Em Portugal, a tarde de 11 de setembro de 2001 começou como tantas outras. Havia quem estivesse a trabalhar, quem regressasse do almoço, quem tivesse a televisão ligada num café, numa loja, numa sala de espera ou em casa. Nas escolas, as aulas decorriam normalmente. Nas redações, preparavam-se os jornais e os noticiários do fim do dia. Nada fazia prever que, em poucos minutos, o mundo inteiro ficaria colado a um ecrã.
Foi assim que muitos portugueses viram as primeiras imagens: uma torre muito alta, em Nova Iorque, com uma enorme ferida de fumo. Às 13h46, hora de Portugal continental, um avião tinha embatido na Torre Norte do World Trade Center. A informação inicial falava de um acidente. Uma tragédia incompreensível, mas ainda aparentemente isolada.
Muita gente não percebeu logo a dimensão do que estava a acontecer. Alguns terão passado diante de uma televisão e seguido caminho. Outros ligaram a familiares ou comentaram, incrédulos, que um avião tinha atingido uma das Torres Gémeas. Mas, dezassete minutos depois, a dúvida desapareceu. Às 14h03, outro avião entrou na Torre Sul, em direto, diante das câmaras.
Já não era um acidente.
De repente, os cafés calaram-se. Nos locais de trabalho, houve quem deixasse o que estava a fazer para procurar uma televisão ou uma rádio. As chamadas telefónicas multiplicaram-se. “Estás a ver isto?” tornou-se uma das frases mais repetidas daquela tarde. Muitos pais lembram-se de ir buscar os filhos à escola com a sensação de que alguma coisa tinha mudado, mesmo sem saberem ainda exatamente o quê.
Em Nova Iorque, enquanto isso, a manhã começara de forma normal. Pessoas iam para o trabalho, tomavam o pequeno-almoço, entravam nos elevadores dos grandes edifícios de Manhattan ou atravessavam as ruas apressadas. Mas, enquanto milhares de vidas seguiam sem suspeitar do que estava para acontecer, preparava-se um dos maiores atentados da história contemporânea.
Na manhã de 11 de setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados por membros da organização terrorista Al-Qaeda. O primeiro atingiu a Torre Norte às 8h46 locais. O segundo embateu na Torre Sul às 9h03. Pouco depois, um terceiro avião atingiu o Pentágono, em Washington. Um quarto voo, cujos passageiros tentaram recuperar o controlo da situação, caiu num campo da Pensilvânia antes de alcançar o alvo previsto.
Naquela manhã, antes de seguirem para Boston, Mohamed Atta e Abdul Aziz al-Omari passaram pelo balcão da American Airlines no aeroporto de Portland, no Maine. O funcionário Michael Tuohey tratou do check-in. Anos mais tarde, recordaria a sensação estranha que Atta lhe deixara: parecia irritado, desconfortável, fora do lugar. Não havia, porém, nada concreto que pudesse justificar uma intervenção. Vinte e cinco anos depois, Tuohey continua a carregar a pergunta impossível: se tivesse seguido aquele pressentimento, poderia ter feito diferença? “Não sei se teria mudado alguma coisa”, disse. “Mas podia ter mudado algo.”
A cidade parou. E o mundo também.
Nas imagens que ainda hoje custam a ver, pessoas nas ruas olham para o céu, bombeiros e polícias avançam para o interior das torres, trabalhadores tentam descer dezenas de andares e famílias procuram notícias de quem estava lá dentro. A televisão transmitia tudo em direto, sem que ninguém conseguisse antecipar a dimensão da tragédia que ainda estava por acontecer.
Às 9h59 locais, a Torre Sul ruiu. Vinte e nove minutos depois, caiu a Torre Norte. O local onde se erguiam dois dos edifícios mais reconhecidos do mundo transformou-se numa nuvem imensa de fumo, poeira, ferro e escombros. Em Portugal, as imagens repetiam-se continuamente. E muitos recordam precisamente esse momento: a sensação de que aquilo não podia ser real.
Morreram quase três mil pessoas, de dezenas de nacionalidades. Entre elas estavam trabalhadores dos escritórios, funcionários de restaurantes e lojas, passageiros dos aviões, polícias, bombeiros e equipas de emergência. Muitos dos que subiram as escadas das torres para tentar salvar outras pessoas nunca voltaram a descer.
O 11 de setembro alterou profundamente o mundo. Mudou a segurança nos aeroportos, a política externa dos Estados Unidos, as guerras que se seguiram no Afeganistão e no Iraque, a forma como os países passaram a encarar o terrorismo e até a sensação de segurança de quem vivia longe dos grandes centros de poder.
As consequências também continuaram muito depois da queda das torres. Antes do 25.º aniversário, a Câmara de Nova Iorque disponibilizou mais de 170 mil páginas de documentos sobre a qualidade do ar e a resposta das autoridades após os ataques. A divulgação surgiu depois de anos de pressão de sobreviventes, familiares e associações que criticaram sucessivas administrações municipais por não terem sido transparentes sobre os riscos da poeira tóxica em Ground Zero. Os registos mostram que existiam preocupações internas que contrastavam com as garantias públicas de que o ar era seguro.
Mas, para quem o viveu à distância, em Portugal, ficou também uma memória muito pessoal. O sítio onde estava. A televisão onde viu as imagens. A pessoa a quem telefonou. O silêncio que se instalou numa sala, num café ou num local de trabalho. A certeza súbita de que o mundo podia mudar numa tarde aparentemente normal.
Passaram 25 anos. Nova Iorque reconstruiu o espaço, o World Trade Center ganhou novos edifícios e no local das antigas torres existe hoje um memorial com os nomes das vítimas. Mas a pergunta mantém-se viva para quem assistiu àquele dia: onde estava no 11 de setembro?
Porque há acontecimentos que deixam de pertencer apenas a um país. Tornam-se memória de uma geração inteira.




