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Fábio Amorim: “Ítaca não é um lugar”

Estreou em Portugal “A Odisseia”, de Christopher Nolan. Um filme baseado num livro que sobreviveu milénios sem perder atualidade, porque persiste em contar-nos algo sobre nós próprios.

Na nossa memória coletiva ficaram as tempestades, os ciclopes, as sereias, a ira dos deuses, uma viagem extraordinária de 10 anos, antecedida por outros 10 anos de guerra. Mas a grandeza da Odisseia não reside no extraordinário imaginário que obstaculiza o protagonista de alcançar o seu objetivo. O que impede Ulisses de chegar a Ítaca não é o destino, são as constantes interrupções, as suas tentações e, sobretudo, o conforto que sentiu. Ítaca nunca desaparece do horizonte, é certo que por vezes é esquecida, mas nunca deixou de ser sentida.

 Porque Ítaca, no fundo, não é um lugar no mapa. É um propósito, e este está sempre no centro do coletivo, nem sempre é escrito, nem necessariamente estratégico. É uma ideia de futuro suficientemente clara para que cada decisão faça sentido no conjunto. Um horizonte silencioso que distingue o essencial do acessório, e que nos lembra que o propósito não se mede pelo número de tarefas cumpridas, mas pela certeza de que seguimos um rumo.

Quando esse horizonte existe, até os erros têm o seu lugar. Um desabamento, um abatimento, uma derrapagem, um reajustamento, tudo desvios, mas que não devem, nunca, mudar o rumo que traçámos.

 Quando não existe visão de horizonte as decisões, por muito razoáveis que pareçam ser isoladamente, deixam de conversar entre si. As decisões vão-se sucedendo, aparentamos estar em movimento constante, mas isso não significa rumo. Muitos compreenderão que um barco pode flutuar mas isso não significa necessariamente que possa navegar.

Foi exatamente nisto que pensei a propósito dos últimos debates a que assisti. Não pelo que se disse, mas pelo que ficou por dizer quanto ao nosso rumo.

 É natural que se celebre o que se conquistou, sobretudo uma qualidade de vida local que poucos contestam, e que se assinale a forma como hoje se enfrentam as dificuldades conhecidas de todos. Não se deve diminuir o trabalho dos autarcas que foi e está a ser feito, pelo contrário.

 O verdadeiro desafio para quem governa deixou de ser explicar o caminho percorrido e passou a ser responder à pergunta: sabendo das dificuldades e do que estava ao alcance, porque não se foi mais longe?

Arrisco a dizer que esta pergunta gerará incómodo e a respetiva resposta incompreensão em muitos. Em alguns casos, sabendo da existência de maior capacidade de endividamento e de ir mais longe, quem aceitará uma resposta fundamentada em cautela, quando vivemos tempos excecionais? Administrar bem é, sem dúvida, importante, mas não basta sem rumo.

Infelizmente, as urgências que forem resolvidas até ao início do outono nunca apagarão o sentimento de que existia margem para ir mais além, de que outras escolhas eram possíveis, e de que se optou por não as fazer. Saímos de uma tempestade apenas para entrar, mais tarde ou mais cedo, noutra.

Como na viagem de Ulisses, surgem novas urgências, novos desvios e novas justificações. Até que, um dia, já ninguém fala do propósito. Fala-se apenas da próxima urgência. Confunde-se o caminho com o rumo, e o rumo é que importa. O rumo não pode ser só reconstruir o que a última tempestade destruiu. O verdadeiro propósito é criar resiliência territorial: preparar o território antes de a tempestade chegar. Isso significa conhecê-lo e usar esse conhecimento como critério de decisão. Significa decidir onde se planta, onde se drena e onde não se deve construir, tudo com base no que o território exige. Sem rumo não há futuro, há apenas a próxima tempestade.

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