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Uma noite no Vila Franca Centro, onde o tempo ficou parado

Para percebermos de onde vimos, mas sobretudo para tentarmos compreender o que poderá nascer ali no futuro, revisitámos nesta edição os quase 13 anos de abandono do Vila Franca Centro e ouvimos as diferentes visões políticas para o edifício. O presidente da Câmara, Fernando Paulo Ferreira, e os vereadores Barreira Soares, do Chega, e David Pato Ferreira, da Nova Geração, dizem ao Valor Local o que defendem para aquele espaço e até onde acreditam que poderá avançar uma solução durante este mandato, mas também descrevemos uma das mais recentes incursões ao interior do espaço por um grupo de viajantes estrangeiros.

Esperaram pela noite para entrar. Não por qualquer encanto especial em explorar às escuras um centro comercial abandonado, mas porque o Vila Franca Centro está num dos pontos mais movimentados de Vila Franca de Xira. À sua volta, a cidade nunca chega verdadeiramente a parar e dois homens com lanternas junto ao edifício dificilmente passariam despercebidos.

Tinham sido avisados. Segundo contam no início do vídeo, várias pessoas lhes garantiram que explorar o antigo centro comercial seria praticamente impossível. O edifício estava fechado e qualquer tentativa de aproximação poderia despertar atenções. Um dos exploradores explica que há pessoas à volta praticamente 24 horas por dia e que alguém poderia chamar a polícia se os visse a tentar entrar.

Foi por isso que 2swag e Urbex Ashton prepararam comida, água e um plano: entrar por volta das duas da manhã, desaparecer durante algumas horas dentro daquele enorme bloco no centro da cidade e esperar pelo nascer do sol para poderem finalmente perceber, com alguma luz, aquilo que quase 13 anos de abandono tinham feito ao Vila Franca Centro. Esta incursão destes dois estrangeiros no edifício aconteceu recentemente.

A expediçáo de 2swag e Urbex Ashton

Para quem passou por ali durante os anos 90 e 2000, as imagens são uma viagem ao passado. Para eles, eram uma descoberta. Os dois estrangeiros nunca tinham passeado por aqueles corredores quando as montras estavam iluminadas. Não tinham ido aos cinemas, nem ao bowling, não tinham comprado discos, roupa ou doces nas lojas que agora procuravam identificar à luz das lanternas. Chegaram a Vila Franca atraídos precisamente pelo contrário: pelo mistério de um centro comercial que fechou em 2013 e que, apesar de estar rodeado diariamente por milhares de pessoas, parece ter ficado suspenso no tempo.

A determinada altura, 2swag confessa que queria entrar ali há anos e descreve como “surreal” ter finalmente diante dos olhos um lugar que durante tanto tempo desejara conhecer. Às duas e meia da madrugada ainda tinham muitas horas pela frente e preparavam-se, como dizem no vídeo, para simplesmente “passar a noite” dentro do centro comercial. De repente é como se o Vila Franca Centro passasse a constar deste turismo acidental dos escombros, um ponto turístico para aventureiros de qualquer parte do mundo.

As primeiras imagens mostram um Vila Franca Centro mergulhado numa escuridão quase absoluta. As lanternas percorrem corredores, montras, escadas rolantes imóveis e antigas lojas. Há manequins partidos, restos de cabelos de manequins misturados com lixo, decorações de Natal, vidros e objetos espalhados pelo chão. Cada ruído ecoa pelo edifício e a luz é uma preocupação permanente: junto das zonas envidraçadas, receiam que as lanternas denunciem a sua presença a quem passa na rua.

À medida que sobem, o cenário degrada-se. Partes do teto caíram, a água entrou durante anos e há zonas cobertas de bolor. Numa delas, ficam surpreendidos com fungos que crescem do chão e comparam o cenário com o universo pós-apocalíptico de The Last of Us. O ar também começa a preocupá-los. Perante uma divisão particularmente afetada, reconhecem que estão a respirar tudo aquilo e optam por não avançar.

Os pombos são outra presença constante. Apropriaram-se de pisos inteiros, voam sobre as cabeças dos exploradores, surgem pousados nas estruturas superiores e deixaram extensas zonas cobertas de dejetos. Em alguns momentos, os dois avançam com dificuldade entre a sujidade; noutros são surpreendidos pelo voo repentino das aves. Encontram também pássaros mortos. O antigo centro comercial transformou-se, em alguns dos seus espaços, num gigantesco abrigo para uma população de aves que ali vive praticamente sem contacto com a cidade que continua do lado de fora.

É no meio dessa degradação que aparecem algumas das imagens mais inesperadas da exploração. Espalhadas pelo chão encontram fotografias que nada têm de promocional: são retratos de pessoas, famílias e crianças. Algumas têm datas. Ao pegar numa fotografia de 2003, um dos jovens nota que a imagem é anterior ao seu próprio nascimento. Noutras parece surgir repetidamente a mesma mulher e, depois de brincarem durante alguns segundos com a expressão séria da desconhecida, um deles acaba por desejar que ela esteja hoje melhor.

Mais tarde percebem de onde poderão ter vindo muitas daquelas imagens. Numa antiga Fuji Image Service ainda existem equipamentos, impressões e fotografias espalhadas. Algumas estão profundamente degradadas pela humidade e pelo bolor, enquanto outras continuam reconhecíveis. É então que um dos exploradores estabelece a ligação e conclui que as fotografias encontradas anteriormente poderão ter saído daquela loja. Olhando para o chão coberto de imagens, acredita estar perante fotografias que pessoas mandaram revelar e que nunca chegaram a levar consigo.

Para dois estrangeiros são rostos anónimos encontrados numa ruína portuguesa. Para Vila Franca de Xira podem ser outra coisa. Entre aquelas fotografias poderá estar uma criança hoje adulta, um familiar, um vizinho ou simplesmente alguém que ainda se lembre do dia em que entrou naquela loja para revelar um rolo. É talvez nesse momento que o vídeo deixa de ser apenas a exploração de um edifício abandonado e se transforma, involuntariamente, numa visita às memórias privadas de quem o frequentou.

Noutra antiga loja, os objetos contam uma história menos íntima, mas igualmente presa a uma época. Nas paredes permanecem imagens de artistas como Shakira, M.I.A., Backstreet Boys e outros nomes da música dos anos 2000. Há ainda CDs, cartazes e expositores. Os visitantes surpreendem-se ao reconhecer num centro comercial português muitos dos mesmos artistas que ouviam nos Estados Unidos e consideram aquele espaço relativamente preservado quando comparado com grande parte do que já atravessaram. Por instantes, aqueles cartazes devolvem cor e referências conhecidas a corredores onde quase tudo o resto se tornou cinzento.

A surpresa é diferente quando encontram aquilo que identificam como uma antiga ótica. Apesar dos anos de abandono, permanecem no interior cadeiras, lentes, produtos, aparelhos de exame e cartazes sobre miopia, cataratas, glaucoma e estrabismo. Os dois ficam perplexos com a quantidade de equipamento especializado deixado para trás e começam, com evidente desconhecimento sobre a função de algumas máquinas, a experimentar os aparelhos. Um deles ainda se movimenta, levando-os a questionar como é possível que equipamento aparentemente tão valioso continue naquele lugar tantos anos depois.

Há muitos outros vestígios ao longo da exploração — computadores, documentos, mobiliário, antigas montras, decorações de Natal e equipamentos de negócios que desapareceram — mas é um objeto aparentemente banal que acaba por estabelecer a ligação mais direta com o último dia do Vila Franca Centro.

Numa antiga Western Union permanece uma tabela de câmbios. Os exploradores começam por observar as moedas e comparar os valores daquele tempo com os atuais. Até que um deles repara numa data inscrita no quadro: 31 de outubro de 2013. É precisamente o dia em que o Vila Franca Centro encerrou definitivamente.

A tabela, provavelmente atualizada durante uma jornada de trabalho como tantas outras, ficou ali. Quase 13 anos depois, dois estrangeiros encontram-na exatamente como uma espécie de relógio parado no último dia de vida do centro comercial.

Nem todas as descobertas correspondem àquilo que esperavam encontrar. Os exploradores tinham visto na Internet fotografias antigas do interior e procuravam elementos que, entretanto, desapareceram ou foram destruídos. Um deles era uma figura decorativa que aparentemente se tornara conhecida entre quem seguia imagens do centro abandonado. Quando finalmente chegam ao local, encontram apenas partes da figura. 2swag lamenta o desaparecimento, explicando que aquele era precisamente um dos motivos por que queria conhecer o Vila Franca Centro e que ambos tinham estado à sua procura.

Também tentam encontrar os antigos cinemas, embora algumas das zonas que identificam estejam profundamente alteradas ou destruídas. Continuam a subir e, quanto mais próximos ficam dos pisos superiores, maior é a presença dos pombos e maior o risco de a luz das lanternas ser vista do exterior. Ainda faltam cerca de duas horas e meia para o nascer do sol quando decidem procurar uma saída para a cobertura.

A subida transforma-se numa sucessão de aves assustadas, voos repentinos e avisos para terem cuidado. Há pombos pousados praticamente por todo o lado. Quando finalmente chegam ao exterior, Vila Franca de Xira está diante deles. À volta daquele enorme edifício abandonado há casas, ruas, comércio e pessoas. Vêem alguém passar e baixam-se para não serem notados.

Decidem ficar no telhado até amanhecer. Das mochilas saem bolachas de Nutella, salada, salame, pimentos e água. Depois de horas a caminhar por corredores escuros, sentam-se no topo do antigo centro comercial e fazem uma pequena refeição enquanto esperam que a luz lhes permita continuar a exploração.

Pouco a pouco, a noite desaparece. A cidade começa a ganhar luz e aquilo que até então existira apenas dentro do pequeno círculo das lanternas revela finalmente a sua verdadeira dimensão. Um dos exploradores fica surpreendido: o Vila Franca Centro é ainda maior do que lhe parecera durante a noite. Do lado de fora começa outro movimento. “Toda a gente está a acordar e nós estamos aqui neste centro comercial”, observa.

Talvez seja essa a imagem mais poderosa de toda a exploração. Durante horas esconderam-se dentro de um edifício onde milhares de pessoas entraram livremente durante quase duas décadas. Agora assistem ao nascer do dia a partir de um lugar que Vila Franca vê diariamente por fora, mas que quase ninguém vê por dentro.

Um dos restaurantes que existia está agora com este aspeto

Com a manhã chegam ao antigo espaço de restauração. Os menus continuam afixados e param para observar os preços de 2013, surpreendendo-se com refeições por cerca de cinco euros e outros produtos por dois. Num antigo espaço da Segafredo permanece equipamento de café, pratos e utensílios. Noutro restaurante continuam menus nas paredes. São mais pequenos sinais de um quotidiano interrompido, agora finalmente visíveis sem a luz das lanternas.

Mas a chegada do dia também muda completamente a situação dos dois visitantes. Agora o problema já não é entrar. É sair. Quanto mais o sol sobe, mais pessoas aparecem nas ruas. Ainda conseguem chegar a uma das maiores divisões de toda a exploração. O espaço é gigantesco, revestido com material de isolamento acústico e com uma enorme estrutura superior. A dimensão impressiona-os e acreditam estar finalmente perante uma das antigas salas de cinema. Nem a iluminação que levam consegue mostrar todo o espaço de uma só vez.

O dia está, porém, definitivamente a nascer e as ruas começam a encher-se. Decidem que é altura de abandonar o edifício, em vez de ficarem presos no interior durante mais 12 horas à espera de uma nova noite. Juntam as mochilas e partem.

Não mostram no vídeo por onde saíram, uma decisão deliberada para não revelar o acesso ao edifício, mas contam que, já no exterior, terão sido vistos por cerca de 30 pessoas. Depois de uma noite inteira dentro do Vila Franca Centro, 2swag descreve-o como um dos lugares mais “loucos e apocalípticos” que alguma vez explorou. Mas talvez seja outra frase que melhor explique por que razão dois estrangeiros atravessaram parte de Portugal para passar uma madrugada entre pó, bolor, pombos e restos de lojas fechadas há quase 13 anos: queria conhecer aquele lugar há muito tempo e, quando finalmente conseguiu fazê-lo, diz ter sido “um sonho”.

Para eles, aquela noite foi a descoberta de uma ruína que durante anos parecia inacessível. Para Vila Franca de Xira, as imagens mostram outra coisa. Por detrás das paredes de um edifício que a cidade se habituou a ver fechado continuam espalhados restos de milhares de dias em que esteve aberto: fotografias que alguém não foi buscar, aparelhos que ninguém retirou, cartazes de músicos que marcaram uma geração, menus com preços de 2013, documentos, decorações de Natal e uma tabela de câmbios parada precisamente em 31 de outubro de 2013.

Isoladamente, são apenas objetos abandonados. Juntos, quase 13 anos depois, ajudam a reconstruir a memória de um lugar que fechou as portas, mas nunca chegou verdadeiramente a desaparecer da paisagem de Vila Franca de Xira.

Fernando Paulo Ferreira: “Nunca estivemos tão perto de uma solução” para o Vila Franca Centro

Quase 13 anos depois do encerramento do Vila Franca Centro, Fernando Paulo Ferreira acredita que o atual mandato poderá finalmente trazer uma solução para o edifício. O presidente da Câmara de Vila Franca de Xira assume como expectativa que até 2029 existam avanços concretos e garante que “nunca estivemos tão perto de uma solução”, embora ainda não exista projeto ou calendário conhecido para o início das obras.

O principal desenvolvimento está neste momento nas mãos do condomínio. Segundo o autarca, a concentração de mais de metade das frações numa única entidade permitiu realizar uma assembleia de condóminos, na qual foi decidido avançar com um levantamento geral ao estado do edifício. Esse diagnóstico deverá servir de base às próximas decisões e permitir tomar “decisões prementes de intervenção”.

A concentração da propriedade foi um dos objetivos da estratégia municipal. Em 2024, a Câmara avançou com uma isenção temporária de IMT destinada a facilitar operações em centros comerciais degradados. Fernando Paulo Ferreira considera que o instrumento produziu resultados, permitindo desencadear transferências de propriedade. Não revela a percentagem atualmente concentrada, confirmando apenas que mais de metade das frações pertence à mesma entidade.

Também não existe ainda qualquer projeto concreto de reconversão, pedido de informação prévia ou proposta formal conhecida do investidor. O presidente aponta como etapa em curso o levantamento ao imóvel, promovido pelo condomínio através do principal proprietário, após o qual deverão ser decididas as intervenções necessárias.

Quanto ao futuro, mantém a utilização mista que já defendia em 2025, conjugando comércio, habitação, serviços e estacionamento, com particular destaque para a componente habitacional. “Uma utilização mista do edifício é efetivamente a mais adequada para a cidade, designadamente com soluções de arrendamento para habitação, que tragam mais pessoas, e jovens em particular, para o centro da cidade de Vila Franca de Xira.”

Fernando Paulo Ferreira continua a rejeitar a transferência generalizada dos serviços municipais para o Vila Franca Centro. A possibilidade de instalar uma Loja do Cidadão não representa, garante, uma mudança de posição. “Nada mudou, continuamos com a mesma ideia.” Num imóvel reabilitado, considera que esse equipamento poderia reforçar a centralidade da zona.

Menos concretas são as respostas sobre as condições atuais do interior. Perante imagens de tetos degradados, infiltrações, bolor, pombos e dejetos, além de equipamentos e documentação deixados em antigas lojas, o presidente afirma que “a Câmara Municipal continua a monitorizar a situação do edifício, e a incentivar a sua resolução, com ganhos para a cidade”. Não indica, contudo, quando ocorreu a última vistoria municipal nem identifica riscos específicos atualmente sinalizados.

Quanto às entradas não autorizadas, refere que o imóvel está vedado e que a Câmara acompanha visitas técnicas sempre que necessário, realizando também intervenções urgentes para garantir a segurança da via pública.

Questionado sobre se o município poderia ter atuado de outra forma ao longo de quase 13 anos de encerramento, Fernando Paulo Ferreira sublinha a natureza privada do imóvel. “O edifício é privado. Apenas no mandato passado foi possível dinamizar o processo em que agora estamos, e que esperamos venha a resolver a situação, que, aliás, não foi a Câmara Municipal a criar.”

É na existência de um proprietário maioritário, na assembleia de condomínio e no levantamento técnico em curso que o presidente sustenta agora o seu otimismo. Ainda não existe calendário público para as obras ou data para uma eventual reabertura, mas Fernando Paulo Ferreira acredita que os vilafranquenses poderão assistir a avanços até 2029.

“A expetativa é essa. Nunca estivemos tão perto de uma solução, e tudo faremos para que ela se concretize.”

David Pato Ferreira acredita que será a Nova Geração a resolver Vila Franca Centro em 2029

David Pato Ferreira não acredita que o problema do Vila Franca Centro seja resolvido durante o atual mandato e antecipa que caberá a um futuro executivo liderado pela Nova Geração encontrar uma solução a partir de 2029. “Gostava de estar enganado, mas não me parece que se vá avançar ou resolver nada durante este mandato, e teremos que ser nós a finalmente resolver a partir de 2029”, afirma.

Apesar de continuar a defender uma intervenção direta do município, admite que uma solução predominantemente privada, como a preconizada pelo presidente da Câmara, Fernando Paulo Ferreira, será preferível à manutenção do abandono. “Mas se essa for a solução, ainda que não seja a nossa, é melhor que o estado atual, e portanto que se avance e resolva.”

A Nova Geração mantém a proposta de aquisição do edifício pelo município para concentrar serviços camarários e outros serviços públicos, complementados por atividade comercial. David Pato Ferreira recorda que a solução foi apresentada em 2021 e critica o presidente por não ter exercido o direito de preferência quando o atual investidor maioritário reforçou a sua posição. Segundo o vereador, o município poderia ter-se tornado proprietário maioritário “por menos de 800 mil euros”.

Recupera também as contas apresentadas na campanha de 2025, segundo as quais a centralização permitiria poupar cerca de 200 mil euros anuais em rendas. Reconhece que aquisição e reabilitação seriam operações complexas, mas considera-as exequíveis a médio prazo. “Quem atualmente lidera não sabe nem quer resolver”, acusa.

Apesar das divergências, garante que não bloqueará uma alternativa privada. Diz, contudo, desconhecer qualquer projeto que permita acreditar numa solução próxima, apesar de ter reunido com o proprietário maioritário há cerca de dois anos. “Não conhecemos nada que nos permita dizer que o problema se vai resolver. Arrisco dizer que vai ficar pior do que estava antes.”

Em junho, David Pato Ferreira entrou no Vila Franca Centro enquanto vereador, numa visita acompanhada por técnicos municipais. “A degradação é assustadora, e o problema de saúde pública ainda mais”, afirma, classificando o imóvel como “literalmente um cancro no centro da cidade de Vila Franca de Xira”. Encontrou “um cenário de destruição e vandalismo de larga dimensão” e admite que a degradação possa chegar a um ponto em que a demolição se torne inevitável.

A visita teve também uma dimensão pessoal. O vereador recorda ter sido feliz naquele centro comercial, desde o cinema e IMAX à restauração, e admite ter sido “doloroso” encontrar esses espaços abandonados.

A Nova Geração pretende agora fazer uma exposição ao Ministério do Ambiente, procurando pressão sobre o município e o envolvimento do Estado numa futura solução. David Pato Ferreira rejeita, porém, responsabilizar mais os pequenos proprietários, que continuam a pagar IMI.

Entre eles encontra-se uma empresa dos seus pais, proprietária de uma loja com cerca de oito metros quadrados. O vereador salienta que a fração não lhe pertence e que declarou publicamente essa ligação. Acrescenta que não votará futuras deliberações especificamente relacionadas com o Vila Franca Centro, “por proteção do interesse público e da minha idoneidade”.

Se pudesse decidir o futuro do edifício, manteria a proposta eleitoral da Nova Geração: serviços municipais nos pisos superiores, anfiteatros nas antigas salas de cinema, supermercado no piso zero, Loja do Cidadão e estacionamento. Os edifícios libertados pelos serviços camarários poderiam ser destinados a habitação jovem ou arrendamento. “Resolvemos o problema e rejuvenescemos a cidade”, resume.

Chega quer investimento privado no Vila Franca Centro e acusa PS de manter processo na “opacidade”

Para o vereador do Chega Barreira Soares, um dos problemas do edifício – a concentração da maioria das frações do Vila Franca Centro num único proprietário representa um avanço, mas não resolve, por si só, o problema. Continuam a existir outros proprietários e qualquer solução terá de acautelar os seus interesses. “Se os restantes proprietários não estiverem alinhados com este proprietário maioritário, de nada adianta existir um grande proprietário”, afirma.

O Chega votou favoravelmente as isenções fiscais aprovadas pelo município para facilitar a concentração da propriedade, opção que Barreira Soares continua a considerar “pragmática”. Segundo o vereador, o objetivo não foi beneficiar um investidor específico, mas criar condições para recuperar um edifício degradado no centro da cidade.

Barreira Soares critica, contudo, a atuação do executivo socialista, acusando-o de manter informação longe da oposição e dos munícipes e de privilegiar “negociações à porta fechada”. Recorda que, por insistência do Chega, avançou a auscultação dos proprietários, e refere a proposta municipal de aquisição do centro comercial por cerca de 666 mil euros, valor que ficou aquém das expectativas dos titulares das frações.

O vereador afirma ainda que o partido propôs estudos sobre o imóvel e a determinação do valor mínimo pelo qual cada proprietário aceitaria vender, procurando chegar a um montante global que pudesse servir de base a um leilão internacional. “Nada disso foi feito pelo executivo e nada mais sabemos”, critica.

Apesar do impasse, o Chega mantém a posição de que a Câmara não deve comprar o Vila Franca Centro. “A Câmara Municipal não é uma agência imobiliária nem deve gastar o dinheiro dos contribuintes a comprar edifícios privados”, sustenta. O município deve, na sua perspetiva, funcionar como “agente facilitador e regulador”, agilizando licenciamentos e procedimentos e garantindo o cumprimento das regras urbanísticas.

Barreira Soares rejeita também propostas para instalar ou centralizar serviços municipais no imóvel, considerando que isso transferiria para a autarquia parte significativa dos custos. “A tentação da esquerda e de outros sectores em querer ‘estatizar’ a solução não nos parece o caminho indicado”, afirma.

Para o Chega, o futuro deverá passar pelo investimento privado. O edifício poderá acolher comércio no piso térreo e habitação nos restantes, escritórios, uma unidade hoteleira ou um projeto misto. Mais do que impor uma utilização, Barreira Soares defende uma solução economicamente sustentável que volte a atrair pessoas ao centro da cidade.

“O essencial é que seja um espaço moderno, atrativo e autossustentável, movido pela força do investimento privado e que devolva centralidade e orgulho a Vila Franca de Xira”, conclui.

CDU insiste num papel direto da Câmara no futuro do Vila Franca Centro

A CDU defende uma intervenção direta do município no futuro do Vila Franca Centro, em vez de deixar a recuperação do antigo centro comercial essencialmente dependente do investimento privado. A proposta passa pela instalação de serviços públicos, comércio, espaços de utilização coletiva e pela abertura dos 188 lugares de estacionamento pertencentes à Câmara.

Cláudia Martins, vereadora da CDU, recorda que a proposta é anterior às eleições de 2025. Em novembro de 2022, durante a discussão do Orçamento Municipal para 2023, a CDU propôs a aquisição do Vila Franca Centro para centralizar serviços municipais e públicos e abrir o estacionamento à população. A ideia voltou a ser apresentada em 2023, tendo sido recusada por PS, PSD e Chega.

Segundo a vereadora, a concentração de serviços permitiria melhorar a articulação entre departamentos, dinamizar o centro da cidade e poupar mais de 100 mil euros anuais em rendas de instalações municipais dispersas.

Entretanto, um investidor privado concentrou uma parte significativa das frações. Cláudia Martins reconhece que o cenário mudou, mas considera que a Câmara não pode ficar dependente daquilo que o proprietário maioritário decidir, lembrando que o município também possui parte do complexo.

Entre o património municipal estão 188 lugares de estacionamento adquiridos em 2019 e que continuam encerrados. “Como se pode justificar cobrar pelo estacionamento no centro da cidade quando o próprio município mantém fechados 188 lugares que comprou precisamente para responder à falta de estacionamento?”, questiona.

A CDU mantém igualmente as críticas à isenção temporária de IMT criada para facilitar a aquisição e reconversão de centros comerciais degradados, medida contra a qual foi a única força política a votar. Para Cláudia Martins, embora formalmente mais abrangente, o principal destinatário era o Vila Franca Centro. “Foi um fato feito à medida do negócio que se perspetivava”, acusa.

A vereadora não ignora que o centro comercial foi inaugurado em 1994, durante uma gestão CDU, recordando que durante anos foi um importante polo comercial e de lazer e acolheu a primeira sala IMAX do país. “A gestão CDU se calhar pecou por estar à frente do seu tempo”, afirma. Contrapõe que o PS governa o município desde 1997 e que passaram já 13 anos desde o encerramento sem uma solução definitiva.

Para o futuro, a CDU afasta uma reconversão predominantemente habitacional. Apesar das carências existentes no concelho, Cláudia Martins considera que essa solução aumentaria a pressão sobre as principais artérias e não garantiria a revitalização económica. “Defendemos uma cidade vivida durante todo o dia e não apenas edifícios onde as pessoas chegam ao fim da tarde para dormir.”

A proposta passa, assim, por uma utilização multifuncional, conjugando serviços municipais e outros serviços públicos, comércio, estacionamento e espaços coletivos, com participação ativa da Câmara na definição do futuro do edifício.

“Daqui a cinco anos queremos que um vilafranquense olhe para aquele espaço e veja um espaço vivo: serviços, comércio, pessoas”, conclui Cláudia Martins.

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