A água chegou devagar, mas não deu tempo para nada. Em poucos dias, tomou conta das hortas sociais e transformou aquilo que era um espaço de cultivo, tranquilidade e rotina num cenário de lama, lixo e destruição. Durante cerca de três semanas, Joaquim Carlos Neves não conseguiu sequer aproximar-se da sua horta.
O acesso era impossível. Em vários pontos, a água ultrapassava o metro de altura. Noutras zonas, ficava-se pelo meio metro, mas a sensação era sempre a mesma: tudo submerso, tudo parado, tudo perdido por momentos. A vala junto ao terreno transbordou, arrastando detritos, troncos e lixo que se espalharam por toda a área. “Era muita água, muito lixo. Não se podia cá vir”, recorda.
Quando finalmente regressou, o impacto foi imediato. O que encontrou não era a horta que conhecia há mais de 14 anos. Era um espaço irreconhecível. Árvores partidas, estruturas danificadas, ferramentas desaparecidas, tudo espalhado. Um cenário que descreve, sem hesitar, como caótico.
Mesmo assim, a ligação àquele pedaço de terra falou mais alto. Num dos primeiros dias, ainda tentou chegar de bicicleta, atravessando zonas alagadas apenas para perceber o que restava. Não havia nada a fazer, mas havia necessidade de ver. De confirmar. De aceitar.
A água levou mais do que objetos. Levou tempo, levou trabalho, levou parte da história que ali foi sendo construída ao longo dos anos. Algumas árvores resistiram, outras não. Duas acabaram por cair com a força da corrente. As pequenas construções de apoio sofreram danos, telhados cederam, materiais desapareceram. Baldes, ferramentas, suportes, tudo ficou pelo caminho. “É um prejuízo grande, mas não dá para contabilizar. É impossível”, admite.
Ainda assim, Joaquim não fala em desistir. Fala em recomeçar. Mesmo sabendo que o trabalho agora é praticamente começar do zero. O terreno, que antes estava cuidado, ficou coberto de erva e resíduos. A terra está pesada, húmida, difícil de trabalhar. Cada gesto exige o dobro do esforço.
Apesar disso, já começou. Aos poucos, vai limpando, cortando, reorganizando. Com calma, mas com determinação. “Para mim isto é um passatempo”, diz, mas rapidamente se percebe que é muito mais do que isso. É ali que encontra paz. É ali que se afasta do ruído do dia-a-dia. É ali que se sente bem. Sentado ou de pé, a olhar para as árvores, para os primeiros sinais de flor, para aquilo que ainda resiste, encontra motivos para continuar. “Só ver isto a florir, a dar fruto… isso chega”, diz.
Na horta, nunca cultivou apenas para si. Planta mais do que precisa, como sempre fez. Não por ambição, mas por forma de estar. Ao longo dos anos, esse excedente ganhou um destino solidário. Parte da produção foi sendo entregue a quem mais precisa, nomeadamente à Cruz Vermelha, num gesto discreto mas constante, que diz muito da sua maneira de viver. “Eu não gosto de deixar estragar. Prefiro dar”, afirma, com simplicidade, uma frase que resume bem quem é.
Aquele espaço, disponibilizado pela Câmara Municipal no âmbito das hortas sociais, é mais do que um terreno. É uma extensão da sua vida. Um lugar onde passou horas, dias, anos. Onde plantou, colheu, partilhou.
Mas Joaquim não está sozinho. Ao longo da mesma zona, há dezenas de outros hortelões que viveram exatamente o mesmo. Alguns até pior. Terrenos completamente submersos, estruturas destruídas, perdas totais. Há quem ainda nem tenha conseguido regressar em pleno. Há quem esteja a ponderar desistir.
O risco existe. Se as condições não melhorarem e se o esforço de recuperação não tiver apoio, algumas destas hortas podem vir a ficar vazias no futuro. Espaços que hoje são ocupados por quem encontra ali um refúgio podem transformar-se em terrenos abandonados. Para já, Joaquim prefere não pensar nisso. Prefere concentrar-se no que pode controlar. Quer voltar a ver a horta cheia. Quer voltar a plantar, a cuidar, a colher. Quer voltar à normalidade.
Se o tempo ajudar, acredita que dentro de duas a três semanas já terá o espaço minimamente recuperado. Não igual ao que era, mas suficientemente vivo para recomeçar. Pelo meio, ficam imagens difíceis de esquecer. Chegou a apanhar peixe nos charcos formados pela água que recuava lentamente, um sinal claro da dimensão da cheia. Um cenário quase surreal, no meio de um espaço que sempre foi terra firme. Agora, entre a lama ainda presente e os primeiros sinais de recuperação, há uma certeza que se impõe: mais do que a destruição, ficou a vontade de continuar.
Porque para Joaquim, aquela horta não é apenas terra. É memória, é partilha, é forma de estar. E enquanto houver força, haverá sempre um motivo para voltar.




