Edit Template
Botão Ouvir Rádio

Carregando...

Carregando...

Botão Ouvir Rádio

Ernesto Mateus guarda 60 anos de memórias do Colete Encarnado

Ernesto Mateus fala do Colete Encarnado como quem abre uma gaveta antiga cheia de sons, imagens e pessoas. Não fala apenas de uma festa. Fala de uma vida inteira a ver Vila Franca de Xira mudar, o Ribatejo transformar-se e o campino passar de figura quotidiana do campo a símbolo maior de uma identidade que continua a merecer respeito e memória.

Este ano cumprem-se 66 anos desde o seu primeiro Colete Encarnado. Tinha apenas 14 anos quando começou a viver por dentro uma festa que acompanhou ao longo de décadas, muitas vezes ligado à sonorização dos espetáculos e dos principais momentos das celebrações.

Não foi por acaso que escolheu o Jardim Municipal Constantino Palha para esta conversa com o Valor Local. O próprio sugeriu o local pelo simbolismo que representa nas suas memórias. Ali existiu durante muitos anos um ringue de cimento onde terminavam alguns dos principais momentos do Colete Encarnado. Era nesse espaço que atuavam artistas, que se realizavam espetáculos e que milhares de pessoas se reuniam para celebrar a festa.

Sentado naquele jardim, Ernesto regressa aos tempos em que aquele espaço ocupava um lugar central nas celebrações. Para ele, o Colete Encarnado vai muito além do programa oficial.

“Para mim, o Colete Encarnado é humanista. É as pessoas amarem o Ribatejo e quem o representa, que é o campino.”

É precisamente no campino que concentra grande parte da sua reflexão. Não apenas como símbolo da festa, mas como homem de trabalho que durante décadas marcou a paisagem humana do Ribatejo. Recorda tempos em que muitos viviam no campo e vinham à vila ao fim de semana, transportando consigo uma forma de vida que hoje praticamente desapareceu.

Reconhece que as condições de vida melhoraram significativamente. Os campinos têm hoje outra qualidade de vida, melhores condições de habitação e trabalho. Ainda assim, considera que se perdeu alguma da proximidade que existia entre a população e aqueles homens que ajudaram a construir a identidade ribatejana.

Uma das imagens que guarda com maior carinho são as barracas de caniço montadas no Jardim Municipal, onde os campinos faziam as refeições durante a festa. Eram espaços simples, mas que permitiam um contacto direto entre os visitantes e aqueles que davam rosto à tradição.

“Era aqui que a gente via os campinos nessa altura. Hoje isso acabou tudo. Foi pena.”

Apesar da nostalgia, Ernesto Mateus não vive preso ao passado. Sabe que os tempos mudaram e que as novas gerações vivem o Colete Encarnado de forma diferente. O que defende é que a inovação não deve significar esquecimento.

“Podemos inovar, podemos fazer coisas muito novas, mas temos de ter cuidado com o passado.”

Ao comparar Vila Franca de Xira com outras festas ribatejanas, como as de Azambuja, Chamusca, Moita ou Alcochete, considera que todas procuram homenagear o campino à sua maneira. Ainda assim, acredita que Vila Franca pode recuperar algum do ambiente festivo que existia nas ruas.

Lembra-se de uma cidade mais decorada, com bandeiras, iluminação e um espírito festivo que acompanhava os visitantes desde a entrada da cidade até à zona ribeirinha. Na sua opinião, a festa deve continuar a acontecer nas ruas e junto das pessoas.

Também por isso defende um maior aproveitamento do Jardim Municipal, espaço que considera inseparável da memória coletiva do Colete Encarnado.

Ao longo da conversa deixa ainda um apelo à valorização das tertúlias, associações e estruturas locais que continuam a manter viva a tradição. Na sua opinião, sem esse trabalho silencioso muito já se teria perdido.

A ligação de Ernesto Mateus ao Colete Encarnado não se limita à condição de espectador. Durante décadas ajudou a construir o ambiente da festa através da sonorização de espetáculos e iniciativas realizadas em Vila Franca de Xira, Azambuja e noutras localidades ribatejanas. Conheceu os bastidores, os desafios e a dedicação de quem trabalha para que a festa aconteça.

Aos quase 80 anos acompanha agora o Colete Encarnado com outra serenidade. Reencontra amigos, observa e recorda. Continua, porém, a sentir que a festa faz parte da sua própria história.

Natural de Arruda dos Vinhos, chegou a Vila Franca de Xira ainda criança. Foi aqui que cresceu, trabalhou e constituiu família. Os filhos e os netos são vilafranquenses e é por isso que fala da cidade com evidente emoção.

O Colete Encarnado que guarda na memória talvez já não volte a ser exatamente o mesmo. Mas para Ernesto Mateus a sua essência permanece intacta enquanto houver quem continue a homenagear o campino e a reconhecer o papel que ele desempenhou na construção da identidade ribatejana.

Porque, para lá dos cartazes, dos concertos e dos programas, é essa a verdadeira alma da festa.

Explorar

guest
0 Comentários
Oldest
Newest Most Voted

O Valor Local

logo_cabecalho

Jornal e Rádio Regionais dos concelhos de AzambujaAlenquerCartaxoVila Franca de XiraSalvaterra de MagosBenaventeCadavalArruda dos Vinhos e Sobral de Monte Agraçol

Telefone: +351 961 971 323
(Chamada para a rede móvel)

Telefone: +351 263 048 895
(Chamada para a rede fixa nacional)

Email: valorlocal@valorlocal.pt

Últimas Edições Impressas

  • All Posts
  • Água e Ambiente
  • Art
  • Artigo
  • Autárquicas
  • Blog
  • Cultura
  • Destaque
  • Destaques
  • Dossier Águas
  • DOSSIER ATERRO DA QUEIJEIRA
  • DOSSIER PARQUES SOLARES DA REGIÃO
  • Economia
  • Edição Impressa
  • Fashion
  • Gadgets
  • Health
  • home
  • Lifestyle
  • Memórias
  • Nacional
  • Observatório Valor Local
  • Opinião
  • OUTRAS NOTÍCIAS
  • Política
  • Reportagem
  • Sociedade
  • Tauromaquia
  • Travel
  • Valor Científico
  • Vídeo

© 2013-2024, Valor Local

Desenvolvido por:   CordTech.pt – Marketing & Design