescido pra mães e bebés e também os operacionais”
Já Eifel Garcia, comandante em Alcoentre, considera que a situação “não pode ser encarada com normalidade”. “É um sinal claro de que o sistema pode estar a empurrar situações clínicas para fora do ambiente hospitalar. Pode representar um risco acrescido para mães, bebés e operacionais.”
No caso de Alcoentre, isto significa mais tempo de missão, maior probabilidade de partos fora do hospital e menor disponibilidade de meios.
“Atualmente, uma urgência hospitalar demora entre duas a duas horas e meia. Com Loures, passa para três ou quatro horas. É extremamente penalizador.” Para o comandante, o sistema passa a depender ainda mais dos bombeiros, sem reforço de meios. “Na prática, ficamos mais vulneráveis.”
“Apelamos também a um uso responsável dos serviços de emergência. O Hospital de Vila Franca de Xira continuará a ser uma unidade importante, mas estas decisões podem levar a uma perda progressiva de valências e capacidade de resposta, o que preocupa quem depende diretamente deste serviço”.

pode mais do que duplicar
Comandante dos voluntários da Castanheira alerta para o aumento de casos de burnout
Também Bartolomeu de Castro, da Castanheira do Ribatejo, alerta para o aumento de transportes de parto e menor disponibilidade operacional. “Antes demorávamos 35 a 40 minutos. Agora pode levar duas horas.” Além disso, aponta para riscos de desgaste das equipas. “Podemos vir a ter mais casos de burnout.” No entanto, uma das situações mais problemáticas, na opinião do comandante Bartolomeu de Castro, são os falsos alarmes. “Estamos a deslocar pessoas para dezenas de quilómetros de casa e temos uma população com dificuldades financeiras, que pode não ter como regressar a casa, caso não seja consumado o parto.”
“Quando as pessoas decidem mudar-se para Vila Franca de Xira, há um conjunto de fatores que pesam, desde a proximidade a Lisboa e os valores mais baixos das casas, por exemplo. Mas quando temos um problema nos serviços básicos de saúde, isto torna-se mais grave e pode levar até a uma estagnação do crescimento do município.”
Além disso, traz uma nova preocupação: a natalidade. “Acredito que os jovens de hoje em dia, ao verem estes problemas, pensem duas vezes antes de engravidar.”
Bartolomeu salienta que estas mudanças se têm vindo a cimentar desde 2023, momento em que se começou a registar um aumento no transporte de emergências médicas. “Antes disso, nunca tínhamos tido partos consumados. Nos últimos dois anos registaram-se pelo menos dois.”
O maior receio de Bartolomeu é que outras áreas e serviços especializados do Hospital de Vila Franca de Xira sigam o mesmo caminho. “Não se está a resolver um problema, está apenas a ser transferido para outro lado.” Na sua opinião, esta decisão demonstrou “falta de empatia e sensibilidade dos agentes políticos nos cargos mais altos.”
“Há 50 anos que protegemos a população e queremos continuar a fazê-lo, embora todas estas limitações no funcionamento do estado da saúde em Portugal nos criem dificuldades. É importante que a população se sensibilize, porque só ela a consegue mudar.”

Por último, Pedro Pereira, comandante de Arruda dos Vinhos, deixa um aviso mais grave: “É mais um sinal de que o SNS está prestes a colapsar.” “O que vemos é falta de recursos humanos e concentração de serviços num só local, o que pode levar à sobrecarga e perda de capacidade de resposta.”
“O que temos visto é a falta de recursos humanos e, agora, esta decisão leva à concentração de serviços num só local, o que, na minha opinião, pode levar à sobrecarga de mais um serviço, que acaba por não ter capacidade de resposta.”
Mas há outra situação para a qual o comandante alerta. “É mais grave quando os serviços do hospital acabam por não fechar as urgências para não afetar as estatísticas. Chegamos a ter ambulâncias retidas horas à espera, para que no fim fôssemos reencaminhados para outro local. Isto não pode acontecer.”
Arruda dos Vinhos foi um dos municípios mais afetados pelas tempestades dos últimos meses, o que levou ao encerramento de várias estradas. “Já tínhamos feito um trabalho de gestão nesse sentido, que conta com o apoio de outros corpos de bombeiros.”
Esta decisão veio agravar todos estes problemas que já eram sentidos. “Já temos dificuldades de acesso, quanto mais ao deslocar para Loures, o que nos ocupa não só tempo, como equipas.”
No entanto, as corporações de bombeiros nas redondezas, particularmente de Sobral de Monte Agraço, também são acionadas, de modo a garantir sempre o socorro à população. “Nós vamos sempre, mas contamos com esse apoio porque podemos levar mais tempo na mesma deslocação.” Neste momento, os bombeiros de Arruda dos Vinhos têm duas equipas de emergência hospitalar.
“Centralizar todos os serviços em Loures pode causar ainda mais problemas, uma vez que não é um exemplo de hospital que não tenha constrangimentos. Mas o que acontece quando deixarem de ter capacidade para nos receber?”
A tudo isto soma-se ainda a questão da gasolina. “Ainda não recebemos quaisquer apoios até ao momento. O que sabemos é que, semana após semana, há novos aumentos e nenhuma entidade entrou em contacto connosco.” Num simples abastecimento de 4 mil litros, isso significa um aumento de 800 euros.
“Temos um apoio que nos ajuda com 60 cêntimos por quilómetro, mas é um valor muito baixo. No total, significaria cerca de 90 euros e, se antes dos aumentos já não era grande ajuda, agora muito menos.” No entanto, o Governo já confirmou que vão existir apoios aos bombeiros, mas Pedro salienta que ainda não foram notificados de nenhuma mudança ou dadas informações sobre como podem ter acesso aos mesmos.

Mais partos fora do hospital e aumento da mortalidade expõem fragilidades nas urgências de obstetrícia
O agravamento das dificuldades no acesso aos cuidados de saúde materno-infantis está a lançar novos sinais de alerta, sobretudo na região Sul do país. Dados recentes divulgados pela Direção-Geral da Saúde apontam para um aumento da mortalidade fetal, infantil e materna em 2024, com maior incidência em territórios como a Península de Setúbal, uma das zonas onde se têm verificado maiores constrangimentos no funcionamento dos serviços.
A par destes indicadores, cresce também a preocupação com o aumento de partos realizados fora do ambiente hospitalar, nomeadamente em ambulâncias, num contexto marcado pelo encerramento de serviços de ginecologia-obstetrícia, pela concentração de urgências e pela escassez de profissionais de saúde.
Segundo o Sindicato dos Médicos da Zona Sul, estas regiões coincidem com aquelas onde se registam maiores carências de médicos e maiores dificuldades no acesso aos cuidados primários e pediátricos. A organização sublinha que a atual reorganização dos serviços, associada à falta de recursos humanos, está a criar pressão adicional sobre o sistema, com impacto direto na segurança e no acompanhamento das grávidas.
O cenário é também sentido no terreno pelos bombeiros, que têm sido cada vez mais chamados a responder a situações de emergência relacionadas com partos em contexto não hospitalar. A crescente frequência deste tipo de ocorrências levanta preocupações quanto às condições de segurança e ao nível de resposta disponível fora das unidades de saúde.
Apesar de Portugal continuar a apresentar, no plano global, indicadores historicamente positivos na área materno-infantil, fruto do desenvolvimento do Serviço Nacional de Saúde ao longo das últimas décadas, os dados mais recentes revelam uma inversão desta tendência, ainda que ligeira, mas significativa no contexto atual.
Os médicos alertam que, sem um reforço efetivo de meios humanos e sem a reabertura ou estabilização dos serviços, o risco é de agravamento progressivo dos indicadores já nos próximos anos. Em causa está não apenas a capacidade de resposta do SNS, mas também o aumento das desigualdades no acesso aos cuidados de saúde, sobretudo em regiões mais pressionadas.
A evolução destes dados e a resposta das entidades de saúde serão determinantes para perceber se o atual contexto representa uma situação conjuntural ou o início de uma mudança mais estrutural no acesso aos cuidados materno-infantis em Portugal.




