Era domingo e Diogo Amaro não ia à procura de nada de extraordinário. Levava consigo duas pinturas e seguia para uma quinta no concelho de Azambuja, propriedade do cavaleiro Paulo Jorge Ferreira, atualmente a viver nos Estados Unidos. Do outro lado esperavam-no alguns amigos que a vida dos forcados lhe tinha deixado: elementos dos Forcados de Turlock, vindos da Califórnia. Ia entregar os quadros, conversar, matar saudades e talvez recordar touros, arenas e histórias que só quem alguma vez vestiu uma jaqueta de forcado consegue contar da mesma maneira.
Quando chegou, percebeu que havia mais gente na quinta. Uma equipa estava a recolher testemunhos para uma produção documental sobre a tauromaquia e a sua relação com outras formas de expressão artística. Os amigos americanos olharam para Diogo e perceberam imediatamente a coincidência quase perfeita: aquele homem tinha passado doze anos diante de touros e agora passava os dias diante de telas. Disseram-lhe que tinha de contar a sua história. Pouco depois, o cenário estava preparado e Diogo sentou-se diante das câmaras. A visita de domingo transformou-se numa entrevista que durou cerca de três horas. “Acho que as pessoas nem vão acreditar, mas isto foi a realidade”, conta ao Valor Local.
Segundo aquilo que lhe foi transmitido pela equipa, o projeto deverá passar por um festival antes de chegar à Netflix. Diogo sabe ainda pouco sobre datas ou sobre a forma final que a produção assumirá. Sabe que estão a ser recolhidas histórias em diferentes países ligados à tradição tauromáquica e que a equipa deverá voltar a Portugal. E sabe aquilo que lhe perguntaram naquele domingo em Azambuja. Quiseram perceber o que existe entre o forcado que ele foi e o artista que é hoje. O que ficou dos touros nas suas mãos. O que passou da arena para a tela. O que se leva de uma vida para a outra.
Para responder verdadeiramente a essas perguntas é preciso viajar até Vila Verde dos Francos, no concelho de Alenquer, onde Diogo Amaro nasceu há 33 anos, com a serra de Montejunto por perto. Antes das telas houve animais. Antes das exposições houve queijo. Antes do atelier houve muitas horas passadas sozinho na serra. E antes de tudo isso houve um rapaz de 16 anos que foi ver um treino de forcados sem contar aos pais.
Jogava futebol quando um amigo, que pertencia ao Grupo de Forcados Amadores do Aposento do Barrete Verde de Alcochete, lhe falou de um treino no dia seguinte. Diogo perguntou se podia ir assistir. Foi. A certa altura, perguntaram-lhe se queria experimentar. Experimentou. “Nunca mais larguei”, descreve.
Não vinha de uma família de forcados. Não existia uma tradição taurina evidente que explicasse aquela atração. Simplesmente aconteceu. O adolescente de Vila Verde dos Francos encontrou ali qualquer coisa que lhe fazia sentido. Acabaria por ser forcado da cara, o homem que, no início da pega, fica diante do touro e espera que ele venha.
Estreou-se em 2010, na Figueira da Foz. Depois vieram doze anos de arenas, viagens, grupos, amizades e touros que já não consegue contar. Talvez quarenta. Talvez cinquenta. Talvez sessenta. Houve temporadas com cinco, seis ou sete pegas. Em 2011 poderão ter sido oito ou nove. Para quem vê de fora, a pergunta parece inevitável: o que leva alguém a colocar-se voluntariamente diante de um animal com centenas de quilos?
Diogo também não encontra uma explicação simples. Para ele, nunca foi apenas adrenalina. Nem sequer gosta de reduzir aquilo que viveu à ideia de desporto radical. Havia medo, naturalmente, embora prefira chamar-lhe respeito. Havia o receio de falhar. Havia oito homens que dependiam uns dos outros. E havia uma ideia que repete quando fala daqueles anos: missão. “Existe uma missão para fazermos bem, com arte, com classe e no sentido de honrar os nossos antepassados.”
Curiosamente, só muito mais tarde descobriu que talvez existisse afinal uma pequena linha familiar a uni-lo àquele mundo. Há cerca de três anos soube que um antepassado, condecorado na Primeira Guerra Mundial, terá trabalhado posteriormente nas lezírias, amansando touros bravos para serem utilizados nos trabalhos agrícolas. Diogo gosta da história. Há qualquer coisa de circular na ideia de um homem que, gerações antes, lidava com touros nas lezírias e de um descendente que um dia decidiu colocar-se diante deles numa praça.
A corrida no Campo Pequeno que quase lhe levou a vida
Mas houve uma noite em que essa relação esteve perto de lhe cobrar um preço muito alto. Foi em 2020, no Campo Pequeno, em plena pandemia. Na véspera da corrida, Diogo teve uma sensação que nunca tinha sentido. O pai queria finalmente ir vê-lo pegar. Nunca o tinha feito. Diogo tentou convencê-lo a não ir. “Foi a única noite em que eu sabia que me ia aleijar a sério.” Não sabia explicar porquê.
No dia seguinte, entrou no Campo Pequeno. Os touros eram da ganadaria Vinhas e Diogo recorda animais que rondavam ou ultrapassavam os 600 quilos. Saiu o primeiro. Um antigo cabo passou junto dele e deixou escapar uma frase curta: “Ai, que comboio.” Era aquele o touro de Diogo. Avançou para a pega. O impacto projetou-o a cerca de três metros. Caiu de cabeça, sem conseguir colocar os braços à frente para se proteger. Ficou consciente e tentou levantar-se, mas o corpo não respondeu. “Eu queria levantar-me e só mexia a cabeça. Foi assustador.”
Foi levado para o Hospital de Santa Maria. Recorda o diagnóstico de choque medular, o formigueiro pelo corpo e aqueles instantes em que não sabia o que aconteceria a seguir. Depois conseguiu voltar a pôr-se de pé. Quando hoje fala desse momento utiliza uma palavra simples: “milagre”. Na manhã seguinte saiu do hospital. Mas sair pela porta não significava que tudo tivesse terminado. Durante cerca de um mês sentiu que o corpo e a própria cabeça não respondiam com a rapidez habitual. E havia ainda outro combate por fazer: voltar.
Diogo sabia que, se não regressasse à frente de um touro, aquela queda poderia acompanhá-lo para sempre. Em casa, sozinho, chegava a bater palmas no corredor como se pudesse expulsar fisicamente a imagem que lhe ficara na cabeça. “Tinha de apagar isso.” Na temporada seguinte voltou às arenas.
Dois anos depois, em agosto de 2022, percebeu que chegara a altura de sair. Viu o cartel de uma corrida em Alcochete e decidiu que seria ali. Não fez uma longa despedida anunciada. Comunicou a decisão aos cabos poucas horas antes. Pegou o seu último touro e, no final, entregou a jaqueta ao cabo perante o público. Recebeu uma homenagem que não esperava e que ainda hoje recorda com emoção. “Foi mesmo muito bonito. Sinto-me muito honrado.” Nunca mais quis voltar. “Sei que entreguei tudo de mim.”

Como nasceu o pintor depois do pastor e do forcado
Por essa altura, outra parte de Diogo Amaro já estava a nascer. Aos 18 anos começara a trabalhar com animais e desenvolvera um negócio ligado à produção de queijo. Durante muito tempo, a sua paisagem diária foi a serra, os animais, o trabalho e muitas horas consigo próprio. Levava um pequeno caderno. Escrevia coisas, fazia desenhos, rabiscava. Às vezes guardava as folhas. Outras vezes rasgava-as. Ainda não havia um artista plástico. Havia apenas alguém que precisava de pôr algumas coisas no papel.
Uma professora de Educação Visual, Ana Salema, de Azambuja, já lhe tinha dito anos antes que havia qualquer coisa diferente naquele desenho. “Tens um traço diferente.” Disse-lhe que devia seguir arte. Diogo não seguiu. A vida levou-o para outro lado. Hoje, porém, quando olha para trás, acredita que aquelas longas horas na serra foram uma espécie de preparação involuntária para aquilo que viria depois. “Se eu não tivesse passado pelo que passei na criação da marca dos queijos e dos animais, acho que não tinha estaleca para enfrentar as telas. Porque é muita hora sozinho.”
A pandemia mudou tudo. Com portas fechadas e a economia suspensa, vender queijo tornou-se uma batalha. Diogo lembra-se de andar de porta em porta para conseguir vender um produto e de regressar a casa frustrado. Foi nessa altura que o pequeno caderno deixou de ser suficiente. Já não queria apenas desenhar. “Comecei a ter necessidade, já nem era de desenhar, era mandar tinta para cima de qualquer coisa.” E mandou.
Não existiu uma decisão formal de mudar de profissão. Não houve um dia em que acordou e anunciou que seria artista plástico. Houve apenas uma necessidade cada vez maior de criar. Começou a pintar. As pessoas começaram a reparar, depois começaram a perguntar e depois começaram a comprar. Uma encomenda trouxe outra. O trabalho ganhou espaço. A confiança cresceu. Aos poucos, o negócio que tinha construído foi ficando para trás e a arte deixou de ser apenas aquilo que fazia quando precisava de respirar. Passou a ser a sua vida.
Hoje, aos 33 anos, Diogo Amaro vive exclusivamente do trabalho artístico. E talvez não pudesse ter escolhido um lugar mais apropriado para essa nova vida. O atelier fica em Arruda dos Vinhos, dentro de uma antiga barbearia do início do século passado. Há qualquer coisa de bonito nessa sobrevivência dos lugares. Durante décadas, homens terão entrado naquela porta para se sentarem diante de um espelho enquanto alguém trabalhava com as mãos. Agora entram telas, molduras, pincéis e materiais encontrados por acaso. E continua a existir ali alguém que passa muitas horas a trabalhar com as mãos.
Diogo não quer ficar preso a uma técnica. Há acrílico, pastel, desenho e serigrafia. Experimenta materiais, procura novas linguagens e chega a construir trabalhos recorrendo a fita adesiva. Um objeto encontrado pode transformar-se no início de uma obra. Uma velha moldura abandonada, com azulejos no interior, ganhou nova vida com uma entrada de touros. “Acho que não podemos fechar a nossa mente a algum tipo de princípio redutor como: ‘a minha linha e a minha técnica’. Não, não o quero fazer.”
Também não quer ser apenas “o pintor dos forcados”. Naturalmente, aquele universo aparece muitas vezes no trabalho. Há touros, cavalos, campinos e forcados. São imagens de uma vida que conhece por dentro e não através de fotografias ou livros. Mas há muito mais. Faz retratos de família por encomenda, desenvolve trabalho próprio para colecionadores e tem procurado outras áreas. Está a trabalhar numa série dedicada ao fado. Participou na Feira Internacional do Artesanato, em Lisboa, e tem realizado exposições sobretudo através de convites de municípios. Entre os seus trabalhos está também um retrato de Rui Nabeiro. Uma obra anterior chegou à família do fundador da Delta.
No atelier de Arruda existe ainda uma cadeira que desempenha uma função particular. Fica afastada do cavalete e é dali que Diogo olha para aquilo que está a fazer. Durante algum tempo teve dificuldade em perceber quando uma obra estava acabada. Continuava a acrescentar. Mais uma pincelada. Mais um elemento. Mais qualquer coisa. Até que, por vezes, aquilo que estava terminado deixava de estar. Criou então o seu próprio ritual. Afasta-se da tela. Fica de costas. Depois vira-se de repente. É o primeiro impacto que decide. Se olhar e sentir imediatamente que está bem, acabou. “Está fechado.” E não mexe mais.
Talvez aqueles doze anos de forcado tenham deixado marcas muito para além das que se veem no corpo. Diante de um touro, Diogo aprendeu que há momentos em que é preciso decidir. Diante de uma tela aprendeu exatamente o mesmo. A diferença é que agora pode sentar-se numa cadeira e olhar durante algum tempo.
Não traça grandes metas. Não aponta uma galeria específica onde tenha obrigatoriamente de chegar nem fala obsessivamente numa carreira internacional. Diz sentir-se “abençoado” por conseguir viver daquilo que cria. “O que está nas minhas mãos é criar, é sentir-me realizado em cada obra que faço. Esse é o meu caminho.”
E talvez seja precisamente por não andar demasiado preocupado com destinos que a vida continua a surpreendê-lo pelo caminho. Naquele domingo, por exemplo, não havia Netflix no horizonte. Havia duas pinturas para entregar. Pegou nelas, saiu e foi até uma quinta em Azambuja encontrar-se com os amigos de Turlock. Acabou sentado durante três horas diante de câmaras a falar de touros, arte, medo, memória e daquilo que permanece de uma vida quando julgamos já ter começado outra.
A equipa acabou por encontrar nele exatamente aquilo que procurava: alguém para quem tauromaquia e arte não são dois assuntos que se estudam à distância. São pedaços da mesma vida. Da infância em Vila Verde dos Francos à serra de Montejunto. Dos animais e dos queijos ao primeiro treino escondido dos pais. Da estreia como forcado em 2010 àquela queda no Campo Pequeno em que tentou levantar-se e o corpo não respondeu. Da despedida em Alcochete à primeira tinta atirada para uma superfície porque desenhar já não chegava.
E, finalmente, daquela antiga barbearia de Arruda dos Vinhos para uma história que poderá atravessar fronteiras. Diogo Amaro diz, a certa altura da conversa com o Valor Local, que aos 33 anos sente já ter vivido cinquenta. Talvez tenha. Mas há uma imagem que parece resumir melhor o percurso. Durante doze anos, Diogo colocou-se diante de um touro e esperou que ele avançasse. Hoje coloca-se diante de uma tela em branco. E continua sem saber exatamente o que virá na sua direção.




