Em 2015, o Valor Local entrevistou vários jovens entre os 17 e 35 anos naturais da nossa região. O resultado foi uma conversa honesta sobre o estado do mundo do trabalho, desde o desemprego jovem aos estágios não remunerados e as suas ambições para o futuro. Agora, 11 anos depois, o Valor Local voltou a contactar exatamente os mesmos jovens com a missão de compreender tudo o que aconteceu nos últimos anos e os desafios que enfrentaram.
Sandro Peixe, jovem motociclista da Glória foi viver para a Mealhada
Sandro Peixe, é natural da Glória do Ribatejo e o seu maior sonho aos 19 anos era ter uma carreira no motociclismo. Agora, com 30 anos, muito aconteceu, mas uma coisa é certa: o seu sonho foi cumprido. “Olhando para trás, 2015 foi um dos meus maiores anos em competição”, começa por contar o jovem de 30 anos. Nesse ano, Sandro ganhou dois campeonatos nacionais, de MX2 e SX2, representou a seleção nacional no Motocross Nações, que é considerada a maior competição anual de seleções do motocross mundial.
A carreira foi colocada em pausa em 2018, momento em que Sandro partiu o pé. “Sinto que ter ficado lesionado foi o empurrão para terminar a licenciatura em Gestão de Empresas que estava em pausa.” No entanto, nos anos seguintes a competição voltou a ser o principal foco. Com apenas 24 anos, em 2020, Sandro Peixe voltou a ser campeão nacional de Motocross e com isso, vieram outros desafios. “Sempre amei fazer desporto, mas precisava de pagar contas e é muito difícil fazê-lo apenas através das competições. Foi nesse momento que decidi ingressar no mundo do trabalho.”
A oportunidade surgiu através de uma empresa, Polisport, que Sandro conhecia bem uma vez que o patrocinava em algumas competições. “O primeiro contacto foi enquanto piloto. Entraram em contacto comigo algumas vezes e trabalhamos juntos noutras”, remata.
Em 2021, a empresa tinha uma vaga aberta para gestor de projetos, à qual Sandro decidiu candidatar-se. “Agora, já estou na empresa há seis anos e tem sido um desafio diário, mas tenho sorte em fazer algo que gosto.” E com esta decisão veio outra mudança. “Nunca ambicionei sair do Ribatejo, mas para a minha formação sabia que era difícil encontrar um emprego que realmente gostasse e nesta área.” Foi precisamente isso, Sandro foi morar para o centro do país, nomeadamente, na zona da Mealhada.
“Fui com o pensamento de que ia fazer uma espécie de teste e se não corresse bem, significava dar um passo atrás. Mas a verdade é que tudo correu bem, não só na vida profissional, como na vida pessoal.”
“Conheci a minha mulher através do motociclismo em 2013. Ela era de Águeda e por muitos anos tivemos uma relação à distância.” Tudo mudou em 2021, quando Sandro começou um novo emprego e uma nova vida junto da sua então namorada. O casamento surgiu uns anos mais tarde, em segredo. “Não fazíamos questão de termos uma grande festa, então casamos sem contar a ninguém.” Entretanto, foram pais. Em 2022 nasceu a primeira menina e agora, estão na fase final da segunda gravidez.
Com o nascimento da primeira filha, Sandro ainda procurou manter a sua vida ativa no desporto, mas o desgasto físico e mental acabou por ser muito grande. “Treinava às 20 ou às 21 horas, depois jantava e tinha de tratar da mota, o que me levava a deitar só à uma da manhã por exemplo. E no dia seguinte tinha de estar de pé às 6 da manhã. Tive de parar.” E foi isso que aconteceu nos últimos anos.
Só agora, em 2026, Sandro está pronto para voltar ao desporto, embora de uma forma mais descontraída que nunca. “Quero voltar porque é algo que gosto de fazer. Não devo regressar às competições, mas transformar isso no meu lazer.”
Diogo Martins e Carolina Simões conciliam vida política com nova etapa familiar: foram pais este ano
Aos 19 anos, os planos de Carolina Simões eram simples: concluir o curso e trabalhar num banco. Agora, com 30 anos, foi exatamente isso que aconteceu. “Terminei a licenciatura em Ciência Política em 2017 e comecei logo a trabalhar numa Caixa Geral de Depósitos em Lisboa”, explica Carolina. Entretanto, em 2020, a sua vida profissional também se mudou para o Cartaxo. “O meu objetivo era ficar perto de casa e é interessante ver que consegui exatamente como idealizei.”
Já Diogo Martins, à época já namorado de Carolina, também concluiu a licenciatura em Direito e dois estágios profissionais, um na banca e outro na área de seguros. Agora, é técnico jurista numa associação em Santarém, e entretanto, concluiu o estágio da Ordem dos Advogados. “O próximo passo é começar a exercer a atividade enquanto advogado, e se possível no Cartaxo.”
Durante a licenciatura, o casal, do concelho do Cartaxo, morou brevemente em Lisboa, de 2015 a 2019. Em 2020, ambos aproveitaram a pandemia para regressar a casa, de onde não voltaram a sair. Outro elemento que continua bastante ativo na vida do casal é a militância cívica. “Participámos nas últimas eleições autárquicas no Cartaxo e o Diogo foi eleito para participar na Assembleia Municipal.” Agora, fazem parte da oposição na autarquia, e salientam ser um desafio interessante.
“O mais importante é a vontade de participar e entender como tudo funciona”. Ambos explicam que o que sempre os moveu foi dar o contributo de forma construtiva e discutir assuntos importantes no local onde vivem. Nada disto, implica que tenham “ambições políticas”, referem.
A maior mudança aconteceu a nível familiar. O casal casou em 2025 e no começo deste ano deram as boas-vindas a mais um membro na família, um menino. “Queríamos ter maior estabilidade para começar a nossa família e foi isso que aconteceu.” Apesar de ainda ser cedo para tirar conclusões, Carolina diz que o segundo filho não está fora da equação.
“Para o futuro queremos continuar perto de amigos e família, conciliar isso com a vida profissional. Queremos continuar como estamos.”
Jéssica Pereira: Aos 17 sonhava com as touradas. Hoje quer ajudar a mudar a agricultura
Com apenas 17 anos, Jéssica Pereira, de Azambuja, imaginava a sua vida dentro do mundo da tauromaquia, a trabalhar nos bastidores das touradas. Embora continue a adorar as festas, principalmente a Feira de Maio, as ambições não podiam ser mais distintas.
“Quando revi a entrevista, ri-me, porque mudei imenso”, começa por contar Jéssica, jovem atualmente com 28 anos. Apesar de não ter gostado do curso que escolheu durante o primeiro ano, em 2020, Jéssica terminou a licenciatura e mestrado integrado em Engenharia Agronómica no Instituto Superior de Agronomia. “Só no terceiro ano é que percebi o que realmente queria fazer, e comecei a ligar-me à agricultura biológica e sustentável.”
No entanto, no momento de avançar para o mestrado, Jéssica precisou de escolher uma especialização e para sua surpresas apaixonou-se pelo mundo das plantas. “Foi também durante os anos de estudo que me afastei da tauromaquia.” Jéssica lembra-se de começar a questionar a forma como os animais são tratados e aos poucos o afastamento foi acontecendo.
“A gota de água foi quando tive uma cadeira de zootecnia. Traumatizou-me.” No entanto, a decisão de se distanciar destas práticas aconteceu muito antes. “Na faculdade tive contacto com várias pessoas diferentes que estavam muito ligadas à tauromaquia e comecei a aperceber-me que aquele não era um mundo ao qual quisesse pertencer ou trabalhar. Principalmente porque não me revia nos valores daquelas pessoas.”
Apesar de se ter afastado de alguns valores, existiram outros que acabaram por ganhar força e a sustentabilidade foi um deles. “Sempre fui uma pessoa que pensava mudar o mundo e ainda tenho um pouco disso em mim.” Além das plantas, uma das grandes surpresas para Jéssica foi aproximar-se dos insetos. “É curioso porque até tenho pavor de aranhas.”
Depois de concluir os estudos, a missão de Jéssica era trabalhar para uma empresa, onde a sustentabilidade fosse a principal preocupação. “Logo uns meses depois de terminar os estudos, emigrei”, conta a jovem. Tudo aconteceu em 2020, em plena pandemia. Nesse ano, a irmã de Jéssica morava no Reino Unido e um dia quando estava aborrecida em casa, decidiu comprar um bilhete apenas de ida para surpreender a irmã. “Queria visitá-la de surpresa para o seu aniversário em outubro e acabei por ficar.” A verdade é que decisão foi-se tornando cada vez mais séria e até o seu namorado juntou-se à aventura.
Encontrar emprego na área não foi fácil, mas, ao fim de alguns anos, surgiram as primeiras oportunidades. Começou numa farmácia, onde realizava testes à Covid-19 e preparava medicação destinada a lares de idosos. Seguiu-se uma experiência numa empresa de agricultura de precisão, trabalhando em soluções destinadas a reduzir a utilização de produtos químicos. Mais tarde, integrou uma start-up dedicada ao trabalho com insetos. “Gostava muito do que fazia, mas a empresa fechou.”
Apesar de ter encontrado outro trabalho, a decisão de Jéssica e do noivo de regressarem a Portugal já estava tomada. “Tínhamos estabelecido que queríamos estar fora cerca de cinco anos e depois regressar para construir família. E é isso que estamos a fazer.”
Agora, em agosto de 2026, Jéssica está de regresso a Portugal, desta vez com intenção de ficar. Antes de iniciar uma nova etapa profissional, quer aproveitar este período para concretizar um projeto há muito planeado. “Queremos aproveitar o facto de estarmos desempregados para viajar durante três meses e meio e conhecer vários países asiáticos. Está tudo planeado”, conta.
Para os próximos anos os desejos são simples: Jéssica quer arranjar trabalho na área em Portugal, que confessa ser a sua maior ansiedade neste momento, casar, comprar casa, e ter filhos.
“Quero deixar claro aos jovens de hoje que embora possam não saber o que querem seguir e fazer para o resto das vidas, o caminho encarrega-se de alinhar as peças do puzzle. Pode parecer que não estamos no caminho certo, mas no fim, acaba por fazer sentido.”




