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O antigo Cine-Teatro de Vila Franca ainda vive na memória de quem encheu a sua plateia

Durante décadas, o Cine-Teatro de Vila Franca de Xira foi muito mais do que uma sala onde se projetavam filmes. Com uma plateia de 736 lugares, o edifício que existiu antes do atual espaço comercial foi palco de cinema, teatro, concertos e encontros que marcaram sucessivas gerações de vila-franquenses.

Uma notícia publicada pelo Valor Local e posteriormente partilhada na página do jornal no Facebook, recuperando a história e uma imagem do antigo Cine-Teatro, provocou uma verdadeira viagem coletiva ao passado. A publicação gerou dezenas de comentários de leitores que passaram pela sala e que fizeram questão de deixar registadas as suas memórias.

São testemunhos pessoais e, por isso, não pretendem substituir a história documental do edifício. Mas ajudam a perceber algo que fotografias, datas ou a capacidade de uma plateia dificilmente conseguem transmitir: a importância que o Cine-Teatro teve na vida quotidiana da cidade e a relação afetiva que ainda hoje existe com aquele espaço.

Para muitos leitores do Valor Local, foi ali que aconteceu o primeiro encontro com o grande ecrã. Anabela Bastos, por exemplo, escreveu na nossa caixa de comentários que o primeiro filme que viu na vida foi “Dr. Jivago”. João Dias, outro dos internautas, guarda uma memória de outra geração: “Foi onde vi o meu primeiro filme Star Wars, entre outros”. Mais cidadãos passaram pelo Facebook que dava conta da notícia: Cavaco José Luís lembra-se de “Tubarão” como o seu primeiro filme, enquanto Ricardo Espada recorda as muitas vezes em que ali foi ver Bruce Lee.

Outros não apontam um filme específico porque a memória é sobretudo a de uma rotina. Orlando Levezinho conta que começou a frequentar a sala a partir dos oito anos e que ali viu alguns dos melhores filmes da sua vida. Paulo Pinhão Graça lembra as idas ao Cine-Teatro com o pai. Ana Sousa Jardim resume em três palavras uma relação que muitos vilafranquenses parecem ter mantido com a sala: “Ia todas as semanas!”

Há também quem associe o espaço à família e até ao trabalho. Vítor Félix Baptista recorda que viu ali muitos filmes e acrescenta um pormenor pessoal: O pai trabalhava no bar da Geral. São estas pequenas referências que mostram como o Cine-Teatro se cruzava com diferentes dimensões da vida local, muito para lá das sessões anunciadas nos cartazes.

E nem só de cinema se fazia aquela sala. Fernanda Marujo recorda as sessões do Cineclube, enquanto Rodrigo Morais traz à memória os concertos, citando Tantra e a Grou Graal Blues Band. Matilde Gaspar lembra que viu naquele palco “alguns teatros”, reforçando a imagem de um equipamento cultural que desempenhava funções muito mais amplas do que as de uma simples sala de projeção.

Também o café/bar ficou na memória. Afonso Costa recorda-o como “um ponto de encontro”, uma expressão particularmente reveladora da função social que estes espaços desempenhavam numa época em que ir ao cinema não começava necessariamente quando as luzes da sala se apagavam, nem terminava quando apareciam os créditos finais.

Até a envolvente permanece nas recordações. Luís da Costa lembra que, nas traseiras do cinema, existia uma grande garagem de autocarros. Outros leitores olham sobretudo para a fotografia do edifício e lamentam o desaparecimento de uma arquitetura que consideram marcante. Paulo Alexandre descreve-o como “um bom exemplo da arquitetura moderna” e considera que, devidamente preservado, poderia ser hoje uma referência da arquitetura portuguesa.

A sucessão de comentários à publicação do Valor Local acaba por formar um pequeno arquivo espontâneo de memórias. Uns lembram os filmes, outros os concertos, o Cineclube, o bar, os domingos, as idas com os pais ou simplesmente a sensação de entrar naquela grande sala. Há títulos que atravessaram gerações, mas também lembranças aparentemente banais que, décadas depois, ganharam outro significado.

E entre praticamente todas essas recordações existe um denominador comum: a saudade. “Fui muito feliz nesse cinema”, escreve António Manso. Maria Carolina Nascimento fala em “ricas memórias”. Matilde Gaspar recorda “tempos que não voltam mais”. Adília Bértolo deixa “saudade dos filmes que se assistia aí”, enquanto Irene Henriques simplesmente conta que foi “muitas vezes ao cinema”.

Há, porém, uma segunda emoção presente nos comentários: a tristeza perante aquilo em que se transformou um lugar tão marcante para tantas pessoas. Fernando Roque contrapõe as antigas matinés de domingo ao estado atual do espaço. E Clara Valentim sintetiza esse sentimento numa frase curta: “É uma tristeza ver tudo ao desprezo.”

Talvez seja essa a conclusão mais evidente das dezenas de reações que chegaram através do Facebook do Valor Local. O antigo Cine-Teatro desapareceu da vida cultural de Vila Franca de Xira, mas não desapareceu da memória da cidade.

Décadas depois, continua a existir numa espécie de enorme sala de projeção coletiva: nas lembranças de quem lá entrou pela mão dos pais, de quem viu ali o primeiro filme, de quem frequentou o Cineclube, assistiu a concertos, passou pelo café ou marcou encontro à porta. Mudou o edifício, mudou a cidade e mudaram os hábitos. Mas, para muitos vila-franquenses, aquela plateia de 736 lugares continua cheia.

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