Muito antes das montras, das escadas rolantes e dos corredores do Vila Franca Centro, naquele lugar já se faziam filas. Eram filas para comprar um bilhete de cinema, assistir a uma peça de teatro ou ver subir ao palco alguns dos grandes artistas portugueses de uma época em que uma ida ao espetáculo era, verdadeiramente, um acontecimento.
Ali existiu o Cine-Teatro de Vila Franca de Xira, uma imponente sala com 736 lugares, erguida no coração da cidade e cuja fachada permanece ainda na memória de muitos vilafranquenses.
Segundo os arquivos da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, que preservam o acervo histórico da Vida Ribatejana, uma fotografia publicada no jornal em 1950 apresentava o Cine-Teatro como o “novo e belo edifício” da cidade. A consulta dos fundos municipais confirma a preservação de exemplares históricos da publicação nas coleções do município.
Na imagem surgia um edifício de linhas modernistas, dominado por uma torre onde as letras “Cine-Teatro” anunciavam à distância aquele que viria a tornar-se um dos grandes pontos de encontro da cidade. Ao Cine-Teatro estava também associada a Estalagem da Lezíria.
Era outro tempo. Ir ao cinema significava entrar numa grande sala, procurar o lugar na plateia e esperar que as luzes se apagassem. Mas o Cine-Teatro não vivia apenas do cinema. Havia um palco, companhias em digressão, música, teatro, associações locais e noites em que centenas de pessoas se encontravam debaixo do mesmo teto.
Para muitos vilafranquenses, uma ida ao Cine-Teatro começava ainda antes de entrar. Havia o caminho até ao centro da cidade, os encontros à porta, as conversas enquanto se esperava e a expectativa de uma noite diferente. Numa época em que a oferta de entretenimento estava muito longe daquela que hoje cabe num telemóvel ou num comando de televisão, uma sala com centenas de lugares tinha uma importância que ultrapassava largamente o espetáculo anunciado no cartaz.
Os arquivos permitem hoje recuperar algumas dessas noites e perceber a intensidade da vida que passou por aquele palco. A 4 de maio de 1950, o Cine-Teatro recebeu a peça “Vida Sem Luz”. Pouco mais de um mês depois, a 10 de junho, chegava a Vila Franca de Xira o Grupo Dramático Lisbonense para um daqueles então chamados “serões de arte”. O programa juntava música e teatro e incluía “O Urso”, de Anton Tchekov, numa iniciativa ligada a nomes como Manuela Porto e Fernando Lopes-Graça.
Em novembro desse mesmo ano, Alves da Cunha estreou ali a sua companhia com “O Dr. Juiz”. O Diário Popular descreveu uma sala cheia e um público que recebeu o ator e a companhia com enorme entusiasmo. Em palco estavam também Emília Duque, Emília de Oliveira, Beatriz de Almeida, Clarisse Caio, Luís Filipe, Luís de Campos, João Calazans e Rogério Paulo.
Durante décadas, o Cine-Teatro foi muito mais do que uma sala onde se apagavam as luzes para começar um filme. Ali passaram associações da terra, músicos, atores e companhias de teatro. Era simultaneamente uma janela para aquilo que chegava de fora e uma casa para aquilo que Vila Franca produzia dentro das suas próprias coletividades.
Essa ligação à terra ajuda a explicar o lugar que o edifício ocupou na memória local. Não era apenas uma sala onde se comprava um bilhete. Era também um palco onde a própria comunidade se apresentava.
Em julho de 1965, o Ateneu Artístico Vilafranquense encerrou as comemorações do seu 74.º aniversário com um sarau no Cine-Teatro, aberto pelo Orfeão Misto do Ateneu, dirigido pelo maestro Casimiro Silva.
Aquelas paredes assistiram também a momentos que ultrapassaram o simples entretenimento. Em 1970, nos últimos anos da ditadura, o Cine-Teatro acolheu duas sessões do ZiP-Xira, um programa recreativo e cultural onde participaram nomes como Jacinto Ramos, Guida Maria e António Mota Redol. As sessões de 19 de janeiro e 30 de março assumiram um carácter de contestação ao regime. Uma terceira já não aconteceria. A PIDE proibiu o programa e apreendeu material.
A história daquele espaço mostra, aliás, como cinema e teatro ocuparam durante décadas um lugar importante na vida cultural vilafranquense. A documentação histórica do município recorda a existência de sessões cinematográficas regulares e de atividade teatral em espaços da cidade, testemunhando uma relação antiga de Vila Franca de Xira com os espetáculos e as artes de palco.
Talvez seja difícil explicar hoje o que representava uma sala daquela dimensão numa cidade como Vila Franca de Xira. Quando os 736 lugares se enchiam, uma pequena multidão partilhava o mesmo espetáculo, ria ao mesmo tempo, aplaudia ao mesmo tempo e, no final, regressava praticamente ao mesmo tempo às ruas da cidade.
É essa dimensão humana que uma fotografia antiga não consegue mostrar. Vemos a fachada, as janelas, a torre e o nome escrito no alto do edifício. Não vemos quem estava a chegar. Não vemos os bilhetes nas mãos. Não ouvimos as conversas antes da sessão. Não sabemos quem marcou ali um encontro, quem levou um filho pela primeira vez ao cinema ou quem saiu de uma peça ainda a discutir aquilo que tinha acabado de ver.
Também não sabemos quantos namoros começaram ou continuaram naquelas cadeiras, quantas famílias fizeram daquele programa uma ocasião especial ou quantas crianças olharam pela primeira vez para um grande ecrã dentro daquela sala.
Essas histórias raramente chegam aos arquivos. Ficam nas pessoas. E talvez seja por isso que os edifícios destinados à cultura deixam memórias tão particulares. Não guardamos apenas aquilo que vimos dentro deles. Guardamos quem estava connosco quando vimos.
Durante décadas, o Cine-Teatro acompanhou uma Vila Franca de Xira que também se transformava. Mudaram as gerações, os hábitos, a própria cidade e as formas de entretenimento. A televisão entrou definitivamente nas casas e novas formas de lazer foram aparecendo.
No início da década de 1990, o Cine-Teatro foi demolido. No lugar onde durante décadas existira a grande sala começou a nascer, em 1993, um projeto que representava uma ideia completamente diferente de modernidade, o Vila Franca Centro.
A transformação não podia ser mais simbólica. O espaço onde gerações se tinham sentado diante de um palco e de um grande ecrã preparava-se para receber lojas, corredores, escadas rolantes, restauração, bowling e duas salas de cinema.
O velho Cine-Teatro desaparecia, mas o cinema regressaria ao mesmo lugar sob outra forma. Quando o Vila Franca Centro abriu as portas, em novembro de 1994, começava outra história naquele pedaço da cidade. Para as gerações mais novas, aquele endereço passaria a significar outras coisas. Seria o centro comercial, as lojas, o bowling, os encontros com amigos e as idas às novas salas de cinema.
Mas por baixo dessa memória existia outra. Antes das escadas rolantes houve uma plateia. Antes das montras houve um palco. Antes do Vila Franca Centro houve um edifício onde Vila Franca se encontrava para ver cinema, teatro e música e onde também se encontrava consigo própria.
Hoje, uma velha fotografia é suficiente para o trazer de volta por alguns instantes. Lá está novamente a fachada. Lá está a torre. Lá estão, no alto, as letras que diziam simplesmente “Cine-Teatro”.




