A agricultura, a Europa e o futuro da produção alimentar são os grandes temas desta entrevista a Eduardo Oliveira e Sousa. O presidente da Companhia das Lezírias fala dos efeitos das alterações climáticas, da inovação tecnológica, da inteligência artificial, da falta de mão de obra e da necessidade de tornar o setor mais competitivo, deixando também duras críticas ao rumo seguido pela Política Agrícola Comum.
Valor Local – Começava por lhe perguntar como é que está a correr este ano de 2026 para a Companhia das Lezírias, que balanço faz até o momento?
Eduardo Oliveira e Sousa- Ora bem, o ano de 2026 é ainda uma criança em termos de atividades agrícolas. Já tivemos, infelizmente, a notícia, a nível nacional, de que a produção de cereais de sequeiro (algo que a Companhia não faz) tem estado a correr mal, por causa das condições climatéricas. Tudo indica que neste ano, teremos uma produção mais generosa, mais simpática nas principais culturas que a Companhia faz, como seja o arroz e o milho, para além da uva, que também está a prometer uma boa campanha. O arroz e o milho têm estado em preços historicamente baixos, perigosamente baixos, eu diria, este ano, também fruto da instabilidade geopolítica em que o mundo se encontra, não apenas pelas questões climatéricas. Esperamos que esta circunstância se altere.
Valor Local – Estes preços estão baixos por que motivos, em concreto?
Eduardo Oliveira e Sousa – Os produtos transacionados internacionalmente, as chamadas commodities, com o funcionamento de mercados de futuro e tudo isso, estão muito prejudicados pela situação da guerra no Médio Oriente e também na Ucrânia. Portanto, as duas guerras trazem-nos uma instabilidade em termos de previsão de preços muito grande. Depois temos o problema dos custos de produção. Os custos de produção estão cada vez mais altos, com o preço de energia à cabeça, e o resultado, que no fundo é a diferença entre o valor do produto que se vende e o conjunto das despesas que é preciso fazer para os produzir, tem sido muito magro, em algumas situações até negativo. Se associarmos a isso baixos níveis de produção, então a coisa piora. Este ano temos, pelo menos até agora, condições para prever uma boa campanha. Aliás, há uma notícia preocupante que saiu hoje no jornal, baseada nos resultados do Instituto Nacional de Estatística, que dizem que o défice agroalimentar de Portugal aumentou, ou seja, vamos ter de importar mais alimentos, porque a relação dos preços internacionalmente e a quantidade dos produtos que produzimos não é suficiente para o equilíbrio dessa balança.
Valor Local – As tempestades do início do ano também tiveram um forte impacto aqui na Companhia das Lezírias?
Eduardo Oliveira e Sousa – Com certeza que tiveram. Na parte da Lezíria de Vila Franca propriamente dita, aas cheias não assumiram aquela perspetiva de destruição do seu valado protetor, fruto de uma boa articulação entre as diferentes entidades que gerem aquele território, mas aqui na Charneca do Infantado, o impacto foi brutal, em particular na floresta.
Valor Local – Tem uma quantificação do valor dos prejuízos?
Eduardo Oliveira e Sousa – São difíceis de quantificar. Temos os valores associados à destruição. Isso é relativamente fácil, não tenho de cabeça, mas há uns milhares de euros relacionados com telhados levantados, telhas partidas, vedações partidas com queda de árvores, coisas desse género, porque felizmente não tivemos catástrofes idênticas ao que se passou em Leiria. Mas temos, por outro lado, milhares de árvores caídas no chão. Acresce a isso que um dos nossos principais clientes, na região de Leiria que estaria comprador da nossa matéria-prima, a madeira, disse que não podia trabalhar porque a fábrica ficou destruída. Por outro lado, o mercado está inundado de madeira devido às intempéries do início de ano. O preço vai descer e não há condições de receber as madeiras, e isso acaba por ser mais um prejuízo.
Valor Local – Tivemos estes fenómenos climatéricos este ano, mas no ano passado tivemos a tempestade Martinho. De que forma é que a Companhia das Lezírias tem tentado adaptar-se a estas alterações climáticas, a estes fenómenos que no fundo temos vivido?
Eduardo Oliveira e Sousa – São assuntos diferentes, uma coisa é adaptarmo-nos às alterações climáticas, outra coisa é estarmos preparados ou tentarmos minimizar o impacto de situações, de fenómenos extremos, para não lhe chamar catástrofes. Uma catástrofe talvez seja de uma dimensão um pouco exagerada neste contexto. Em dois anos consecutivos tivemos cheias violentas, que trouxeram prejuízos, que provocaram danos. As alterações climáticas baseiam-se num processo de modificação e de adaptação, de interpretação e de ação, para minimizar os efeitos que se refletem de várias maneiras: temperatura, vento, picos de calor, ausência de chuva prolongada. O que estamos a fazer passa por introduzir a tecnologia que é possível para gerir melhor essas situações. Procuramos acompanhar a evolução da ciência no que diz respeito à escolha de sementes, processos de mobilização de solo ou não mobilização de solo, escolha de locais para plantações dedicadas, por exemplo, ao sequestro de carbono. Portanto, há todo um conjunto de ações ligado ao conhecimento, à agronomia, até também à parte da inteligência artificial que nos pode ajudar a aumentar as nossas condições de resiliência aos efeitos das alterações climáticas.
Valor Local – Nesse âmbito, a inovação e a agricultura de precisão são hoje fundamentais. Que projetos é que têm em curso no papel das novas tecnologias, incluindo também a inteligência artificial, como estava a falar?
Eduardo Oliveira e Sousa – Estamos a implementar na gestão da vinha um programa de inteligência artificial que nos pode ajudar a prever, por exemplo, ataques de doenças ou de pragas, com uma antecipação que não é tradicional – por exemplo, no caso do míldio, sabemos que a previsão meteorológica nos vai trazer um grau de humidade e determinada temperatura nos próximos cinco dias, e apenas podemos agir naqueles 5 dias. Este programa associado à inteligência artificial vai alargar a janela temporal para 15 dias, três semanas, ou um mês. Como temos a vinha toda em agricultura biológica, o impacto pode ser previsto de uma forma ainda mais abrangente.

Valor Local – Essa aposta só é possível graças a estas novas tecnologias?
Eduardo Oliveira e Sousa – Obviamente. Essa foi uma decisão que este Conselho de Administração, ponderou. Considerou-se que a transição podia ter sido mais lenta de alguma maneira.
Valor Local – O arroz também acaba por ser bastante exportado através da Orivárzea?
Eduardo Oliveira e Sousa – A Orivárzea exporta bastante arroz. Mas o arroz é principalmente consumido em Portugal, até porque o principal arroz que produz é o carolino. Considero, contudo, que há que inovar na comunicação porque Portugal modificou um pouco a forma de consumir arroz, (com a chegada de outras variedades ao país). Pretendemos que o arroz carolino volte a ocupar o seu lugar, principalmente, na restauração. Muitas vezes utiliza-se menos o arroz carolino por causa das dificuldades inerentes ao seu cozimento.
Valor Local – A Companhia das Lezírias tem também uma forte componente ambiental, que trabalho é que está a ser desenvolvido ao nível da conservação da biodiversidade e daquilo que disse há pouco, da diminuição da pegada carbónica?
A principal atividade produtiva associada ao carbono é a floresta e, em estreita ligação com ela, a pecuária extensiva. Esta tem o reconhecimento de ser uma atividade de baixo carbono, porque toda a área de pastagem é explorada em modo biológico. As pastagens funcionam como autênticas máquinas de retenção e absorção de carbono da atmosfera. Além disso, estão associadas ao montado, que é, por si só, um importante sumidouro de carbono. Temos, por isso, um conhecimento muito aprofundado nesta área e os resultados alcançados são reconhecidos internacionalmente.
Valor Local – O sequestro de carbono pode vir a ser também uma fonte de receita através dos mercados de carbono?
Eduardo Oliveira e Sousa – Naturalmente que queremos aproveitar essa oportunidade. Somos uma sociedade anónima e, como qualquer empresa, temos a obrigação de procurar rentabilizar o nosso património e as nossas atividades. Estamos a ponderar ainda arrendar uma pequena área para a instalação, por exemplo, de uma fábrica de biometano. Para quê? Para não só ajudar as empresas a entrarem nesse mundo, que é ambientalmente também positivo, mas para ficarmos com o produto que sobra dessa atividade que é o chamado digerido que pode ser utilizado como fertilizante nos nossos terrenos. Provavelmente não, pelo menos numa determinada fase em terrenos biológicos, mas no terreno que não está em biológico como seja o do milho ou o arroz. Portanto, todas as atividades que estejam envolvidas em questões ambientais devidamente sustentáveis a companhia está a apostar.
Valor Local – Também temos aqui o projeto, Act for Nature, que protege a Águia de Bonelli, e promove caixas ninho para as corujas das torres.
Eduardo Oliveira e Sousa- E não só, porque, por exemplo, no Evoa (espaço de observação de aves), que é uma área com uma componente turística, tem associada um componente ambiental muito forte, onde temos uma zona de proteção do maçarico de bico direito, uma ave protegida internacionalmente e que encontra na Lezíria de Vila Franca condições favoráveis. Quanto à águia de Bonelli temos três ninhos ativos identificados, e a atividade que a companhia desenvolve não tem impactado minimamente com a sobrevivência da espécie.
Valor Local – No que diz respeito à vertente do turismo, a Companhia das Lezírias é bastante procurada na sua vertente de turismo natureza e turismo equestre, ou ainda há passos que têm de ser dados neste sentido?
Eduardo Oliveira e Sousa – Há muitos passos a serem dados, porque o turismo é uma indústria como é conhecida, mas que necessita de ser profissionalizada. Vamos intensificar a especialização no turismo, seja ele de natureza, de alojamento, ou associado, por exemplo, à observação de aves, como é o caso do Evoa. Já no caso do turismo equestre, estamos a desenvolver na Coudelaria de Alter, programas para visitantes para verem como a coudelaria trabalha. Isso faz parte do turismo equestre. Aqui na Companhia das Lezírias, em Samora Correia, o turismo equestre não tem tido essa vertente tão intensa, mas é uma das áreas que pretendemos fazer crescer, eventualmente até em parceria com um parceiro exterior.
Valor Local – Portanto, a Companhia gostaria de beneficiar do boom turístico que, por exemplo, Lisboa está a receber, estando aqui a tão poucos quilómetros?
Eduardo Oliveira e Sousa – Isso já acontece, por exemplo, na questão da visitação da charneca, do enoturismo, com turistas que vêm à Companhia fazer uma prova de vinhos, ou visitar uma adega. E agora com a decisão de se construir o futuro novo aeroporto de Lisboa em territórios muito aproximados da companhia, praticamente encostado, há todo um desenvolvimento que vai acontecer e não podemos ficar, de maneira nenhuma fora dele.
Valor Local – Por outro lado, temos esta realidade da escassez de mão de obra que também continua a afetar a agricultura em Portugal, sente dificuldades em recrutar agricultores mais ou menos qualificados para as vossas atividades?
Eduardo Oliveira e Sousa – Muitíssimo. O problema da mão de obra é muito difícil de resolver, impacta com a forma como se trabalha no campo e temos uma uma dificuldade muito grande, por exemplo, em encontrar profissionais para determinadas áreas. Por outro lado, por sermos uma empresa do setor empresarial do Estado, temos dificuldades em entrar no nível salarial que esses trabalhadores, que são escassos, exigem para poderem integrar uma empresa com as nossas características
Valor Local – Quantos trabalhadores agrícolas trabalham aqui normalmente?
Eduardo Oliveira e Sousa – A Companhia das Lezírias contrata serviços, por isso não tem trabalhadores agrícolas tradicionais, com exceção dos que estão associados à gestão da pecuária. Temos campinos, manajeiros de gado, tratadores, mas já não temos como antes aquela figura do tratorista e do trabalhador do campo permanentes, que atualmente passaram a ser, especialmente, contratados através do modelo de prestação de serviços. Mesmo esses prestadores têm dificuldades em arranjar trabalhadores. Atualmente temos 3 tratoristas, numa casa que já teve centenas.
Valor Local – A vossa mão de obra é especialmente oriunda de população imigrante, como estamos habituados a ver?
Eduardo Oliveira e Sousa – Não temos praticamente trabalhadores imigrantes, os que existem são oriundos das empresas que nos prestam os serviços. Na altura da poda na vinha há, por outro lado, muitos trabalhadores estrangeiros. Na área da extração da cortiça, são muito poucos os estrangeiros, porque é um trabalho muito específico, muito tradicional, com uma transmissão de conhecimentos ainda muito relacionada com a passagem de gerações, tios que ensinam sobrinhos, pais que ensinam filhos, avós que ensinam netos, e isso não está ainda a verificar-se.

Valor Local – A Companhia também trabalha em parceria com universidades, centros de investigação e outras entidades para desenvolver novos projetos?
Eduardo Oliveira e Sousa – Temos variadíssimas ações colaborativas com a Universidade de Évora, com o Instituto de Engenharia. Recebemos alunos, e desenvolvemos projetos em conjunto com eles. Por exemplo, foi feito um projeto de investigação na área dos sobreiros regados, que precisa de tempo e isso só uma empresa com as características da Companhia das Lezírias, ou outras empresas maiores, é que consegue colocar em prática esse tipo de protocolos. Os jovens que abraçam a agronomia e a agricultura, hoje, fazem-no agarrados ao conhecimento de uma forma diferente do que era no meu tempo. Então esta novidade agora da inteligência artificial traz-nos uma realidade completamente distinta e os jovens têm uma apetência por esse tipo de ferramentas. Veja a quantidade de jovens que estão hoje a fazer belíssimos vinhos, ou a implementar técnicas diferentes na fruta. O mundo não pára, a vida não pára, a tecnologia não pára e isso é o mundo dos jovens, e por isso eu tenho esperança que até mesmo dentro da própria Companhia das Lezírias haja renovação geracional e que a casa se vá adaptando aos novos tempos.
Valor Local – Sendo uma empresa pública considera que é uma vantagem ou também há limitações neste modelo de gestão, na sua opinião?
Eduardo Oliveira e Sousa – Há muitas limitações. O facto de ser uma empresa pública transporta para o nível da decisão dificuldades muito acrescidas. Impacta muito na questão de termos de ser céleres numa decisão e não podermos porque temos de estar seguros de que aquele procedimento está dentro da forma de gerir as empresas no setor empresarial do Estado. Na minha ótica, é mais uma dificuldade do que um benefício.
Valor Local – Portanto, torna os processos mais demorados…
Eduardo Oliveira e Sousa – Mais demorados e mais complexos, e isso tem consequências. Por exemplo, se quisermos fazer um investimento ou alterar uma cultura, existe toda uma burocracia associada que acaba por adiar as decisões, muitas vezes para o ano seguinte. Um investimento tem de ser programado com grande antecedência. Por vezes surge uma oportunidade que gostaríamos de aproveitar, mas acabamos por não o conseguir fazer no momento certo e somos obrigados a adiar. Isso pode significar, perder uma ocasião ou uma oportunidade de negócio. Depois há ainda a questão da contratação de pessoal. Estamos, de certa forma, sujeitos a regras semelhantes às do funcionalismo público, o que limita a nossa capacidade de contratar com a flexibilidade e rapidez de que uma empresa necessita.
Valor Local – A Coudelaria continua a ser uma das grandes referências do cavalo Puro-Sangue Lusitano. Como é que este setor está atualmente e quais são os principais desafios e objetivos? Reparei também que o relatório de contas refere a venda de apenas dois cavalos em 2025, um número bastante inferior ao do ano anterior. O que explica essa quebra?
Eduardo Oliveira e Sousa – Esse número corresponde à venda em leilão num determinado dia. Todos os animais que vão a leilão continuam em venda nos dias seguintes. Posso dizer-lhe que se venderam dois naquele dia, mas neste momento já devemos ter mais de 20 vendidos. Mas não deixa de ser um mercado difícil. Mas temos tido alguns animais a serem vendidos já com algum ensino, com valores apetecíveis e estamos a estudar também formas de entrar numa espécie de parceria, conforme falei também na parte do turismo, para ver se beneficiamos do ensino trazido para os nossos animais, feito de uma forma diferente, para os tentar valorizar ainda mais.
Valor Local – Faltam 10 anos para o bicentenário da Companhia das Lezírias. É um marco histórico.
Eduardo Oliveira e Sousa – É com certeza. A Companhia das Lezírias é uma empresa que teve variadíssimas evoluções ao longo deste já longo período da sua existência, mas que sofreu também um processo dinâmico, ela já teve praticamente o dobro da área que tem hoje, será bom que não se pense em reduzir a área atual. É a minha opinião pessoal, e pode ser uma montra e um exemplo da importância que o setor agroflorestal tem e também um exemplo e uma montra daquilo que se deve promover e fazer no sentido de manter a biodiversidade, a sustentabilidade ambiental, a produtividade, a inclusão e a introdução de novas tecnologias, a rentabilidade. A Companhia tem uma área muito expressiva arrendada a rendeiros especialistas, eles próprios têm de ser merecedores do nosso reconhecimento, têm que ganhar dinheiro para poderem pagar as rendas que pagam à Companhia, porque a Companhia é uma empresa, e como empresa que é, tem de ter resultados e tem tido resultados positivos ao longo dos anos, o Estado beneficia deles, Mas também tem uma responsabilidade, resumida na complexidade de assuntos que estivemos aqui a abordar.
Valor Local – Gostaria que deixasse também uma mensagem aos agricultores portugueses sobre a sua visão sobre o futuro da agricultura nacional.
Eduardo Oliveira e Sousa – Essa é uma pergunta para um milhão de dólares, como se costuma dizer. Não sou visionário nem futurologista. Mas uma certeza tenho: a agricultura não para. Aliás, foi um lema que utilizei durante a pandemia, quando presidia à CAP. A agricultura foi dos poucos setores que nunca parou, porque no dia em que a agricultura parar deixam de existir alimentos.
Há um dado que gosto de recordar: em cada 100 pessoas, cerca de 95 não trabalham na agricultura, mas dependem dela todos os dias. No fundo, são cinco pessoas que alimentam as outras 95.
Valor Local – Dá que pensar. É um setor de que muitas vezes as pessoas se esquecem.
Eduardo Oliveira e Sousa – Completamente. E, no entanto, beneficiam dele todos os dias. Ao fim de semana vão passear ao campo, apreciam as paisagens agrícolas, mas muitas vezes reconhecem pouco valor ao trabalho dos agricultores. Acho que isso é uma grande injustiça e não me canso de o dizer.
Valor Local – Na sua opinião, é cada vez mais difícil para o agricultor manter o entusiasmo para continuar a produzir, tendo em conta tantas incertezas do mercado?
Eduardo Oliveira e Sousa – É muito difícil. Veja o que está a acontecer com as oscilações do preço dos combustíveis. Como pode um agricultor saber se vai ter lucro com uma cultura que já está instalada e que terá de levar até ao fim? Pode fazer as contas hoje e perceber que, se os custos continuarem a subir, dentro de uma semana já estará a produzir com prejuízo. Perante esta incerteza, como pode olhar para o futuro? E, mais importante ainda, como pode convencer a geração seguinte a continuar esse trabalho? É por isso que digo que a agricultura tem de ser rentável. Devemos apoiar os pequenos agricultores, naturalmente, mas uma exploração agrícola só é sustentável se gerar rendimento.Sem rentabilidade, a agricultura passa a ser uma atividade de lazer, um passatempo ou uma forma de subsistência, algo que já não corresponde à realidade. Hoje, a esmagadora maioria das pessoas não produz os seus próprios alimentos. Há quem seja médico, engenheiro, mecânico ou serralheiro, mas todos dependem de alguém que continue a cultivar a terra. A economia só funciona porque há agricultores a produzir alimentos, de que todos precisamos, pelo menos, três vezes por dia.
Eduardo Oliveira e Sousa alerta para perda de competitividade da agricultura europeia
Questionado sobre a atual Política Agrícola Comum (PAC), Eduardo Oliveira e Sousa considera que a União Europeia enfrenta um momento decisivo quanto ao futuro da agricultura, defendendo que as sucessivas reformas introduziram um conjunto de exigências que acabaram por limitar excessivamente a atividade dos produtores.
Na sua perspetiva, Bruxelas procurou responder às preocupações ambientais através da imposição de regras cada vez mais restritivas, mas acabou por criar um modelo difícil de sustentar do ponto de vista económico. O presidente da Companhia das Lezírias entende que a própria designação de “agricultura verde” contribuiu para transmitir uma imagem errada junto da opinião pública, ao sugerir que os agricultores europeus não desenvolviam já práticas ambientalmente responsáveis. Considera que essa narrativa foi injusta para o setor e que acabou por fragilizar a posição dos produtores, enquanto aumentava a carga burocrática e regulamentar.
Eduardo Oliveira e Sousa alerta ainda para aquilo que considera serem incoerências da política comunitária, lembrando que a União Europeia proíbe a utilização de determinados produtos fitofarmacêuticos aos agricultores europeus, mas continua a permitir a importação de alimentos provenientes de países onde essas substâncias continuam autorizadas.
Na sua opinião, esta situação coloca os produtores europeus em clara desvantagem competitiva e pode contribuir para um aumento da dependência externa no abastecimento alimentar. Defende, por isso, que a sustentabilidade ambiental deve continuar a ser uma prioridade, mas acompanhada por políticas que garantam a viabilidade económica das explorações agrícolas e preservem a capacidade produtiva da Europa num contexto internacional cada vez mais exigente.
Eduardo Oliveira e Sousa considera ainda que a União Europeia tem vindo a adotar um modelo agrícola cada vez mais fechado sobre si próprio, impondo aos produtores europeus um conjunto de exigências que, na sua opinião, não encontram paralelo na maioria dos mercados internacionais. Defende que essa estratégia acaba por isolar a Europa e reduzir a competitividade da agricultura europeia, numa altura em que a procura mundial por alimentos continua a aumentar. O presidente da Companhia das Lezírias sustenta ainda que o setor agroalimentar deve ter maior peso nas decisões políticas europeias, lembrando que organizações como a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) têm alertado para a necessidade de conciliar sustentabilidade, segurança alimentar e viabilidade económica.

“Hoje entrar num trator moderno é quase como entrar numa nave espacial”
Valor Local – A agricultura mudou profundamente nas últimas décadas. Quem olha de fora continua muitas vezes a imaginar um trabalho muito manual, mas essa realidade já não corresponde ao que se passa no terreno?
Eduardo Oliveira e Sousa – Mudou completamente. Hoje praticamente todas as operações agrícolas são mecanizadas e altamente especializadas. Se entrar num trator moderno, quase aposto que não consegue sequer colocá-lo a trabalhar. Entrar numa cabine de um trator moderno ou numa nave espacial é parecido. Atualmente, o operador trabalha com joysticks, computadores de bordo e sistemas que permitem introduzir dados, fazer leituras em tempo real e até dar ordens para que o próprio trator execute determinadas operações de forma autónoma. A agricultura moderna exige cada vez mais conhecimento técnico e domínio da tecnologia, muito diferente da imagem tradicional que ainda existe do trabalho no campo.




