António José Seguro ganhou a primeira volta de forma clara, robusta e politicamente significativa. Não ganhou por acidente ou pela margem mínima. Ganhou de forma mais consistente do que qualquer sondagem antecipou, foi o candidato mais votado em 17 dos 18 distritos do continente, venceu na Região Autónoma dos Açores e fê-lo num contexto estruturalmente adverso: um país que, há pouco mais de oito meses, produziu uma maioria sociológica de direita, traduzida em cerca de dois terços do Parlamento. Este dado não é um detalhe técnico. É politicamente central. Há aqui capacidade real de agregação, transversal a territórios, classes, faixas etárias e sensibilidades políticas . E isso obriga a levar a sua vitória a sério.
Dito isto, é igualmente verdade que estas presidenciais não podem ser lidas à luz da velha grelha esquerda-direita, à semelhança das eleições de 1986. Naquele momento histórico, o país escolheu entre dois projetos claramente inscritos em campos ideológicos distintos, mas ambos plenamente integrados no sistema democrático constitucional. Hoje, o confronto é de natureza diferente e mais grave. O que está em causa não é uma alternância ideológica dentro do regime, mas uma disputa sobre o próprio regime. De um lado, um candidato que se inscreve no campo democrático, humanista, europeísta, defensor do quadro constitucional do pós-25 de Abril, com uma visão unificadora da função presidencial. Do outro, um candidato populista, radical, declaradamente anti-sistema, cuja relação com a Constituição, com a separação de poderes e com o pluralismo democrático é, no mínimo, instrumental e contingente.
A segunda volta deixou de ser apenas uma escolha entre estilos ou percursos, passou a ser uma escolha entre continuidade democrática e ruptura constitucional. Entre quem aceita as regras do jogo e quem as vê como obstáculo. Entre quem concebe o Presidente como garante do equilíbrio institucional e quem o imagina como detonador do conflito permanente. Estamos perante um referendo sobre a democracia portuguesa e o PS está no centro da defesa desta ao apoiar um António José Seguro. Sobre isso há a dizer que a vitória de Seguro é um ativo estratégico para o PS, é certo que não gera mudanças, mas dá tempo ao partido para animar-se, mobilizar-se e gerar uma nova agenda.
Em contraste, o PSD expôs-se a uma situação prejudicial. A postura ambígua do partido sobre a segunda volta, não é apenas um erro tático, é uma omissão histórica, que ignora o papel do PSD como força estruturante da democracia portuguesa. Marques Mendes, com toda a experiência e institucionalismo que representa, não conseguiu mobilizar nem ganhar tração emocional junto do eleitorado, pois este já não se identifica com o perfil do atual PSD em crise identitária. A crise é agravada pelo facto de a direita do PSD ser cada vez mais disputada: o Chega captura o eleitorado mais disruptivo, enquanto a Iniciativa Liberal atrai os reformistas urbanos e economicamente liberais. Estes partidos não são o CDS: são forças ousadas, com projetos próprios, que competem diretamente com o PSD e ambicionam governar. Já o erro táctico é manifesto: António José Seguro nunca será adversário direto do PSD. André Ventura é, neste momento, o mais forte concorrente ao Primeiro Ministro, seja pelo seu discurso, seja pela progressiva conquista do espaço político à direita e mediatismo. Não apoiar Seguro significa legitimar quem procura substituir o PSD por uma solução ainda mais radical. O PSD encontra-se espremido num espaço cada vez mais estreito e começou a perder simbolicamente o centro para o PS.
Caminhamos para um sistema político bipolarizado organizado em torno de um PS como garante do regime e de forças anti-sistema ou hiper-especializadas à sua direita. Esta eleição presidencial não resolve nada disto, mas torna este facto ainda mais visível e alarmante. Mostra que a política portuguesa já não se organiza apenas em torno do eixo esquerda-direita, mas em torno de uma tensão mais profunda: estabilidade-disrupção, contenção contra ambição, medo da rutura e impaciência com o status quo.
O voto em António José Seguro é compreensível, representativo e, para muitos, tático. Tático porque expõe uma lógica defensiva: uma parte significativa do país vota para não perder, e não para ganhar. Foi um voto de contenção, um voto para segurar o sistema. E, por vezes, isso é o essencial quando se está à beira de um precipício político para o qual o PSD insiste em empurrar os portugueses.




