Irene Lisboa é o ponto de partida, mas não será o ponto de chegada. A recém-criada Alma Nova – Associação Irene Lisboa quer recuperar e divulgar a obra e o pensamento da escritora nascida no concelho de Arruda dos Vinhos, aproximando-os da população, das escolas e das novas gerações. O projeto pretende ainda abrir espaço à literatura, à educação, à cidadania e à preservação da memória local.
À frente da associação está Catarina Gaspar, acompanhada, entre outros, por Jorge da Cunha e Paulo Câmara, nomes que têm participado na apresentação pública do projeto. Jorge da Cunha desenvolve atualmente trabalho académico sobre Irene Lisboa, numa associação que quer estabelecer uma ponte entre a investigação e a comunidade.
“A Alma Nova pretende, sobretudo, ser uma casa de cultura aberta”, explica Catarina Gaspar. Irene Lisboa é a grande inspiração, mas a intenção não passa por conservar uma memória estática da autora. “Nasce da vontade de algumas pessoas de que a memória dela continue, mas não uma memória morta. Uma memória viva.” Para Catarina, a capacidade de observação da escritora continua particularmente atual: “Irene Lisboa observava muito o quotidiano e nós estamos a precisar disso, de parar e observar aquilo que temos à nossa volta.”
Até o nome da associação nasceu da sua obra. A inspiração encontra-se no poema “Nova, nova, nova, nova!”, no qual Irene Lisboa escreve: “Queria ter uma alma nova. / Decidida, capaz de tudo ousar.” Para Catarina Gaspar, essa ideia traduz também o espírito do novo projeto: “Trazer para o nosso quotidiano uma alma nova, uma maneira nova e diferente de ver as coisas. Precisamos cada vez mais de almas novas, boas, inspiradoras.”
A associação assume a cultura e a educação como instrumentos de aproximação entre pessoas e gerações. “A cultura não pergunta se você é pobre ou rico, se é muito ou pouco literado, se é velho ou novo”, sustenta Catarina, que afasta a ideia de um projeto dirigido a uma elite intelectual. A ambição é precisamente chegar a públicos que permanecem afastados da obra da escritora. “A academia nunca faltou a Irene Lisboa. O que faltou a Irene Lisboa foi o povo que ela queria que a lesse. As pessoas comuns que queria que a lessem.”
Um dos objetivos passa, por isso, pelo relançamento da sua obra. Catarina refere ainda a existência de inéditos e o trabalho desenvolvido por investigadores nesta área. A Alma Nova pretende colaborar na divulgação desses materiais e, simultaneamente, aproximar Irene Lisboa das escolas e da população de Arruda dos Vinhos. “Irene Lisboa é nossa. E, por incrível que pareça, muitos arrudenses não sabem quem ela é”, afirma.
Mas a associação não pretende viver exclusivamente em torno da escritora. Outros autores, poesia, educação, escola e temas da atualidade deverão integrar a programação. Também a memória oral do concelho surge entre as preocupações. A intenção é ouvir os mais velhos, recolher histórias e aproximá-las das novas gerações. “Queremos preservar as memórias daqueles que vão morrendo e cujas memórias vão com eles. São nossas, são a nossa identidade.”
Os primeiros projetos já estão calendarizados. A 2 de outubro está previsto um serão de poesia, tendo Irene Lisboa como fio condutor, mas abrindo a iniciativa a outros autores. Em dezembro deverá realizar-se um café literário, pensado num formato informal, durante um jantar, com poesia e textos a surgirem à mesa. “Temos de reinventar o diálogo, reinventar a imagem da Irene”, defende Catarina, lembrando também uma faceta menos conhecida da escritora: “Irene Lisboa tinha um sentido de humor extraordinário. A ironia era uma ferramenta dela.”
Abril deverá trazer iniciativas relacionadas com educação, democracia e liberdade. “Irene não viveu o 25 de Abril, mas trabalhou muito, sem saber, para o 25 de Abril. Foi uma mulher da liberdade”, considera Catarina Gaspar. A associação está também a procurar estabelecer parcerias com instituições de ensino e outras entidades culturais.
A Alma Nova dispõe já de sede no Beco Torto, em Arruda dos Vinhos, num espaço cedido por dois beneméritos. A quota para os futuros associados será de um euro por mês, 12 euros por ano, e a direção pretende procurar financiamento através de candidaturas e parcerias. Catarina prefere, contudo, um crescimento gradual: “Vamos fazendo o nosso caminho sem pressa, sem atropelamentos.”
No fundo, a Alma Nova quer que Irene Lisboa deixe de ser apenas um nome ligado à história cultural do concelho e volte a provocar curiosidade, leitura e pensamento. Quase um século depois de a escritora desejar uma “alma nova”, é essa expressão que agora dá nome a uma associação que pretende fazer da sua memória matéria do presente.




