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Azambuja, um território de atalhos e retalhos

Desde 2015, que a figura do reconhecimento de Interesse Público Municipal (IPM) surge de forma regular nas deliberações da Câmara e da Assembleia Municipal de Azambuja. O instrumento, inicialmente associado à regularização extraordinária de atividades económicas, passou a ser aplicado a projetos industriais, logísticos, energéticos e agropecuários. Num concelho sem Plano Diretor Municipal aprovado, estas decisões caso a caso tiveram impacto direto na forma como o território foi sendo organizado.

2015: Quando entrou tudo no mesmo pacote

A Assembleia Municipal de Azambuja de 9 de dezembro de 2015 marca um ponto de viragem. Numa única sessão, e num único ponto da ordem de trabalhos, foram aprovados 21 reconhecimentos de interesse público municipal, quase todos associados ao Regime Extraordinário de Regularização das Atividades Económicas (RERAE).

Jodel uma das empresas que beneficiou mas que declarou insolvência anos depois

À mesa da Assembleia chegaram, ao mesmo tempo, processos de natureza muito diversa. Explorações agropecuárias antigas, claramente enquadráveis no espírito do RERAE, surgiam lado a lado com empresas industriais e comerciais de maior dimensão, cuja ligação ao objetivo original do regime era menos evidente. Ambiauto, GEPACK, Jodel – Produtos Químicos, Plastem, Selecpôr, Intersuínos, Nutricentro e várias explorações agrícolas foram todas tratadas no mesmo pacote, discutidas de forma agregada e votadas numa lógica de avanço coletivo.

O debate existiu, mas foi curto. Houve dúvidas técnicas, referências a erros na documentação, preocupações ambientais e reservas expressas por alguns deputados municipais. Ainda assim, o resultado foi praticamente unânime. Nenhuma proposta foi rejeitada. O instrumento excecional cumpriu a sua função: regularizar, desbloquear e seguir em frente.

Esse momento ajuda a perceber muito do que viria a seguir. Ao juntar realidades tão distintas sob o mesmo chapéu, o município abriu a porta a uma leitura mais lata do interesse público municipal, diluindo a fronteira entre regularizar o que já existia e viabilizar aquilo que dificilmente teria licença em regime normal.

O que é afinal o Interesse Público Municipal? O reconhecimento de interesse público municipal é uma decisão política e administrativa através da qual a Câmara ou a Assembleia Municipal assumem que determinado projeto tem relevância estratégica para o concelho. Na prática, esta figura permite ultrapassar constrangimentos legais ligados ao ordenamento do território, ao uso do solo ou a regimes ambientais, sendo frequentemente utilizada em contextos de PDM desatualizado ou inexistente.

Depois de 2015, o reconhecimento de interesse público municipal passou a surgir com regularidade nas deliberações camarárias e assembleias municipais

Em 2016, foi utilizado para viabilizar o projeto da SuperAzam, na Quinta da Marquesa, envolvendo uso não agrícola de solos RAN para comércio, posto de combustível e acessos, com publicação em Diário da República. Contudo o projeto nunca saiu do papel até à data.

Em 2017, surge associado à ampliação das instalações da Avipronto, junto à EN3. Em 2020, aparece ligado a projetos de armazenagem e logística, como o investimento da Azambuja Virde Cella, apresentado como estruturante para o emprego no concelho. Assumiu o compromisso de financiar na totalidade uma das rotundas (cerca de 500 mil euros) na Nacional 3, que cumpriu.

No setor agropecuário, continuaram a entrar pedidos de regularização, alguns deles para legalizar edificações, fossas e lagoas já existentes. Em 2022 e 2023, novos reconhecimentos acompanharam projetos comerciais, logísticos e agroindustriais, incluindo o Retail Park Intermarché, uma repetição do anterior projeto da SuperAzam, e outras unidades de grande escala.

Ao longo desta cronologia, o padrão repete-se: decisões tomadas caso a caso, quase sempre justificadas pela necessidade de investimento, emprego ou regularização jurídica, num território que continua sem Plano Diretor Municipal aprovado.

No mandato passado, a antiga vereadora do Chega, Inês Louro, pediu que fosse aprovado um regulamento para este tipo de situações enquanto não existir novo PDM mas o executivo socialista nunca acatou a sugestão.

Ao longo dos anos várias explorações foram legalizadas mas os problemas ambientais permanecem

“Pecuárias em Azambuja: legalizar sem resolver problemas ambientais”

A utilização do RERAE e das declarações de interesse público municipal no setor pecuário tem sido alvo de críticas recorrentes. Em 2023, o Valor Local evidenciava a preocupação com a ausência de fiscalização efetiva às suiniculturas e vacarias da freguesia de Azambuja, apesar de muitas terem recorrido ao regime extraordinário para legalizar as suas instalações. Este é um tema que voltou a dominar uma das últimas sessões da assembleia de freguesia de Azambuja.

Segundo documentação a que o Valor Local teve acesso, existem no território milhares de animais concentrados em várias explorações, com queixas constantes das populações relativas a maus cheiros, poluição da Ribeira do Valverde e despejo irregular de efluentes. O próprio presidente da Câmara, Silvino Lúcio, admitiu que desconhecia se as entidades competentes tinham realizado inspeções no terreno após a regularização jurídica das atividades, levantando dúvidas sobre se o RERAE representou uma melhoria efetiva das condições ambientais ou apenas um passo administrativo. Intersuinos, Selecpor, SMUR, Nutricentro e Morgado e Cordeiro foram algumas que solicitaram este pedido ao abrigo do RERAE, Ao longo dos anos,

Aterro da Azambuja e Torre Bela. Casos-limite do interesse público

O caso do aterro de resíduos da SUMA/Triaza, na Quinta da Queijeira, é um dos exemplos mais controversos da utilização do interesse público municipal. Embora a declaração inicial tenha sido aprovada em 2008, o então presidente da Câmara, Joaquim Ramos, chegou a solicitar à CCDR-LVT a suspensão do processo em 2012, manifestando dúvidas quanto aos fundamentos técnicos e estratégicos que sustentavam o interesse público. Apesar disso, o processo avançou nos anos seguintes, mesmo após tentativas de revogação política.

Também a central solar da Torre Bela constitui um estudo de caso emblemático. O projeto conheceu revogações iniciais da declaração de interesse público municipal, polémicas públicas e reavaliações políticas, acabando por avançar com um traçado alternativo validado pelo Governo. O parque foi inaugurado em 2025, após um processo longo e conturbado, acompanhado de perto pelo Valor Local.

O caso GEPACK. Um padrão de recorrência

A GEPACK – Empresa Transformadora de Plásticos, S.A. surge associada ao reconhecimento de interesse público municipal em vários momentos distintos. Em 2015, integra o pacote aprovado no âmbito do RERAE. Em 2021, obtém reconhecimento para a instalação de uma unidade de produção fotovoltaica para autoconsumo em Aveiras de Cima. Em 2023 e 2024, novas deliberações reforçam o enquadramento municipal de ampliações industriais e ajustamentos energéticos. Em janeiro de 2025, a Câmara delibera submeter à Assembleia Municipal mais um pedido de reconhecimento para ampliação de instalações.

Na mais recente reunião já do novo executivo, o vereador António Torrão (CDU) votou contra a proposta, argumentando que a empresa já beneficiou de várias decisões favoráveis e de reduções de taxas, defendendo que essas receitas poderiam ser canalizadas para áreas como a habitação social. A posição evidencia que, mesmo dentro do executivo, o uso reiterado deste instrumento deixou de ser consensual.

Sonae e grandes operadores

Também o grupo Sonae recorreu a declarações de interesse público municipal em Azambuja, nomeadamente para a expansão do centro logístico da Sonae MC e, mais recentemente, para o projeto da Sonae Arauco em Vila Nova da Rainha, ligado ao tratamento de resíduos de madeira. Em 2019, num dos pedidos apresentados, foi mesmo admitida a possibilidade de saída do concelho caso não fosse viabilizada a construção de um novo pavilhão, num episódio que ilustra a pressão exercida por grandes operadores num território sem PDM atualizado.

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