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Agricultura quer drones e inteligência artificial, mas CAP alerta para travões europeus

A agricultura portuguesa está a entrar numa nova fase de modernização, impulsionada pela utilização crescente de sensores, inteligência artificial, novas técnicas genómicas e outras ferramentas de agricultura de precisão. No entanto, a adoção destas tecnologias continua condicionada por obstáculos regulamentares, custos elevados e problemas estruturais que, segundo Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores Portugueses (CAP) continuam a travar a competitividade do setor.

Embora o debate em torno da inteligência artificial tenha ganhado força nos últimos anos, o secretário-geral da CAP sublinha que muitas explorações agrícolas já utilizam sensores capazes de fornecer informação em tempo real sobre o estado das culturas, a humidade dos solos ou as necessidades de rega. São tecnologias que permitem reduzir desperdícios, aumentar a produtividade e apoiar decisões cada vez mais precisas.

Situação diferente vive a utilização de drones, considerada uma das ferramentas com maior potencial para a agricultura de precisão. Luís Mira explica que o conflito na Ucrânia acabou por alterar profundamente a forma como estes equipamentos passaram a ser encarados pelas autoridades europeias.

União Europeia foi penalizadora no uso de drones

“Os drones adquiriram um estatuto de arma de guerra”, afirma, lembrando que a legislação comunitária se tornou significativamente mais restritiva. Na sua opinião, essa realidade acabou por penalizar uma tecnologia que, no contexto agrícola, permite aplicar tratamentos de forma mais rápida, reduzir custos e aumentar a eficácia das operações.

O responsável considera que a União Europeia deve distinguir claramente a utilização militar da utilização agrícola destes equipamentos. “No campo os drones voam baixos e não há lá nenhum alvo para abater”, observa, defendendo que as regras devem ser adaptadas às necessidades específicas da atividade agrícola. Segundo Luís Mira, esta limitação não afeta apenas Portugal. Agricultores espanhóis, franceses, italianos ou finlandeses enfrentam exatamente os mesmos constrangimentos, razão pela qual diversas organizações agrícolas têm procurado sensibilizar Bruxelas para rever o enquadramento legal.

Outra das áreas onde identifica potencial de evolução prende-se com as Novas Técnicas Genómicas (NGT). Ao contrário da perceção que durante anos existiu em torno dos organismos geneticamente modificados, considera que esta nova geração de tecnologias representa uma evolução muito mais controlada e direcionada.

O objetivo passa por acelerar processos que a própria natureza acabaria por realizar ao longo de centenas ou milhares de anos, permitindo obter variedades agrícolas mais resistentes à seca, a doenças, a fungos e às alterações climáticas, reduzindo simultaneamente a necessidade de tratamentos fitossanitários.

Luís Mira entende que muitas decisões relacionadas com a agricultura continuam excessivamente condicionadas por posições ideológicas, quando deveriam assentar sobretudo no conhecimento científico e na inovação tecnológica. Apesar de reconhecer que a União Europeia possui os padrões mais elevados do mundo em matéria de segurança alimentar, proteção ambiental e defesa da biodiversidade, alerta para aquilo que considera uma evidente falta de coerência.

Enquanto impõe regras extremamente exigentes aos produtores europeus, continua a permitir a entrada de produtos agrícolas provenientes de países onde essas mesmas exigências não existem. Não podemos proibir determinadas técnicas aos agricultores europeus e depois importar produtos produzidos com esses mesmos métodos. Isso mata a agricultura europeia”, afirma.

Acordos comerciais devem permitir que agricultores europeus não fiquem em desvantagem

Na sua perspetiva, os acordos comerciais internacionais devem garantir verdadeiras condições de reciprocidade. Mais do que controlar apenas o produto final, considera essencial verificar também os métodos utilizados durante a produção, assegurando que os agricultores europeus não ficam em desvantagem competitiva.

Embora reconheça que a utilização de tecnologia, inteligência artificial e equipamentos de precisão torna o setor mais apelativo para os jovens, considera que esse fator, por si só, não chega. “O problema da renovação tem a ver com a rentabilidade das explorações”, afirma, lembrando que muitas propriedades continuam demasiado pequenas para garantir um rendimento compatível com as expectativas das novas gerações.

A dificuldade de acesso à terra constitui outro entrave importante. Como o solo agrícola é um recurso limitado e cada vez mais valorizado, Luís Mira entende que as políticas públicas devem privilegiar a continuidade das explorações familiares, facilitando a sucessão entre gerações e criando condições para que os jovens possam permanecer na atividade agrícola.

Para o responsável, o futuro da agricultura portuguesa dependerá da capacidade de conciliar inovação, conhecimento científico, sustentabilidade ambiental e viabilidade económica. Só esse equilíbrio permitirá responder aos desafios das alterações climáticas, aumentar a competitividade do setor e garantir que as novas gerações continuam a olhar para a agricultura como uma atividade com futuro.

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