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Tecnologia, água e jovens: a estratégia do Governo para a agricultura

Produzir mais, com menos recursos, responder às alterações climáticas, acelerar a inovação e garantir a rentabilidade das explorações agrícolas são alguns dos grandes desafios que marcarão o futuro da agricultura portuguesa. Num momento em que decorrem as negociações da próxima Política Agrícola Comum, o Valor Local reuniu três protagonistas do setor para uma reflexão alargada sobre o caminho que Portugal deverá seguir: o ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, o secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Luís Mira, e o presidente da Companhia das Lezírias, Eduardo Oliveira e Sousa

Valor Local – Olhando para a próxima década, que metas gostaria de ver cumpridas para que Portugal tenha uma agricultura mais resiliente, competitiva e preparada para o clima do futuro?

José Manuel Fernandes – Quero diminuir o nosso défice agroalimentar, atrair jovens para o setor, melhorar o rendimento do agricultor. Para isso, apostamos na simplificação, na modernização da agricultura, no reforço da produtividade, na previsibilidade e estabilidade, e em investimentos na água. Aliás, uma das 10 prioridades do governo é a estratégia “Água que une”. Para além do reforço da nossa segurança alimentar que significa desde logo “comida no prato” queremos produzir ainda melhor e criar mais valor. É essa visão que está a orientar o trabalho do Governo, em articulação com a próxima Política Agrícola Comum, para o período 2028-2034, e com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Sabemos que enfrentamos um contexto particularmente exigente. As alterações climáticas, a instabilidade dos mercados, o envelhecimento dos produtores e a dimensão de muitas explorações obrigam-nos a acelerar a transformação da agricultura portuguesa. Por isso, estamos a investir na inovação, na digitalização, na agricultura de precisão, na gestão do risco e na qualificação dos agricultores, criando condições para aumentar a produtividade e o rendimento das explorações. Temos igualmente de responder aos custos de produção e à dificuldade em atrair mão de obra. Isso passa por apoiar novas soluções tecnológicas, incentivar a robotização, melhorar as condições de trabalho e tornar o setor mais atrativo para os jovens. Ao mesmo tempo, queremos utilizar melhor a água, proteger os recursos naturais e promover sistemas de produção mais equilibrados. Mas esta transformação também exige menos burocracia, organizações de produtores mais fortes e apoios que cheguem aos agricultores de forma mais simples e mais rápida. É assim que construiremos uma agricultura capaz de gerar riqueza, fixar pessoas no território e responder aos desafios das próximas décadas.

Valor Local – Que papel pode ter a tecnologia — sensores, satélite, inteligência artificial, drones e agricultura de precisão na adaptação do setor agrícola ao novo clima?

José Manuel Fernandes – A tecnologia deixou de ser uma opção; é hoje uma condição para garantir o futuro da agricultura. Se queremos produzir mais com menos recursos, reduzir custos e responder a um contexto cada vez mais exigente, temos de acelerar a adoção de soluções digitais. Sensores, drones, imagens de satélite e inteligência artificial permitem conhecer melhor cada exploração e tomar decisões mais rápidas e mais informadas. Isso traduz-se numa utilização mais eficiente da água, dos fertilizantes e dos produtos fitossanitários, reduzindo desperdícios e aumentando a rentabilidade das explorações. Estas ferramentas são igualmente decisivas para apoiar a agricultura biológica, a produção integrada, sistemas de rega mais eficientes, a produção de energia renovável e a utilização de variedades mais adaptadas ao calor, à seca e a novas pragas. Portugal está a acompanhar esta evolução através do trabalho desenvolvido pelo INIAV e de projetos como o I-ReWater, Phos4Cycle, Smartfertilizers2Market, OlivarIA, OHVeNet, VineShield-DT, PURPEST, ENDOLEGUME e SHIELD4GRAPE, que aproximam a investigação das necessidades concretas dos agricultores. Mas há uma ideia que para mim é essencial: a tecnologia só faz sentido quando melhora a vida de quem produz. O nosso compromisso é garantir que o conhecimento chega ao terreno e que a inovação se traduz em melhores decisões, maior eficiência e mais rendimento para os agricultores.

Valor Local- Como pode o Governo apoiar pequenas e médias explorações na transição digital, sem que a modernização fique apenas ao alcance das grandes empresas agrícolas?

José Manuel Fernandes- Não queremos uma agricultura a duas velocidades. A inovação tem de estar ao alcance de todos, independentemente da dimensão da exploração. Sabemos que a maioria das explorações agrícolas portuguesas é de pequena ou muito pequena dimensão. É por isso que estamos a criar condições para que a transformação digital beneficie todo o setor, através do reforço da conectividade nas zonas rurais, da formação dos agricultores, da partilha de dados e da simplificação da gestão da Política Agrícola Comum. O PEPAC prevê um conjunto alargado de medidas para eliminar as principais barreiras à digitalização, desde o investimento em infraestruturas até à disponibilização de informação produzida pela Administração Pública, à redução da carga administrativa e a modelos de apoio mais ajustados às necessidades das explorações, incluindo o acesso a serviços especializados. Sabemos também que muitos investimentos só são viáveis se forem partilhados. Por isso, queremos reforçar o papel das Organizações de Produtores e de outras estruturas associativas, facilitando a utilização comum de equipamentos como drones e sensores, bem como o acesso à formação, ao aconselhamento técnico e à investigação aplicada. Foi também com esse objetivo que criámos o Conselho Consultivo para a Promoção da Digitalização da Agricultura. O nosso compromisso é simples: garantir que nenhum agricultor fica para trás e que a inovação chega a todo o território, criando mais valor, mais eficiência e melhores condições para quem trabalha a terra. Acresce que no domínio da conectividade, do digital, da agroindústria, os fundos da política de coesão têm a obrigação de estarem disponíveis. A agricultura é também coesão, competitividade, investigação e inovação.

Ministro refere que a estratégia Agua que Une é crucial para o país

Valor Local – A gestão eficiente da água é hoje uma das grandes prioridades da agricultura. Que investimentos considera essenciais em regadio, monitorização e reutilização de água?

José Manuel Fernandes- A água será um dos fatores mais determinantes para o futuro da agricultura portuguesa. Por isso, a nossa prioridade não é apenas garantir maior disponibilidade deste recurso, mas sobretudo utilizá-lo melhor, com mais eficiência, mais conhecimento e maior capacidade de antecipação.  É essa a lógica que está a orientar os investimentos na modernização dos aproveitamentos hidroagrícolas, na redução das perdas nas redes de regadio e na adoção de soluções tecnológicas que permitem uma gestão mais inteligente da água. Hoje já dispomos de sensores de humidade do solo, estações meteorológicas, imagens de satélite, tecnologia e plataformas de apoio à decisão com inteligência artificial que ajudam os agricultores a regar apenas quando é necessário, reduzindo consumos, custos e desperdícios. Ao mesmo tempo, temos de preparar o setor para uma nova realidade. A reutilização de água para rega, a criação de reservas estratégicas, a utilização de variedades mais adaptadas ao calor e à escassez hídrica e a valorização de práticas agrícolas mais eficientes fazem parte dessa resposta. A Estratégia Água que Une traduz esta visão. Assenta em três eixos — Eficiência, Resiliência e Inteligência — e integra 300 medidas, das quais 88 dirigidas ao setor agrícola, que têm um horizonte de 15 anos e já estão em curso. Esta estratégia promove a utilização inteligente da água para consumo humano, agricultura, reposição de caudais ecológicos e até para proteção civil.  A Companhia das Lezírias e a Lezíria do Tejo podem desempenhar um papel muito relevante neste processo. Pelas suas características, têm condições para testar novas soluções de gestão da água e demonstrar, no terreno, aquilo que depois poderá ser replicado noutras regiões do país.

Valor Local –  A Lezíria do Tejo é uma das principais regiões agrícolas do país. Que papel pode desempenhar como laboratório vivo para novas soluções tecnológicas e ambientais?

José Manuel Fernandes – A Lezíria do Tejo tem todas as condições para afirmar-se -ainda mais- como uma referência nacional na agricultura do futuro. A qualidade dos seus solos, a disponibilidade de água, a diversidade das produções e a forte ligação à investigação fazem desta região um espaço privilegiado para testar novas soluções em contexto real e acelerar a sua transferência para os agricultores. Uma das prioridades passa, aqui também, pela gestão inteligente da água. Numa região de regadio intensivo faz sentido apostar em sensores de humidade e salinidade, sistemas de rega inteligente, telemetria, modelos preditivos e imagens de satélite que permitam ajustar a rega às necessidades efetivas das culturas. Esta aposta ganha ainda maior importância perante os períodos de seca mais frequentes, a pressão sobre os caudais do Tejo e fenómenos como a intrusão da cunha salina, que afetam a qualidade da água e condicionam culturas particularmente sensíveis. Mas a Lezíria pode ir muito além da gestão da água. Reúne condições para liderar projetos de agricultura de precisão, testar práticas de agricultura regenerativa, promover soluções de economia circular e desenvolver novas formas de valorização dos subprodutos agrícolas, como a produção de biogás ou biocarvão. É da capacidade de trabalho de cooperação entre agricultores, associações de regantes, autarquias, universidades, centros de investigação e empresas tecnológicas que vão nascer as soluções de que a agricultura portuguesa precisa.

Valor Local – A Companhia das Lezírias, pela sua dimensão, histórica e diversidade produtiva, pode ser um ativo estratégico para testar modelos de agricultura mais sustentável e tecnologicamente avançada?

José Manuel Fernandes – Sem dúvida. A Companhia das Lezírias é um ativo estratégico para o país. Pela sua dimensão, diversidade produtiva — do vinho ao azeite, da pecuária à floresta — e pelo património natural que preserva, reúne condições únicas para testar novas soluções e acelerar a sua adoção pelo restante setor. Sendo uma empresa integralmente detida pelo Estado tem uma missão de interesse público. Mas é também uma empresa que compete no mercado e que tem de manter uma gestão sólida. É precisamente esse equilíbrio que lhe permite assumir projetos inovadores e investimentos que muitas explorações, pela sua dimensão, dificilmente conseguiriam desenvolver sozinhas. A Companhia das Lezírias tem demonstrado que é possível experimentar novas práticas em contexto real, avaliar resultados e colocar esse conhecimento ao serviço da agricultura portuguesa. Foi isso que aconteceu na conversão da vinha para o modo de produção biológico, que permitiu gerar experiência importante sobre esta transição, e também em projetos desenvolvidos com a Universidade de Évora, como a rega de sobreiros para aumentar a rentabilidade do montado. A estes exemplos juntam-se iniciativas ligadas à inteligência artificial aplicada à gestão da vinha, à utilização de coleiras eletrónicas na produção pecuária e à gestão da rega com recurso a imagens de satélite. É este o papel que vejo para a Companhia das Lezírias: continuar a ser uma plataforma de inovação, onde novas soluções são testadas, validadas e depois colocadas ao serviço dos agricultores, contribuindo para uma agricultura mais eficiente, mais preparada e capaz de criar mais valor.

José Manuel Fernandes define os principais objetivos da agricultura portuguesa para o futuro

Valor Local –  Como conciliar produtividade, sustentabilidade ambiental e proteção dos solos agrícolas numa região cada vez mais pressionada por alterações climáticas, logística e expansão urbana?

Estou convicto de que não temos de escolher entre produzir mais e proteger os recursos naturais. O verdadeiro desafio é criar mais valor, preservando aquilo que garante o futuro da agricultura: o solo, a água e a biodiversidade. Sabemos que o território está hoje sujeito a novas pressões. Às alterações clima climáticas juntam-se a expansão urbana, o crescimento das infraestruturas logísticas e a necessidade de assegurar espaço para diferentes atividades económicas. É precisamente por isso que o ordenamento do território tem de continuar a proteger os solos com maior aptidão agrícola e a garantir um equilíbrio entre desenvolvimento e preservação dos recursos. Ao mesmo tempo, temos de dar aos agricultores as ferramentas para produzirem melhor. Isso significa conhecimento e promover práticas de conservação do solo, sistemas agroflorestais, agricultura regenerativa, produção integrada e agricultura biológica, sempre apoiadas pelo conhecimento, pela inovação e por uma utilização cada vez mais eficiente da água. A tecnologia também desempenha aqui um papel decisivo. A monitorização remota, a inteligência artificial e a agricultura de precisão permitem conhecer melhor cada exploração, otimizar os fatores de produção e responder mais rapidamente a fenómenos extremos, aumentando a capacidade de adaptação das explorações. Há uma ideia que para mim é fundamental: proteger os solos agrícolas não é travar o desenvolvimento; é garantir que Portugal continua a ter capacidade para produzir alimentos, criar riqueza e valorizar o mundo rural. É essa visão que orienta a nossa ação e que continuará a orientar as políticas públicas para o setor.

Valor Local –  Que perfil terá o agricultor do futuro?

José Manuel Fernandes – A agricultura portuguesa vai continuar a precisar da experiência, do conhecimento e da dedicação de quem trabalha a terra. Mas o agricultor do futuro será também um gestor cada vez mais preparado para tomar decisões com base em informação, tecnologia e inovação. Terá à sua disposição ferramentas digitais que lhe permitirão acompanhar as culturas em tempo real, utilizar a água e os restantes fatores de produção com maior eficiência, antecipar riscos e responder mais rapidamente às novas exigências do mercado e às condições climáticas. Será igualmente um agricultor mais qualificado, mais ligado às organizações de produtores, aos centros de investigação e aos serviços de aconselhamento, porque o conhecimento será um dos principais fatores de criação de valor na agricultura. O agricultor do futuro, naquele que é já o caminho visível da agricultura no presente, é alguém que olha para o futuro com confiança, que incorpora conhecimento sem perder a ligação à experiência e que encontra nas políticas públicas um parceiro para investir, inovar e continuar a criar riqueza em Portugal. Continuará a desempenhar um papel essencial na gestão do território, na preservação da biodiversidade e na produção de alimentos de qualidade. Hoje e amanhã ser agricultor é muito mais do que produzir; é garantir comida no prato, é ser sustento das comunidades, é ser guardião da floresta.  Para tudo isto, o agricultor precisa que o deixem trabalhar e que o Estado não seja um empecilho mas antes um “ombro” amigo que decide com celeridade procurando conciliar e compatibilizar competitividade, coesão e sustentabilidade ambiental.

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