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Retratos de quem desespera por uma oportunidade e só quer trabalhar

Segundo os últimos dados, há no nosso país 950 mil pessoas sem trabalho, o que representa uma taxa de 17,7 por cento. O desemprego tem subido em todas as regiões, e o Ribatejo não tem sido exceção. O desemprego jovem também assume contornos evidentes. O Valor Local foi ao encontro de quatro pessoas, em situação de desemprego de longa duração (mais de dois anos), na nossa região, que desabafaram sobre os seus esforços para voltarem ao mercado de trabalho. São o retrato de quem desespera por uma oportunidade.

Helena Cruz: Licenciada disposta a “tudo”

“O trabalho agrícola já seria uma ótima opção”

Helena Cruz, 31 anos, residente nas Virtudes, concelho de Azambuja, está desempregada há dois anos. Durante cinco anos trabalhou num transitário na parte da importação a ganhar “um bom ordenado”, apesar de não ser aquela a sua área de formação, dado que é licenciada em “Estudos Africanos”. “Tentei trabalhar na área, mas não foi possível ir além do estágio. A minha ideia era fazer trabalhos de desenvolvimento sustentado em África”.

“Ainda estive em Moçambique com umas colegas a fazer um estudo de terreno, mas éramos muito novas, prometeram-nos apoios, mas acabaram por ficar com o nosso projeto”, dá a conhecer. Hoje, reconhece que se tivesse apostado num mestrado em algo mais específico, poderia ter outras possibilidades, mas também adverte que nesta como noutras áreas, o sistema está minado pela circunstância das ditas cunhas. “Fui ultrapassada, após um estágio, pela prima do primo, literalmente”.

Face às dificuldades que tem encontrado no mercado de trabalho, desde há dois anos, que já lhe passou pela cabeça “empobrecer” o currículo, tendo em conta a sua licenciatura. “Há uma incongruência entre as ofertas disponíveis nos sites de emprego, que são muitas, e as oportunidades reais no mercado de trabalho, por vezes penso que a sua publicação na internet corresponde, apenas, a uma mera formalidade”. Helena Cruz procurou trabalho na área de importação, secretariado, mas mais recentemente começou a enviar candidaturas “para armazéns, apanha agrícola de ‘tudo e mais alguma coisa’, ajudante de cozinha, lojas”.

Incrivelmente, diz nunca ter sido contactada pelos empregadores relacionados com trabalho menos qualificado, que tantas vezes se queixam de falta de mão-de-obra. “Penso que há um leque de pessoas fixo para esses trabalhos, que depois chamam conhecidos ou amigos”.

Desiludida com a situação, Helena Cruz diz já ter enviado também propostas para trabalhar nos campos agrícolas da região, tendo em conta anúncios que viu: “Fiquei na dúvida se deveria ou não mandar currículo, certo é que me contactaram, imediatamente, para uma plantação de milho em Muge, mas não pude aceitar por uma questão de horário, porque colidia com o horário do meu marido (por volta das seis da manhã), e tornava-se complicado por causa do nosso filho. Mas se não fosse este o obstáculo teria ido com certeza, sendo que já me inscrevi mais recentemente para a campanha da pêra rocha no Bombarral”, diz decidida, lembrando que em tempos chegou a trabalhar simultaneamente numa loja, na limpeza de escadas e nas limpezas de um café, antes de ir para a universidade.

A fase imediatamente após a saída do transitário culminou numa espécie de “banho de realidade”, pois antes “era muito bem remunerada”. “Usufruía de condições muito boas, naquela altura a minha fasquia era muito alta. Quando fui para o fundo desemprego passei a ganhar menos 40 por cento, adaptei a minha vida para esse valor. Mas, progressivamente, vamos descendo, e hoje em dia, já ficaria muito satisfeita com um ordenado de 600 euros”. Helena continua otimista, apesar de tudo: “Não tenho medo de trabalhar, nem que seja num emprego temporário, tenho uma família e não quero depender, exclusivamente, do meu marido para pagar contas”.

Paula Sequeira: Portadora de paralisia cerebral

Paula gostava de trabalhar à secretária

Com 34 anos, portadora de paralisia cerebral, Paula Sequeira, moradora em Azambuja, tirou um curso de contabilidade, na área de formação profissional, em Alcoitão, mas está disponível para trabalhar noutras áreas, desde que sentada à secretária, devido às suas limitações físicas. A desempregada, devido às dificuldades de locomoção, gostaria, sobretudo, de arranjar um trabalho na vila de Azambuja.

Está no desemprego desde 2004, ano em que acabou o estágio na Câmara Municipal de Azambuja, como técnica auxiliar. “Tentaram prolongar o estágio, mas depois não conseguiram colocar os papéis a tempo. Desde então, que estou em casa, na esperança de encontrar algo”, refere. Esteve inscrita no centro de emprego, e confessa que recebeu cartas para comparecer em entrevistas para tarefas inusitadas: “Queriam colocar-me na Auchan a fazer paletes”.

Em mais do que uma ocasião, o centro de emprego convocou-a para comparecer em entrevistas sem atender à sua deficiência. “Diziam que se tinham esquecido de inserir o código! Usaram esta desculpa. Também me pediram para ir de supermercado em supermercado fazer promoções de cartões de crédito”, dá conta. Ao longo deste período, Paula tem procurado ofertas sobretudo pela internet. “Tenho tido alguns períodos, não digo depressivos, mas já me senti um bocado em baixo. Não tenho transporte e isso limita em muito a minha procura. Tem ficado de parte o meu sonho de poder trabalhar fora de casa”.

Paula recebe um subsídio de 282 euros e, nas épocas de IRS, ajuda amigos e vizinhos. Desde há dois anos que é também tesoureira voluntária da Associação Portuguesa de Ataxias Hereditárias. “É um trabalho voluntário, mas mantenho a cabeça ocupada!”. A desempregada lamenta, sobretudo, a carga negativa atribuída à paralisia cerebral, defendendo que deveria optar-se por uma terminologia diferente, pois possui uma “boa cabeça”.

Em Azambuja desemprego rima com Opel

Em 2006 o encerramento da fábrica Opel em Azambuja veio agudizar um problema que começava a emergir no seio das famílias portuguesas. O impacto foi maior quando a fábrica deslocalizou a produção para Espanha, enviando para o desemprego mais de mil pessoas do município. Os dias de hoje acabam por ser um reflexo disso; os ex-trabalhadores nunca foram totalmente absorvidos pelas indústrias de logística instaladas.

Segundo Marco Leal, vereador com a pasta do Emprego, estão inscritos no Centro de Emprego 1.236 pessoas, contudo, estes números podem não espelhar a realidade, pois muitos já perderam o direito ao subsídio. A autarquia criou o Gabinete de Inserção Profissional (GIP) em parceria com o IEFP para ajudar na procura.

Já em 2011, o município encomendou um estudo ao economista Augusto Mateus. O programa “Azambuja 2025, uma estratégia com um Rio de Oportunidades” traçou metas para o combate ao desemprego. A existência de uma Escola Profissional poderia suprimir lacunas, mas o processo emperra na falta de financiamento e na burocracia. O vereador Marco Leal salienta que o projeto poderia ser implantado no antigo edifício do Centro de Saúde, embora o espaço pertença à Santa Casa e esteja destinado a um lar.

Sofia Cândido: “Procurar emprego é um trabalho”

Chegou a mandar mais de 400 currículos no início

Licenciada em Solicitadoria, Sofia Cândido, residente em Alverca, está à procura de emprego há cerca de dois anos. O último trabalho foi na prestação de serviços jurídicos bancários. “Como estava a recibos verdes, fui das primeiras a sair”. Na sua procura, não se restringe à sua área de formação, contactando escritórios, call centers e lojas.

Sofia tem a reentrada complicada pelo facto de ter uma criança com necessidades especiais, o que dificulta a empregabilidade fora do concelho de Vila Franca de Xira. “Fiz um levantamento exaustivo de todas as empresas existentes no concelho, entregando em mãos o currículo em cerca de 20”. No início, chegou a mandar 400 currículos — “5 a 6 por dia”.

Algumas entrevistas deixaram-lhe um travo amargo pela questão da idade (tem 43 anos) e do filho. Numa empresa no Parque das Nações, o horário era de seis horas, mas ao saberem que não tinha com quem deixar o filho após as quatro da tarde, disseram que o horário seria rotativo. Noutra ocasião, ia ser contratada até o empregador ver a idade no currículo: “O discurso mudou completamente”. Sobre o IEFP, realça o papel motivador dos técnicos, mas critica a falta de fluidez das soluções: “Dizem que o nosso dia há-de chegar, como se estivéssemos a falar de um totoloto”.

Carla: “Estou disponível para lavar sanitas ou varrer ruas”

Desempregada há dois anos e meio

Carla (nome fictício) está desempregada há dois anos e meio. O marido, serralheiro, está na mesma situação há um ano. Esta família do Carregado recorre semanalmente à loja social. É com o rosto lavado pelas lágrimas que confessa que os seus filhos já passaram fome. “Tenho corrido tudo. Já fui a imensas entrevistas mas sem sucesso”.

Carla tem 28 anos e o último emprego foi como operadora de caixa. Com filhos de oito e dois anos, sente que a maternidade é um entrave: “Fui a uma entrevista na Castanheira… a maioria das concorrentes eram jovens sem filhos. É o que os empregadores procuram!”. Mesmo com o apoio da sogra para as crianças, o impedimento continua. “Estou disponível para trabalhar em qualquer horário nem que seja para lavar sanitas”.

A família vive com 279 euros do subsídio do marido, enquanto a renda da casa ronda os 300 euros. Carla aguarda pela avaliação do Rendimento Social de Inserção, tendo ouvido na Segurança Social que, mesmo que tenha direito, não sabem se o Estado conseguirá pagar futuramente. “Tem sido completamente desesperante”, confessa.

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