Embora o programa oficial do Colete Encarnado seja marcado pelas homenagens ao campino, pelas largadas de toiros e pelos espetáculos, a verdadeira alma da festa encontra-se muitas vezes atrás das portas abertas das tertúlias. É aí que se preservam memórias, se fortalecem amizades e se mantém viva uma tradição que atravessa gerações.
A Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Vila Franca de Xira descreve frequentemente estes espaços como autênticos “museus vivos”. Nas suas paredes acumulam-se fotografias antigas, cartazes, troféus, peças de vestuário tradicional e objetos carregados de significado. Contudo, o valor das tertúlias não está apenas no espólio que guardam, mas sobretudo nas pessoas que o interpretam e transmitem. Como referem os seus representantes, “são museus vivos, onde existe muito espólio e muita história”.
Quem entra numa tertúlia encontra muito mais do que recordações expostas. Encontra histórias contadas por quem as viveu, memórias familiares e um património cultural que continua a ser transmitido de geração em geração. Para a associação, é precisamente essa capacidade de preservar e transmitir conhecimento que faz das tertúlias uma peça fundamental da identidade vila-franquense.
A transmissão geracional surge como uma das maiores preocupações, mas também como uma das maiores forças destes espaços. A Tertúlia Lezíria, representada por Madalena Lourenço, é um exemplo dessa continuidade. Fundada por familiares seus, continua a reunir várias gerações da mesma família. “A tertúlia foi fundada pelo meu bisavô e agora já cá estão os bisnetos a ajudar para que tudo se continue a fazer”, conta.
Para Madalena, o Colete Encarnado está profundamente ligado à ideia de família. “Representa a família, a partilha, o convívio e o reencontro”, afirma. Durante os dias da festa, familiares e amigos voltam a encontrar-se, recuperam memórias e reforçam laços construídos ao longo dos anos. É essa dimensão humana que faz do Colete Encarnado muito mais do que um simples evento festivo.
Também Diogo Câncio, fundador da Tertúlia A Rambóia, destaca a importância das tertúlias enquanto espaços de continuidade cultural. Fundada a 26 de março de 2005, a Rambóia nasceu da sua paixão pela cultura taurina e pela recolha de objetos ligados à Festa Brava. O que começou como um sonho pessoal transformou-se num espaço de convívio, amizade e promoção das tradições locais.
“A Rambóia é um sonho de juventude que tive a imensa sorte de conseguir realizar”, afirma. Atualmente, continua a reunir frequentadores de várias idades, demonstrando a capacidade das tertúlias para aproximar gerações.
Na perspetiva de Diogo, estes espaços “desempenham ou deveriam desempenhar um papel essencial na transmissão e salvaguarda dos valores e das práticas associados à tauromaquia”. Durante o Colete Encarnado, assumem ainda uma importância acrescida, funcionando como locais privilegiados para divulgar a história, a cultura e as tradições de Vila Franca de Xira.
Outra das características mais marcantes das tertúlias é a sua capacidade de inclusão. Guilherme Nunes, dos Amigos do Dedal e do Tinto, também fundada em 2005, destaca precisamente essa realidade. “As festas do Colete Encarnado têm essa particularidade: conseguem juntar aficionados e não aficionados todos no mesmo sítio e todos em convívio”, afirma.
Essa abertura reflete-se também na forma como os visitantes são recebidos. Segundo Guilherme, “quase 99,9 por cento das pessoas que entram numa tertúlia vão ser bem recebidas”. As portas permanecem abertas a quem chega, seja um amigo de longa data, um visitante ocasional ou alguém que está a descobrir a festa pela primeira vez.
“Temos de manter as tradições, isso é fundamental para as futuras gerações, mas inovando”
O ano de 2022 permanece particularmente vivo na memória dos entrevistados. As comemorações dos 90 anos do Colete Encarnado proporcionaram momentos que muitos consideram históricos. Madalena recorda a emoção de assistir à passagem dos toiros pela Ponte Marechal Carmona. Diogo descreve esse momento como “uma ocasião verdadeiramente mágica e inesquecível”. Depois dos anos marcados pela pandemia, aquele acontecimento simbolizou também um reencontro coletivo com a festa.
Apesar da importância da inovação, todos defendem que a evolução do Colete Encarnado deve respeitar a sua identidade. Guilherme acredita que é necessário acompanhar os tempos sem perder as raízes. “Temos de manter as tradições, isso é fundamental para as futuras gerações, mas inovando”, afirma.
Diogo alerta igualmente para os riscos da descaracterização. Na sua opinião, o Colete Encarnado nasceu como homenagem ao campino, ao mundo rural e ao toiro bravo, sendo precisamente essa singularidade que lhe confere valor. “É precisamente na sua diferença, no seu carácter marcadamente identitário, que reside o encanto e a capacidade de atração desta festa”, sustenta.
A preocupação com o futuro está igualmente presente quando se fala dos mais jovens. Ainda assim, os exemplos da Lezíria, onde os bisnetos dos fundadores já participam ativamente, e da Rambóia, que continua a atrair novas gerações, demonstram que existe vontade de dar continuidade a este património humano e cultural.
No final, quando terminam as largadas e os campinos regressam às lezírias, permanece aquilo que todos os entrevistados identificam como a verdadeira essência do Colete Encarnado: as portas abertas das tertúlias, a amizade, a memória, a tradição e o sentimento de pertença a uma comunidade que continua a encontrar nesta festa a sua maior expressão coletiva.
Como resume Diogo através do lema da sua tertúlia, talvez o espírito do Colete Encarnado possa ser explicado em apenas três palavras: “Amizade, Festa, Tradição.”




