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A tradição regressou a Vila Franca de Xira: “O passado não volta, mas podemos recuperar o que tinha de melhor”

Depois de quatro décadas, Vila Franca de Xira voltou a celebrar os Santos Populares num formato bastante querido pela população, um arraial popular. “Há Festa no Adro”, que aconteceu a 12 e 13 de junho, representou mais do que apenas uma tradição. Em entrevista ao Valor Local, o presidente da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira, Ricardo Carvalho, defende que o desenvolvimento de uma cidade não se mede apenas pelas obras realizadas ou pelos equipamentos construídos, mas também pela capacidade de preservar a memória coletiva e criar espaços de encontro.

“Conhecer o território onde vivemos é mais do que saber o nome das ruas ou identificar os principais monumentos. É preciso também compreender a história das pessoas que vieram antes de nós”, começa por explicar. Isto, de forma a conhecer de perto as principais tradições, descobrir os seus porquês, resultando numa maior ligação à sua terra.

No entanto, apesar da forte identidade e comunidade em Vila Franca, a verdade é que a cidade “viveu uma transformação muito significativa, talvez uma das maiores da sua história contemporânea”. Pelas palavras de Ricardo Carvalho, quem conheceu a cidade há quarenta anos encontra hoje uma realidade diferente, tanto do ponto de vista urbano como social, económico e cultural. “Como geógrafo, gosto de olhar para o território como um organismo vivo, em constante transformação, que cresce, se adapta e se reinventa em função das necessidades das pessoas.”

Desta forma, destaca a melhoria das infraestruturas, dos equipamentos públicos e da qualidade de vida, mas admite que algumas mudanças tiveram impacto na comunidade e na tradição. “Fomos ganhando qualidade urbana, mas também fomos assistindo à perda gradual de alguns elementos que ajudavam a construir a identidade coletiva.” Entre os símbolos dessa transformação, Ricardo Carvalho recorda o antigo cinema de Vila Franca de Xira, que considera ser uma das maiores perdas da cidade nos últimos anos. “Era um ponto de encontro entre gerações, um local onde se criavam memórias, onde se vivia cultura e onde a cidade se encontrava consigo própria”, sublinha. Se fosse possível, este era um dos espaços que faria renascer.

Apesar de Vila Franca ter uma forte identidade enraizada através da figura dos campinos e avieiros, o presidente da junta explica que existe efetivamente um risco de as tradições e a história se perderem. “Acredito sinceramente que esse risco existe”, admite. Na sua opinião, isso poderá acontecer por vivermos num mundo cada vez mais globalizado, onde conhecer novas culturas e costumes está à distância de um clique e, por isso, muitos jovens acabam por conhecer melhor realidades distantes do que a história da própria comunidade. “Quando uma criança ou um jovem conhece a história da sua terra, passa a olhar para ela de forma diferente. Deixa de ser apenas o local onde mora para passar a ser um espaço de pertença.”

Autarca salienta importância da cultura avieira

Para muitos, a identidade de Vila Franca resume-se aos campinos e à tauromaquia. O autarca salienta que a história da região também passa pela cultura avieira. “Durante séculos, estas duas realidades coexistiram lado a lado, embora de formas distintas.” Por isso, na sua opinião, o pescador avieiro e o campino são duas faces da mesma história, onde cada um representa um estilo de vida exigente, dependente da natureza, marcado pelo trabalho árduo e pelo espírito de resiliência. “Ambos contribuíram para construir os valores presentes nos vilafranquenses, como a coragem ou a solidariedade.”

É precisamente neste contexto que surge o regresso do arraial popular. Ricardo Carvalho rejeita a ideia de que se trate de uma tentativa de voltar ao passado, defendendo antes a recuperação dos valores associados a essas celebrações. “O passado não volta e nem deve voltar. O que procuramos fazer é trazer para o presente aquilo que de melhor existia nessas tradições, que neste caso é o convívio, a proximidade e a alegria partilhada”, explica.

No entanto, admite que a decisão foi também influenciada pelas memórias das pessoas, que muitas vezes falavam dos antigos arraiais e das festas populares que marcaram a vida local. “Muitas pessoas recordavam esses momentos com um brilho especial no olhar. Não estavam apenas a recordar uma festa, estavam a recordar uma forma de viver a cidade”, afirma.

Através de iniciativas como esta, o autarca espera fortalecer a comunidade, contando sempre com o apoio às associações. “São as associações que mantêm vivas muitas tradições, que promovem o voluntariado, que unem gerações e que ajudam a construir o sentimento de pertença à terra.” Para Ricardo Carvalho, o movimento associativo continua a ser uma das maiores forças da freguesia. Além de desempenharem um papel importante na organização de eventos culturais e recreativos, as associações assumem também uma função social relevante, ao criarem espaços de convívio e promoverem a participação dos cidadãos entre diferentes gerações.

Além disso, considera que grande parte da identidade local continua a ser preservada graças ao trabalho desenvolvido por coletividades, grupos culturais, associações recreativas e desportivas, que ao longo dos anos têm mantido vivas tradições e costumes que fazem parte da história do concelho. Com isto, também reconhece que é necessário que tenham capacidade de se renovar, com novas ideias, e caminhar para uma maior autonomia. “As entidades públicas têm o dever de apoiar o movimento associativo. Mas as associações são mais fortes quando conseguem desenvolver projetos sustentáveis, diversificar fontes de receita, criar capacidade própria e afirmar a sua independência.”

A par de tudo isso, Ricardo Carvalho admite que ainda há trabalho a fazer para dar maior visibilidade à cultura avieira, bem como ao associativismo em Vila Franca. “Naturalmente, a tauromaquia alcançou uma projeção pública muito significativa ao longo das últimas décadas.” Através de eventos como o Colete Encarnado, ainda assim, na sua opinião, isso não significa que os avieiros tenham menor importância, antes pelo contrário. “Se a tauromaquia ajuda a explicar a relação de Vila Franca de Xira com a lezíria, a cultura avieira ajuda-nos a compreender a sua ligação ao Tejo.”

Apesar de a tradição ser uma das suas preocupações, há várias problemáticas nas quais Ricardo Carvalho procura focar-se durante o seu mandato, que vão desde a habitação até às questões sociais. O presidente da Junta explica que a experiência adquirida ao longo dos anos lhe ensinou que os melhores projetos para um território nem sempre surgem dos gabinetes, mas sim do contacto direto com as pessoas.

“Quando assumimos responsabilidades autárquicas, é natural que tenhamos ideias, projetos e objetivos para o território. Mas aprendi que os melhores projetos não nascem apenas dos gabinetes ou dos planos estratégicos. Nascem sobretudo daquilo que ouvimos diariamente das pessoas”, afirma.

“É necessário ouvir os problemas da população”

Para o autarca, quem exerce funções de proximidade tem o dever de escutar a população e compreender as preocupações que afetam o dia a dia das famílias. “Quem exerce funções de proximidade tem o privilégio e a responsabilidade de escutar. E quando se escuta verdadeiramente a população percebe-se rapidamente que, por detrás das grandes discussões políticas ou técnicas, existem preocupações muito concretas que afetam a vida das famílias.”

É por isso que, ao olhar para o atual mandato, Ricardo Carvalho aponta a qualidade de vida da população como a principal prioridade. “Quando penso nos principais desafios e projetos para este mandato, penso antes de mais na qualidade de vida das pessoas.” Entre os vários desafios identificados, a habitação surge como uma das questões mais urgentes. “A habitação é, sem dúvida, uma das maiores preocupações da atualidade”, refere. Ao mesmo tempo, preocupa ainda o impacto que o aumento dos preços e a dificuldade de acesso ao mercado habitacional têm tido nas famílias, sobretudo entre os mais jovens.

“O verdadeiro desenvolvimento mede-se pela capacidade de proporcionar qualidade de vida e pela possibilidade de um jovem poder ficar. Mede-se pela capacidade de um idoso envelhecer com dignidade e pela existência de espaço público de qualidade, de respostas sociais adequadas, de habitação acessível e de uma comunidade coesa.”

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