Diretora executiva da Ren21, uma agência não governamental que integra uma série de stakeholders (partes interessadas- ONG’S, grupos de pesquisa, organizações internacionais e indústria) no incremento das energias renováveis atuando junto dos principais decisores políticos, Rana Adib concedeu-nos uma entrevista no âmbito da mais recente informação vinda a público de que as energias limpas não estão a conseguir alcançar os objetivos das políticas mundiais definidas para o efeito, devido à demanda de energia em todo o mundo. Contudo, afirma ao nosso jornal que as energias renováveis são o principal caminho para um mundo mais resiliente e mais resistente às alterações climáticas, mas também aos choques geopolíticos. Foi com preocupação que a REN21 viu nos últimos dias as pressões sobre a Agência Internacional de Energia Atómica no conflito iraniano-israelita.
A conjuntura atual não se apresenta propícia ao desenvolvimento das renováveis no mundo. Embora 2024 tenha registado um aumento recorde de 740 GW em capacidade de energia renovável, o mundo ainda está longe de alcançar a meta da COP28 de triplicar essa capacidade até 2030. “A tensão política em relação às energias renováveis não é favorável. Junta-se a isso a tensão no comércio internacional, a tensão geopolítica, e económica, o investimento governamental, por exemplo, em defesa, que juntos estão a afetar negativamente a adoção de energias renováveis.”
Se a Europa e os Estados Unidos estão a enviar sinais fracos neste domínio, por outro lado temos casos interessantes no Paquistão, em alguns países da África Oriental e na África do Sul “onde pequenas empresas, indústrias e também famílias investem em energia solar fotovoltaica em telhados com recurso também a baterias. Porque é basicamente a solução mais barata para ter eletricidade, ou porque fornece energia segura em sistemas elétricos onde há muita redução de carga e não um fornecimento contínuo de energia 24 horas por dia, 7 dias por semana.” São países que à partida não esperávamos”.
O apagão português não condiz como sendo dos países mais avançados no mundo na energia renovável
Talvez um pouco desconhecida seja ainda a posição de Portugal como o vigésimo país no mundo mais à frente quando o assunto passa pela exploração e comercialização de energia renovável e os seus usos. A participação final das renováveis nos consumos é de 29 por cento. “Portugal é claramente um dos países líderes em termos de eletricidade renovável, ou seja, energia proveniente de fontes renováveis. Oitenta e cinco por cento da energia era proveniente de fontes renováveis em 2024. E como é principalmente energia solar fotovoltaica e eólica, Portugal também é um dos países líderes em termos de integração de energias renováveis variáveis na rede.”
Com esta superpotência acumulada de energia onde é que fica nisto tudo o apagão de abril, e a necessidade de Portugal não ser autossuficiente e necessitar de importar energia de Espanha. Não deixarão as renováveis afinal a desejar? Rana Adib diz-nos que não é esse o problema. Embora o apagão ainda não tenha sido completamente esclarecido, ele será “multifatorial”. Terá sido principalmente um fator ligado à falta de capacidade das redes.
“A culpa do apagão não é das energias renováveis, mas sim de uma resposta multifatorial nas redes, onde diferentes níveis de controle de tensão e frequência não funcionaram. Mas precisamos investir claramente nas redes, em opções de flexibilidade e adaptar a gestão das redes à natureza das energias renováveis. Acho que a realidade é que temos uma infraestrutura integrada em torno dos combustíveis fósseis. Percebemos principalmente na parte da carga base, que uma mudança precisa acontecer, e Portugal, com 85 por cento de eletricidade renovável variável, mostrou claramente que somos capazes de administrar esta questão”.
Rana Adib esclarece que nos países em desenvolvimento a demanda por energia está a aumentar. Exemplo disso passa-se nas empresas de transportes, com a necessidade de eletrificação dos veículos em torno dos objetivos de descarbonização, através do uso das renováveis; mas também a nível da data centres que são uma fonte de consumo em alta escala de energia, numa altura em que os recursos do planeta estão cada vez mais depauperados.
“As temperaturas estão a subir, as necessidades de refrigeração estão a aumentar no setor da construção, mas também nas áreas tecnológicas”
Outro aspeto, “e Portugal também é afetado por isso, trata-se do aumento da procura de refrigeração, que está diretamente ligado, mais uma vez, às alterações climáticas. As temperaturas estão a subir, as necessidades de refrigeração estão a aumentar no setor da construção, mas também nas áreas tecnológicas, pelo que isso está diretamente ligado. A REN21 não está a fazer projeções, mas é muito clara que, a partir destas tendências de mercado, podemos assumir que o aumento da eletricidade vai acontecer.”.
Com a apresentação do ser relatório anual, a REN 21 vai continuar a fornecer ferramentas aos Governos para planearem o seu crescimento energético, desmistificando também os mitos em torno de acontecimentos como o Apagão de Abril.
Um país está a sobressair no meio de tudo isto, a China, onde há com um forte alinhamento nas políticas de fornecimento de energias renováveis, o investimento em infraestruturas, em políticas nos setores da demanda, mas também uma forte ligação com as políticas industriais, sociais e comerciais.