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Festas de Verão renovam-se sem perder uma história com mais de um século

Há mais de um século que setembro é tempo de festa em Sobral de Monte Agraço. Mudaram os programas, os artistas, os hábitos e até a própria forma de viver estes dias, mas as Festas e Feira de Verão continuam a ser um dos grandes momentos de encontro da comunidade. De 11 a 20 de setembro, o certame regressa com uma nova imagem, alterações na configuração do recinto e uma novidade que traduz uma das apostas da Câmara Municipal para esta edição: pela primeira vez haverá um espaço especificamente dedicado ao tecido empresarial.

Em entrevista ao Valor Local, a presidente da Câmara Municipal de Sobral de Monte Agraço, Raquel Lourenço, explica que a nova imagem pretende traduzir uma evolução sem romper com aquilo que identifica as festas. “Queremos que as Festas e Feira de Verão continuem a ser reconhecidas pela sua identidade, mas que sejam também capazes de responder aos novos desafios.”

A autarca faz questão de lembrar a longevidade do evento. “A primeira notícia de que temos conhecimento remonta a 8 de setembro de 1912”, refere Raquel Lourenço, considerando que mais de um século de história demonstra a importância que as festas assumem enquanto parte da herança cultural e social dos sobralenses.

E é na vertente económica que surge uma das principais novidades de 2026. Pela primeira vez, as festas terão uma mostra empresarial. A Câmara pretende que o evento deixe também uma marca mais forte na promoção das empresas, produtos e serviços existentes no concelho, aproveitando a presença de milhares de pessoas durante os dez dias.

“Queremos proporcionar aos agentes económicos do concelho um espaço privilegiado para apresentarem as suas empresas, produtos e serviços, beneficiando da elevada afluência de visitantes que as festas naturalmente geram”, explica a presidente da Câmara ao Valor Local.

A mostra empresarial junta-se à tradicional Feira de Saberes e Sabores, dedicada ao artesanato, aos produtos regionais e ao saber-fazer local. Também aqui haverá mudanças, com novos espaços expositivos destinados à comercialização, procurando proporcionar melhores condições aos participantes e aumentar a sua visibilidade.

Para Raquel Lourenço, as Festas e Feira de Verão devem ser entendidas também como uma montra do próprio território. A intenção é aproveitar a capacidade de atração do evento para apresentar Sobral de Monte Agraço não apenas como destino de visita, mas como concelho onde se pode viver, investir e desenvolver atividade económica.

Essa aposta tem igualmente uma dimensão imediata. A presidente espera um impacto significativo na restauração e no comércio durante os dez dias, mas considera que os efeitos podem prolongar-se para além de setembro. Quem visita o Sobral durante as festas entra em contacto com o território, a gastronomia, os produtos locais e a capacidade de acolhimento, podendo essa experiência gerar novas visitas e oportunidades económicas. “Queremos que quem nos visita durante as festas leve consigo uma boa experiência de Sobral de Monte Agraço e tenha razões para voltar”, afirma.

A programação foi construída para responder a públicos muito diferentes. Raquel Lourenço define as festas como “um grande evento familiar”, onde várias gerações se encontram e onde convivem música, gastronomia, desporto, cultura, património, artesanato, folclore e tradição taurina.

Entre os principais nomes anunciados estão os HMB, que atuam a 11 de setembro, e Nena, no dia 12. The Box Band sobe ao palco no dia 13, seguindo-se uma Noite de Fados a 14 e os Descendentes a 15. No dia 16 atua a Banda de Música da Força Aérea Portuguesa, enquanto o dia 17 recebe um tributo a Saia do Chão. Kura atua no dia 18 e Raya Evolution no dia 19. O teatro de revista à portuguesa integra também a reta final do programa, nos dias 19 e 20.

Os concertos são, contudo, apenas uma parte de um programa que inclui teatro, animação de rua, atividades para crianças e famílias, caminhadas, passeios temáticos, iniciativas desportivas, Festival de Folclore, programa taurino e ações de valorização do património.

Raquel Lourenço destaca particularmente o envolvimento das associações e coletividades, que não se limita à ocupação dos tradicionais stands. Estas entidades participaram na própria construção do programa e assumem a organização de diferentes iniciativas culturais e desportivas. As Juntas de Freguesia e outros agentes locais foram igualmente chamados a participar.

“Acreditamos que umas festas com esta dimensão só fazem verdadeiramente sentido quando são construídas com a comunidade e para a comunidade”, sustenta a autarca.

Se a Câmara assume a ambição para esta edição, é mais prudente quando questionada pelo Valor Local sobre dois números: quanto vão custar as festas e quantas pessoas são esperadas. Sobre o orçamento, Raquel Lourenço não apresenta ainda um valor. Justifica que as contas terão de considerar não apenas a despesa, mas também a receita arrecadada através da atribuição dos espaços no recinto, cujas candidaturas terminaram a 14 de agosto. A presidente garante que a preocupação passa por conciliar uma gestão responsável dos recursos públicos com a qualidade e dimensão do evento.

Também não há uma estimativa oficial de visitantes. Sendo esta a primeira edição organizada no atual mandato e existindo novidades tanto na programação como na configuração do recinto, a presidente considera que não seria responsável avançar com um número sem uma base sólida que o sustente.

O que a Câmara garante é a preparação para o aumento previsível de pessoas durante os dez dias. As equipas municipais estão a trabalhar na organização do espaço, limpeza urbana e identificação de locais alternativos para estacionamento. Na área da segurança, têm sido realizadas reuniões com a GNR e a Proteção Civil, enquanto o Serviço Municipal de Proteção Civil finaliza o Plano de Contingência e Segurança das festas.

Há ainda uma aposta na componente ambiental. A Câmara pretende reforçar a sensibilização para a correta separação dos resíduos e volta a permitir que os visitantes troquem gratuitamente o copo oficial utilizado por outro devidamente lavado, desde que o primeiro esteja em bom estado de conservação.

Para Raquel Lourenço, é neste encontro entre uma festa profundamente enraizada na identidade local e a vontade de lhe acrescentar novas dimensões que está o desafio desta edição. “Mais do que organizar dez dias de iniciativas, queremos criar dez dias de grande convívio e de celebração daquilo que somos.”

É essa a ideia que a presidente da Câmara pretende associar à primeira edição das Festas e Feira de Verão do atual mandato: manter uma festa reconhecível para quem cresceu com ela, abrir espaço a novos públicos e, simultaneamente, aproveitar a passagem de milhares de visitantes para mostrar o Sobral que existe para lá dos dez dias de setembro.

De 1912 ao primeiro programa conhecido

A referência a 1912 avançada pela presidente da Câmara, Raquel Lourenço, ao Valor Local leva-nos aos primeiros anos da história das Festas e Feira de Verão. Mas é no ano seguinte que surge outro marco importante: em 1913 foi elaborado por um grupo de sobralenses o primeiro programa de festejos conhecido.

A história dessa transformação foi registada por Amílcar Leitão na obra “Festas e Feira de Verão”, publicada em 1995. O autor relata que, após a implantação da República, foram suspensas as manifestações religiosas, tendo sido eliminada a Festa de Nossa Senhora da Vida. No verão permaneceu a componente civil da Feira das Dores, que passou a chamar-se Feira de Verão.

Segundo Amílcar Leitão, a partir de 1913 esta absorveu a componente civil da festa de 15 de agosto, enquanto a feira, exposição e concurso de gados passaram para essa data. A exposição e o concurso de gados acabariam por desaparecer na década de 1950.

O primeiro programa conhecido, elaborado em 1913, permite também perceber como eram diferentes as festas de então. Incluía feira, exposição e concurso de gados, mercado franco, quermesse, concerto musical e iluminações.

Mais de 110 anos depois, muito mudou na forma de festejar. Mas a referência de 1912 e o programa conhecido de 1913 ajudam a reconstruir os primeiros capítulos de uma celebração que continua a marcar a vida de Sobral de Monte Agraço.

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