Não fazer nada é, em si, uma escolha política, sendo essa a marca deste Governo. Já em fevereiro passado, perante as fortes intempéries que afetaram várias regiões do país, a resposta foi lenta e insuficiente. Ainda hoje os territórios e as pessoas esperam e desesperam por apoios concretos.
Estamos, agora, perante um choque energético que já instalou o pânico nos mercados e na economia global. Se o bloqueio do Estreito de Ormuz se prolongar, as consequências são previsíveis: pressão inflacionista, disrupção nas cadeias de abastecimento e, inevitavelmente, uma recessão à escala global.
Perante isto, o Governo optou, outra vez, por não fazer nada. Limitou-se a subscrever declarações internacionais, apelou à diplomacia e garantiu que Portugal está “longe de uma crise energética”. E ficou por aí. O problema é que a realidade não espera.
Enquanto isso, outros países europeus avançam. Espanha, com um governo de centro-esquerda, aprovou logo em março um pacote de 5 mil milhões de euros para mitigar o choque energético, incluindo a redução do IVA de 21% para 10% (o mínimo permitido na União Europeia) nos combustíveis, na eletricidade e no gás natural, bem como apoios diretos a famílias e setores mais expostos. Trata-se de governação centrada nas pessoas. O Governo português, pelo contrário, limita-se a seguir a crise à distância.
É certo que o Governo tem defendido uma resposta coordenada ao nível da União Europeia. E essa posição é, em si, compreensível. Mas não pode servir de álibi para a inação interna, que, diga-se, favorece a predatória agenda liberal. Enquanto se discute, as famílias portuguesas pagam. E pagam mais a cada dia que passa.
Uma resposta europeia não exclui, nem pode substituir, medidas nacionais imediatas, concretas e desburocratizadas de apoio direto ao rendimento das famílias. A redução do IVA sobre os combustíveis e a aplicação de IVA zero a um cabaz alimentar essencial já foram discutidas no âmbito de vários projetos parlamentares de resolução, mas que continuam por concretizar em lei.
O Governo refugia-se na narrativa da resiliência: renováveis, reservas, diversificação e do risco de descontrolo. Tudo certo mas insuficiente. Porque uma crise energética não se mede apenas pela capacidade de abastecimento, mede-se no preço que chega às famílias e às empresas.
Esta situação não surge no vazio, surge depois de dois anos de promessas falhadas. Disseram-nos que o país cresceria facilmente acima dos 3%, que estava preparado para acelerar, mas, mesmo com uma conjuntura internacional favorável, o crescimento ficou nos 1,9%.
Falta comunicação clara, falta empatia e falta a capacidade de reconhecer que, por detrás de cada subida de preços, estão famílias a fazer contas no fim do mês. Discute-se demasiado o desenho perfeito das medidas e pouco a urgência de agir. Critica-se o risco de algumas soluções eventualmente beneficiarem quem menos precisa ou de não chegarem integralmente ao bolso dos consumidores. Mas, na ausência de qualquer resposta, o que resta?
Resta a sensação de abandono. Resta a ideia de que quem decide está longe da realidade de quem paga. Resta um país à espera, sempre à espera, que a tempestade passe. E um país que se habitua a esperar deixa, inevitavelmente, de exigir liderança, abrindo a porta ao extremismo.
Arruda dos Vinhos, 15 de abril de 2026.




