A CERCI Flor da Vida, instituição particular de solidariedade social sediada em Azambuja, está a atravessar um novo ciclo de transformação marcado por um conjunto de investimentos estruturais e por uma estratégia que pretende reforçar a sustentabilidade da organização e ampliar as respostas sociais e de saúde na região. O presidente da instituição, José Manuel Franco, considera que as IPSS enfrentam hoje desafios muito diferentes daqueles que existiam há alguns anos e que isso exige novas formas de gestão e de organização. Em entrevista ao Valor Local faz o balanço dos vários projetos em curso.
“A gestão das IPSS tem de ser muito profissionalizada. Já não pode ser feita com base no amadorismo de outros tempos, em que os órgãos sociais davam um pouco do seu tempo fora do horário de trabalho. Os desafios hoje são enormes e exigem gestão profissional”, afirma.
Segundo o responsável, a realidade atual, marcada por instabilidade económica e por mudanças rápidas no contexto social, obriga as instituições a estarem permanentemente atentas e preparadas para ajustar estratégias.
“Não há varinhas de condão. Temos de estar atentos e fazer em tempo útil as mudanças necessárias para cumprir os objetivos”, sublinha. É neste contexto que a CERCI Flor da Vida tem vindo a desenvolver um conjunto de investimentos que, no total, rondam os 11 milhões de euros e que incluem vários projetos em simultâneo, entre Azambuja e Cartaxo.
Um dos principais é o Complexo Social e de Saúde da Quinta das Rosas, em Azambuja, um equipamento que reúne respostas na área social e da saúde e que deverá reforçar significativamente a capacidade de intervenção da instituição.
O complexo irá integrar um Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão, destinado a pessoas com deficiência, bem como um lar residencial para esses mesmos utentes. O objetivo é garantir acompanhamento durante o dia e também a possibilidade de residência permanente para pessoas que necessitam de apoio continuado.
Além destas respostas, o projeto inclui também uma estrutura residencial para pessoas idosas, vocacionada sobretudo para situações de maior dependência, bem como para familiares de utentes da própria CERCI que pretendam permanecer próximos dos filhos ou familiares acompanhados pela instituição.
Outro dos pilares do complexo será a criação de uma unidade de cuidados continuados integrados, com 41 camas destinadas a pessoas com necessidade de acompanhamento clínico prolongado. Esta resposta permitirá dar apoio a utentes da região e também funcionar como retaguarda hospitalar, em articulação com o Hospital de Vila Franca de Xira.
“Estamos a criar um espaço moderno, inovador e muito acolhedor, com respostas que fazem falta à região”, afirma José Manuel Franco.
Parceria com a Santa Casa de Azambuja que não avançou
Curiosamente, o projeto não nasceu inicialmente na Quinta das Rosas. A ideia começou por ser discutida no âmbito de uma possível parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Azambuja, que previa a requalificação do antigo edifício do centro de saúde. Segundo José Manuel Franco, chegaram mesmo a ser desenvolvidas conversações avançadas e estudos sobre o modelo jurídico da entidade que poderia ser criada para concretizar o projeto.
“Chegámos à fase de projeto e discutimos até que tipo de instituição poderia ser criada para agregar as duas entidades”, recorda.
No entanto, numa fase já adiantada do processo, a Santa Casa acabou por entender que não estavam reunidas condições para avançar. Perante essa decisão, a CERCI optou por seguir sozinha com a iniciativa e decidiu transferir o projeto para a Quinta das Rosas, adaptando o conceito inicial ao novo espaço. José Manuel Franco admite e lamenta que a parceria não tenha sido possível.
“Lamento profundamente que não tenha sido possível chegar a um acordo. Era um projeto que fazia todo o sentido e que, em rede, poderia ter ainda maior impacto para a região”, afirma.
Apesar disso, a instituição decidiu avançar com o investimento, adaptando o projeto às novas circunstâncias e reforçando a sua estratégia de diversificação das respostas sociais.
A par deste investimento em Azambuja, a CERCI está também a desenvolver um projeto inovador no Cartaxo, na zona da Quinta das Pratas. Trata-se de um modelo de habitação colaborativa e comunitária destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade social.
O equipamento inclui 11 apartamentos destinados a cerca de 30 residentes, combinando espaços privados com áreas comuns de utilização partilhada, como cozinha, sala, lavandaria ou espaços exteriores.
O modelo prevê ainda acompanhamento técnico e apoio social, incentivando ao mesmo tempo a participação dos residentes na gestão e nas atividades do dia-a-dia.
Segundo José Manuel Franco, trata-se de uma resposta inovadora que pretende dar resposta a diferentes realidades sociais, desde pessoas em situação de fragilidade económica até idosos isolados ou vítimas de violência doméstica.
“É uma resposta muito interessante porque responde a vários problemas da sociedade atual”, afirma.
Apesar da dimensão dos investimentos, o presidente da CERCI recorda que a decisão de avançar com estes projetos foi tomada num momento em que a instituição não dispunha ainda de todos os recursos financeiros necessários.
“Foi uma decisão muito ousada. Quando avançámos com a obra da Quinta das Rosas tínhamos cerca de 900 mil euros aprovados para um projeto desta dimensão”, recorda.
Desde então, a instituição tem recorrido a candidaturas, financiamento bancário e diferentes instrumentos de apoio para garantir a concretização dos projetos.
Mesmo assim, José Manuel Franco sublinha que cerca de 40 por cento do investimento terá de ser assegurado com capitais próprios da instituição.
“Temos conseguido avançar porque a CERCI tem credibilidade junto da banca e dos parceiros”, refere.
Para o responsável, estes projetos representam não apenas um investimento na instituição, mas sobretudo uma aposta no reforço das respostas sociais e de saúde disponíveis na região.
Encerramento do CACI de Olhalvo leva resposta social para Azambuja
A valência do Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão de Olhalvo, no concelho de Alenquer, deverá ser descontinuada até ao final de junho, sendo os utentes transferidos para Azambuja, onde a CERCI Flor da Vida está a concentrar parte das suas respostas sociais em novas instalações.
Segundo o presidente da instituição, José Manuel Franco, o polo de Olhalvo deixou de reunir condições para continuar a funcionar. Em causa está um pré-fabricado com mais de 30 anos que já não oferece condições adequadas para o acompanhamento dos utentes.
“O CACI de Olhalvo deixa de estar porque não tem condições de funcionar lá”, afirma.
A CERCI chegou a apresentar um projeto para ampliar aquela resposta social e criar também um lar residencial, mas a proposta não avançou.
José Manuel Franco considera que a Câmara de Alenquer poderia ter dado maior importância ao trabalho desenvolvido pela instituição naquele concelho.
“Nós temos, em algumas respostas sociais, quase 50 por cento dos utentes do concelho de Alenquer e, portanto, a Câmara devia dar outra importância à CERCI Flor da Vida”, afirma.
O encerramento da estrutura implicará a redistribuição dos 15 utentes atualmente acompanhados em Olhalvo. Parte ficará integrada nos CACI existentes em Azambuja e outra deverá passar para regime de internato associado ao lar residencial.
Segundo a direção da instituição, a concentração das respostas permitirá melhorar as condições de acompanhamento e facilitar o acesso a terapias e serviços especializados.
Projeto Bata Branca continua, mas CERCI admite incerteza no futuro
O projeto Bata Branca, que tem permitido reforçar o acesso a consultas médicas no concelho de Azambuja, deverá continuar, mas o futuro mantém algumas incertezas.
O presidente da CERCI Flor da Vida garante que a instituição está empenhada em manter o projeto, embora admita que a sua continuidade esteja a ser avaliada mês a mês.
“O projeto Bata Branca tem-se mantido e vai-se manter no futuro, mas as decisões infelizmente são tomadas mês a mês”, afirma José Manuel Franco.
Segundo o responsável, a CERCI tem sido o principal garante do funcionamento da iniciativa, apesar de não ser a entidade com maior responsabilidade institucional na área da saúde.
“O principal interessado que tem mantido o projeto a funcionar tem sido a própria CERCI”
José Manuel Franco sublinha que a responsabilidade da instituição não se limita à contratação de médicos. A CERCI assume também riscos administrativos, jurídicos e financeiros associados ao funcionamento do projeto.
Ao mesmo tempo, critica a falta de acompanhamento por parte de alguns parceiros institucionais e alerta para custos inesperados que a instituição tem tido de suportar.
Apesar das dificuldades, José Manuel Franco garante que a CERCI continuará a procurar soluções para garantir consultas médicas à população.
Liderança forte é essencial para o futuro das instituições sociais
Para José Manuel Franco, o futuro das instituições sociais depende cada vez mais da capacidade de liderança e de gestão profissional.
O presidente da CERCI Flor da Vida considera que muitas organizações continuam a enfrentar dificuldades devido à ausência de lideranças fortes e de estruturas de gestão adequadas.
“Há um problema de falta de lideranças fortes e isso verifica-se a vários níveis”, afirma.
Segundo o responsável, não basta ter liderança ao nível máximo das instituições. É igualmente necessário apostar nas chefias intermédias e valorizar os profissionais que integram as equipas.
“É preciso lideranças fortes a nível de topo e também a nível intermédio”, defende.
Na sua perspetiva, as instituições tornam-se mais fortes quando conseguem criar uma cultura organizacional baseada no rigor, na transparência e na valorização das pessoas.
Essa visão estende-se também à forma como as organizações se relacionam entre si e com as entidades públicas.
Ainda assim, José Manuel Franco garante que a CERCI Flor da Vida continuará a apostar em novos projetos e em respostas inovadoras para responder às necessidades da região.




