As escolas são hoje um dos primeiros lugares onde se encontra a diversidade de um território. E essa realidade também chega à mesa. Nos refeitórios escolares, crianças e jovens de diferentes nacionalidades, religiões e hábitos alimentares partilham diariamente o mesmo espaço, obrigando as escolas a encontrar respostas para novas necessidades e, ao mesmo tempo, criando oportunidades de integração.
O Valor Local foi perceber como esta diversidade se vive à hora do almoço, ouvindo alunos, e responsáveis escolares Entre adaptações de ementas, descoberta de novos sabores e diferenças culturais, a comida revela-se também uma forma simples e muito concreta de aproximar quem chega de quem já cá estava.
Ao almoço, Khushi Patel está em Portugal. Ao jantar, de certa forma, regressa à Índia. Pelo meio há cinco anos de vida portuguesa, uma passagem pela Alemanha, uma religião que lhe dita aquilo que pode ou não pode comer e uma escola que teve de aprender que integrar também pode significar mudar aquilo que chega ao prato.
Khushi tem 15 anos e fala das diferenças com a naturalidade de quem já construiu uma pequena geografia pessoal feita de três países. Quando chegou a Portugal, a comida foi uma das mudanças que imediatamente sentiu. Na Índia, explica, há mais sabores, mais ingredientes e mais especiarias. A comida portuguesa pareceu-lhe diferente. “Aqui eu encontro a comida com menos sabor, só que eu prefiro este tipo de comida”, conta, surpreendendo até pela conclusão. Antes de Portugal já tinha vivido na Alemanha e, portanto, a adaptação gastronómica começara antes de chegar a Manique do Intendente.
Em casa, porém, continua a comer comida indiana. E é assim que um simples dia de aulas pode transportar Khushi entre duas cozinhas e duas culturas: almoça na escola, com sabores portugueses, e janta em casa, à maneira indiana. Perguntamos-lhe se é bom viver entre esses dois mundos. A resposta não precisa de elaboração: “É muito bom.”
Há, contudo, limites que não se atravessam. Khushi não come carne nem peixe por motivos religiosos. No refeitório da escola, a solução passou pela alternativa vegetariana. E é aí que aparece outra personagem desta história: Fátima Gomes, uma das cozinheiras e presença acarinhada pelos alunos. Quando perguntamos a Khushi qual é o seu prato preferido, ela não se limita a identificar a comida. Identifica também quem a prepara: “Eu acho que é um hambúrguer vegetariano que a Dona Fátima faz com massa ou arroz.”Talvez a inclusão se explique melhor assim do que através de grandes conceitos. Às vezes começa simplesmente numa cozinha, com alguém que percebe que o mesmo prato não serve necessariamente todos os alunos.

No Agrupamento de Escolas de Manique do Intendente/Alcoentre, essa aprendizagem começou a ganhar outra dimensão a partir de 2020. A diretora, Helena Vinagre, recorda que a chegada de alunos de várias nacionalidades obrigou a escola a adaptar-se. Atualmente, segundo a responsável, o agrupamento tem 50 alunos estrangeiros. Os brasileiros constituem o grupo mais numeroso, mas há também alunos indianos, argentinos, venezuelanos e de outros países europeus. Só na escola de Manique estudam três alunos indianos.
A resposta não passou por criar uma espécie de restaurante internacional dentro da escola. Foi sendo construída entre aquilo que a cozinha consegue fazer e aquilo de que cada aluno necessita. Além da refeição normal, existe a opção vegetariana. A escola foi falando com a empresa responsável pelas refeições, através da Câmara Municipal, e procurando soluções com o apoio técnico da nutricionista e da área de engenharia alimentar. Mas houve outro elemento fundamental: perguntar aos próprios alunos. “Vamos sempre ouvir os nossos alunos, consoante aquilo de que eles gostam mais ou a que estão mais habituados”, explica Helena Vinagre. O objetivo, acrescenta, é encontrar um equilíbrio nutricional e evitar que uma criança, por razões culturais ou religiosas, acabe por ficar limitada à sopa ou a uma parte da refeição. Essa atenção estendeu-se também aos lanches.
À mesma mesa está Iyad Jad Terny. Tem 12 anos, fará 13, nasceu em Portugal e é filho de pais marroquinos. Ao contrário de Khushi, não teve de descobrir Portugal quando chegou à escola: Portugal sempre foi a sua casa. Marrocos faz parte da outra metade da sua experiência familiar, das férias e também da comida preparada pela mãe. E Iyad tem uma preferência que provavelmente não entraria nas apostas para o almoço favorito de um rapaz de 12 anos: gosta de douradinhos, mas também de bacalhau. Cozido. “Gosto”, confirma sem hesitar quando manifestamos alguma surpresa.
Com a carne, a situação é diferente. Iyad é muçulmano e só pode consumir carne halal, preparada de acordo com os preceitos da sua religião. Por isso, na escola, acaba por escolher outras opções, embora coma normalmente carne em casa. E é quando fala da cozinha marroquina que o vocabulário muda para os sabores.
“Lá tem mais sabores, mais paladar, e diferentes tipos de comida”, explica. A base até pode ser semelhante, batatas, carne, legumes, mas uma especiaria a mais ou uma combinação diferente transforma o resultado. Em casa, a mãe mantém os pratos marroquinos e Iyad não hesita quando chega a hora de recomendar um aos portugueses: tajine, com carne, legumes e molho. “É muito bom.”
As restrições religiosas não desapareceram com os anos passados em Portugal. No caso de Khushi, nem sequer um acidente gastronómico conseguiu quebrá-las. Um dia, no bar, deram-lhe inadvertidamente um pão com fiambre. Começou a comê-lo sem perceber o que tinha acontecido. Quando se apercebeu, conta, foi imediatamente à casa de banho e cuspiu o que tinha na boca. “Sabia muito mal”, recorda. Não é apenas uma questão de gostar ou não gostar. É uma fronteira estabelecida pela sua crença e que continua presente na sua vida. É precisamente perante fronteiras como esta que a escola teve de encontrar soluções. E a integração não termina na escolha entre o prato convencional e o vegetariano.
Helena Vinagre sublinha também a dimensão social do acolhimento. Há famílias que chegam a Portugal sem conseguirem imediatamente trabalho ou sem terem ainda acesso aos apoios a que poderão vir a ter direito. Nesses casos, diz, o agrupamento procura assegurar refeições ou lanches aos alunos que deles necessitam. “Tentamos sempre salvaguardar o interesse e o bem-estar das crianças.”
O refeitório onde decorre a conversa ajuda a perceber a dimensão dessa tarefa. Passam por ali diariamente cerca de 220 a 230 refeições, do primeiro ciclo ao 9.º ano, num serviço que se prolonga desde o meio-dia até perto das duas da tarde. É um espaço de passagem, mas também um dos lugares onde diferenças culturais que parecem abstratas fora dos portões da escola se tornam muito concretas.
Carne, peixe, especiarias, religião, hábitos trazidos de casa. E, do outro lado do balcão, pessoas como Fátima Gomes e as restantes cozinheiras, que transformam decisões e ementas em refeições. Iyad faz questão de lhes deixar um agradecimento sem que ninguém lho peça: “A comida é boa e eu aproveito.” Depois agradece “muito ao trabalho das cozinheiras” e ao trabalho desenvolvido pela escola ao longo dos últimos anos. Há colegas que não gostam de tudo, reconhece. Ele gosta.
Talvez seja essa normalidade o resultado mais interessante de todo o processo. Khushi chegou de fora. Helena Vinagre lembra-se dela ainda no primeiro ciclo e acompanha a evolução de uma aluna que teve também de aprender uma nova língua. Hoje, considera que a adaptação foi muito positiva. E faz questão de alargar o mérito: quando fala em acolhimento, diz, não está a falar apenas de professores e funcionários. “Falo da comunidade, toda a comunidade”, incluindo os próprios colegas.
Khushi confirma-o pela sua própria experiência. Tem primos e amigos que também vieram da Índia e passaram pela escola. “Habituaram-se logo”, conta. Quando lhe perguntamos o que mudaria para facilitar a vida aos alunos estrangeiros que chegarem no futuro, responde que a escola “já está muito boa para os alunos que vêm de fora”. Iyad vai ainda mais longe: “Não mudaria nada, sinceramente.” Diz que foi bem recebido, que os pedidos dos alunos são ouvidos e resume tudo numa frase de adolescente que dispensa linguagem institucional: “É o clássico, mas é perfeito.”
No futuro, os caminhos dos dois podem voltar a separar-se. Khushi imagina-se em Portugal, embora queira regressar à Índia nas férias. Iyad ainda não sabe onde estará. Aos 12 anos, tem tempo para decidir e, por enquanto, ainda põe a hipótese de ser jogador de futebol.
Até lá, encontram-se todos os dias numa escola de Manique do Intendente. Uma traz a Índia e uma passagem pela Alemanha. O outro traz Marrocos através da família, da língua, das férias e do tajine da mãe. A escola acrescenta-lhes Portugal. E, à hora do almoço, há uma mesa onde tudo isso cabe.
Escola retirou os telemóveis há três anos e alunos “voltaram a brincar”
Muito antes de a utilização dos telemóveis nas escolas se tornar um dos temas centrais do debate sobre o novo ano letivo, o Agrupamento de Escolas de Manique do Intendente/Alcoentre já tinha decidido afastá-los dos intervalos. A medida foi adotada há três anos e, segundo a diretora, Helena Vinagre, trouxe mudanças visíveis ao quotidiano dos alunos.
Quem leva telemóvel para a escola coloca-o numa caixa à chegada e só volta a recebê-lo no final do dia. A decisão surgiu por proposta dos órgãos do agrupamento e teve, segundo a responsável, consequências na forma como os jovens ocupam os tempos livres.
“Tem sido uma mais-valia”, afirma Helena Vinagre. A diretora diz que os alunos “aprenderam a partilhar, aprenderam a brincar, voltaram a brincar” e passaram a desenvolver outras dinâmicas durante os intervalos. A escola reforçou, entretanto, a disponibilidade de jogos de tabuleiro e outros equipamentos, com o xadrez e as damas entre as opções que conquistaram os alunos.
A decisão teve também uma razão disciplinar. Helena Vinagre recorda a existência de problemas durante os intervalos e períodos de almoço relacionados, nomeadamente, com grupos de WhatsApp e redes sociais, sobretudo entre os alunos mais novos. Atualmente, quando é necessário utilizar tecnologia para atividades pedagógicas, o agrupamento dispõe de duas salas equipadas e os alunos recorrem aos computadores.
Khushi Patel, de 15 anos, garante que o telefone não lhe faz grande falta durante o dia. “Tenho as minhas amigas e elas estão sempre comigo, podemos falar mais agora, já que não temos os telemóveis na escola”, conta. Iyad Jad Terny, de 12 anos, vai mais longe. Normalmente nem leva o telemóvel para a escola e diz utilizá-lo sobretudo ao sábado. Para os trabalhos escolares prefere o computador.
Três anos depois da entrada em vigor da medida, Helena Vinagre faz um balanço positivo. “Até hoje está a correr muito bem”, garante.
Ano letivo arranca com todos os professores colocados, mas faltam auxiliares
O novo ano letivo arrancou sem falta de professores no Agrupamento de Escolas de Manique do Intendente/Alcoentre. A principal dificuldade está no pessoal não docente, onde a direção admite necessitar de mais recursos humanos.
“Os professores estão todos colocados”, garante a diretora, Helena Vinagre, afastando um dos problemas que têm marcado o início das aulas em vários anos. A falta de pessoal não docente não colocou, contudo, em causa o arranque do ano letivo no agrupamento.
As turmas também não estão lotadas e a escola continua a receber inscrições. Só na véspera da entrevista tinham chegado cinco novos alunos. O agrupamento registou, de resto, um crescimento significativo, passando de cerca de 360 para 420 alunos. “Estamos a acolher muitos alunos de fora, o que é bom. Muitas culturas, outra realidade. Isto também nos faz crescer e adaptar”, salienta Helena Vinagre.
O maior constrangimento continua a ser a localização e a falta de transportes. Segundo a diretora, a situação chegou recentemente a ter consequências no recrutamento. Uma professora que concorreu a uma contratação de escola acabou por denunciar o contrato quando percebeu as dificuldades existentes para chegar ao estabelecimento através de transportes públicos.
A questão esteve também na origem da alteração da designação do agrupamento. Helena Vinagre explica que a anterior referência a “Alto Azambuja” levava alguns docentes de fora da região a pensar que a escola ficava próxima da sede do concelho e, consequentemente, da estação ferroviária. A designação passou para Agrupamento de Escolas de Manique do Intendente/Alcoentre precisamente para tornar mais clara a localização dos estabelecimentos.
Além dos transportes, a diretora aponta a reduzida oferta local nas áreas da cultura e do desporto como outra dificuldade para os jovens, que acabam por se deslocar a localidades como Cartaxo, Rio Maior ou Aveiras para desenvolver algumas dessas atividades.

Do arroz com feijão ao caldo verde: Aysha aprendeu novos sabores na escola
Quando chegou a Portugal, em 2023, Aysha Cordeiro tinha apenas cinco anos e trazia consigo os hábitos alimentares de uma infância passada no Brasil. Três anos depois, já no 3.º ano, a adaptação à escola portuguesa também se conta à mesa. E começou, curiosamente, pela sopa.
Filha de uma família brasileira que se fixou no concelho de Azambuja, Aysha estranhou inicialmente alguns dos alimentos servidos nas refeições escolares. “Ela não tinha o costume de comer, principalmente, o bacalhau”, recorda o pai, Alef Cordeiro. A sopa antes do prato principal também era uma novidade. No Brasil, explica, Alef, existe o hábito de comer sopa, mas sobretudo ao jantar e não como entrada ao almoço. A novidade, contudo, conquistou-a rapidamente. Entre as diferentes opções, o caldo verde tornou-se o preferido.
Mais difícil foi a relação com o bacalhau. Aysha estava pouco habituada ao peixe tão presente na alimentação portuguesa, mas também aí o tempo fez o seu trabalho. “Hoje eu comi tudo, eu comi o bacalhau todo”, chegava a anunciar aos pais quando regressava da escola. Atualmente já o come com maior facilidade, embora por vezes ainda deixe alguma coisa no prato quando considera a dose demasiado grande.
Há outros sabores que aproximam os dois países. O chili de carne servido na escola, por exemplo, faz lembrar à família a “carne moída” que também prepara em casa e é um dos pratos de que Aysha gosta. Mas as diferenças permanecem evidentes.
Uma das diferenças que mais surpreendeu a família está na própria composição do prato. Alef explica que, no Brasil, é habitual uma refeição juntar vários acompanhamentos, com arroz e feijão quase sempre presentes e, consoante a região ou o prato, outros elementos. Em Portugal, Aisha encontrou refeições escolares com uma organização diferente e uma presença muito menos frequente do feijão. Para a família, habituada a combinações alimentares distintas, também esta diferença fez parte do processo de adaptação aos hábitos portugueses.
Em casa, a família continua a cozinhar sobretudo à maneira brasileira. Na escola, Aysha foi conhecendo outros sabores. É precisamente por isso que Alef considera que poderia ser interessante introduzir pontualmente nas ementas pratos ligados às comunidades estrangeiras presentes no concelho. Não para substituir a alimentação portuguesa, mas para “mesclar”, permitindo que algumas crianças encontrem também à mesa sabores que reconhecem de casa e dos países de onde vieram.
A avaliação que a família faz das refeições escolares é, ainda assim, positiva. Alef destaca a presença de fruta, legumes, carne e peixe e diz não ter a perceção de uma alimentação assente em produtos processados. “No geral estamos satisfeitos”, resume.
A adaptação de Aysha não aconteceu apenas à mesa. No primeiro ano em Portugal, sentiu a falta dos amigos e da rotina que deixara no Brasil e estranhou particularmente passar o dia inteiro na escola, quando estava habituada a frequentá-la apenas durante uma parte do dia. Com o tempo, criou laços e a mudança deixou de pesar da mesma forma. “Nesta altura já está bastante acostumada”, conta o pai. Hoje, aos oito anos, Portugal, a escola, os amigos e até o caldo verde já fazem parte da sua vida.

Milhares de alunos sentam-se todos os dias à mesa nas escolas da região
Milhares de refeições são servidas diariamente nas escolas públicas dos concelhos de Vila Franca de Xira, Alenquer e Azambuja. Do pré-escolar ao ensino secundário, alimentar os alunos representa hoje uma operação de grande dimensão, que envolve câmaras municipais, agrupamentos de escolas, instituições sociais e empresas de restauração coletiva.
Vila Franca de Xira dá uma ideia da escala deste serviço. Para o ano letivo 2026/2027, a Câmara Municipal estima o fornecimento de 8.581 refeições por dia, às quais se juntam 1.168 lanches destinados a alunos abrangidos pelo escalão A da ação social escolar. O município prevê um investimento de 5,84 milhões de euros no serviço de refeições escolares.
Os números disponíveis permitem também perceber que o volume de almoços tem vindo a aumentar. No ano letivo 2024/2025 estavam previstos cerca de 8.300 almoços diários. Dois anos depois, a estimativa é superior em 281 refeições por dia, o equivalente a um crescimento de aproximadamente 3,4 por cento.
O modelo adotado em Vila Franca de Xira assenta em protocolos com Instituições Particulares de Solidariedade Social e com os agrupamentos de escolas e escola não agrupada, garantindo refeições aos diferentes níveis de ensino da rede pública. Parte da alimentação é confecionada em cozinhas existentes no concelho, sendo algumas refeições posteriormente transportadas a quente para outros estabelecimentos.
Em Azambuja, os dados municipais mais recentes permitem igualmente perceber a dimensão do serviço. Ao longo de 2025 foram contabilizadas 194.499 refeições: 101.276 no Agrupamento de Escolas de Azambuja, 46.553 em Vale Aveiras, 41.418 em Manique do Intendente e Alcoentre e 5.252 na Creche Municipal.
O concelho tinha 2.695 alunos no ano letivo 2025/2026, considerando a creche, pré-escolar, ensino básico e secundário, cursos profissionais e Educação e Formação de Adultos. A própria autarquia ressalva, contudo, que no terceiro trimestre de 2025 ficaram por contabilizar alguns dados relativos a ciclos de ensino do Agrupamento de Azambuja. Por essa razão, as 194.499 refeições não devem ser interpretadas como um retrato necessariamente completo de todo o ano.
No concelho de Azambuja, o fornecimento das refeições nos vários estabelecimentos é assegurado pela empresa Gertal, no âmbito da contratação realizada através da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo, existindo gestão direta no refeitório da Escola Secundária de Azambuja. Para o atual ano letivo, a Câmara voltou a adjudicar à empresa os serviços de confeção e fornecimento de refeições escolares, incluindo almoços, lanches e pequenos-almoços.
Também em Alenquer existe um serviço municipal de refeições escolares, nomeadamente no âmbito das respostas dirigidas ao pré-escolar e ao 1.º ciclo. Neste concelho, contudo, os dados públicos disponíveis não permitem ainda estabelecer uma comparação rigorosa do número global de refeições servidas com Vila Franca de Xira e Azambuja.
A comparação entre os três concelhos revela também que falar simplesmente em refeições “feitas na escola” ou “vindas de fora” pode esconder modelos bastante diferentes. Há cozinhas que produzem para o próprio estabelecimento, outras que abastecem várias escolas, parcerias com instituições locais e serviços adjudicados a empresas especializadas.
É precisamente essa realidade que o Valor Local está a analisar: onde é confecionada a comida servida aos alunos, quanto tempo e que distância percorre até chegar ao prato e que diferenças existem entre os modelos utilizados pelos municípios.
A evolução do número de refeições será outro dos indicadores em análise. Em Vila Franca de Xira, os dados já disponíveis apontam para um aumento dos almoços face a 2024/2025. Em Azambuja e Alenquer, uma comparação de vários anos exige ainda dados equivalentes, para evitar confrontar previsões contratuais com refeições efetivamente servidas.
Por detrás de cada almoço existe, afinal, uma cadeia que começa muito antes de os alunos entrarem no refeitório: compra de alimentos, confeção, controlo das ementas, transporte e distribuição. Multiplicada por milhares de crianças e jovens e por cerca de duas centenas de dias letivos, transforma a alimentação escolar num dos maiores serviços quotidianos assegurados na rede pública de ensino.
Carne, peixe ou vegetariano: o que chega ao prato dos alunos
O que comem os alunos que diariamente utilizam os refeitórios escolares? As ementas disponibilizadas pelos municípios mostram que a refeição vai muito além da tradicional escolha entre carne e peixe e que a alternativa vegetariana ganhou espaço na alimentação escolar.
Em Azambuja, as ementas gerais analisadas pelo Valor Local apresentam diariamente uma alternativa vegetariana ao prato convencional. Numa das semanas disponibilizadas pelo município, por exemplo, os cinco dias tinham opções como hambúrguer de grão e batata-doce, salteado de soja com lentilhas, tofu estufado, empadão de legumes e strogonoff de seitan e cogumelos.
Isto significa que, nesse período, a opção vegetariana estava disponível em 100 por cento dos dias, embora não permita concluir que represente uma percentagem semelhante das refeições efetivamente consumidas. Para conhecer a adesão seria necessário saber quantos alunos requisitaram cada uma das alternativas.
Na ementa convencional da mesma semana, três dos cinco pratos principais eram de carne e dois de peixe, correspondendo respetivamente a 60 e 40 por cento. A fruta foi a sobremesa em quatro dos cinco dias, sendo substituída num deles por gelatina. A sopa, os hortícolas e os acompanhamentos fazem igualmente parte da composição das refeições.
Vila Franca de Xira também disponibiliza uma ementa vegetariana, paralelamente à ementa geral. A opção deve ser comunicada pelos encarregados de educação através da plataforma SIGA. Estão igualmente previstas refeições adaptadas para alunos com alergias ou intolerâncias alimentares, situações clínicas devidamente justificadas e necessidades relacionadas com motivos religiosos.

Em Alenquer, as ementas escolares são igualmente disponibilizadas pelo município. A autarquia acrescenta à alimentação servida nos estabelecimentos um programa próprio de distribuição de fruta. Para além das crianças abrangidas pelo Regime de Fruta Escolar, o município alargou a distribuição de duas peças de fruta por semana ao pré-escolar, 2.º e 3.º ciclos e ensino secundário.
As ementas permitem, assim, conhecer aquilo que é colocado à disposição dos alunos. Já uma questão diferente permanece por responder: entre carne, peixe e vegetariano, o que escolhem efetivamente as crianças e os jovens? A existência diária de uma alternativa vegetariana não significa necessariamente uma elevada procura. Esse é um dado que apenas o número de refeições efetivamente requisitadas e servidas permitirá conhecer.´
Uma escola mais diversa também mudou o que chega ao prato
Uma escola com alunos de dezenas de nacionalidades obriga também a olhar de outra forma para o refeitório. Há crianças que não comem determinados alimentos por motivos religiosos, outras seguem uma alimentação vegetariana e há ainda alunos que necessitam de refeições específicas devido a alergias, intolerâncias ou outras condições clínicas.
Os números ajudam a perceber a dimensão da mudança. Segundo a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), no ano letivo 2022/2023 os alunos estrangeiros representavam 8,8 por cento das crianças no pré-escolar, 12,1 por cento dos alunos do ensino básico e 9,7 por cento dos estudantes do secundário em Portugal Continental.
Entre os alunos estrangeiros do ensino não superior, a nacionalidade brasileira destacava-se largamente, com 67.832 estudantes. Seguiam-se Angola, com 13.119, Ucrânia, com 6.675, Cabo Verde, com 6.020, São Tomé e Príncipe, com 5.862, e Guiné-Bissau, com 4.570. França, Espanha, Itália e Alemanha completavam as dez nacionalidades estrangeiras mais representadas.
Esta diversidade chega inevitavelmente à cantina. As normas nacionais para os refeitórios escolares determinam que podem ser disponibilizadas ementas alternativas quando existam motivos religiosos devidamente justificados. É uma possibilidade particularmente relevante em comunidades escolares onde convivem crianças provenientes de países, culturas e religiões diferentes.
A diversidade alimentar não se resume, contudo, à imigração. Desde 2017, as cantinas e refeitórios públicos, incluindo os escolares, estão obrigados a disponibilizar uma opção vegetariana. As orientações da Direção-Geral da Educação estabelecem igualmente critérios próprios para a composição dessas refeições, recomendando fontes de proteína vegetal, preferencialmente leguminosas, acompanhadas por cereais, tubérculos e produtos hortícolas.
A escola tem ainda de responder às necessidades dos alunos com alergias e intolerâncias alimentares. O objetivo das orientações nacionais é que a alimentação escolar seja nutricionalmente equilibrada, mas também adequada às características da população que frequenta cada estabelecimento.
A transformação demográfica das escolas portuguesas introduziu assim uma nova dimensão num serviço que durante décadas podia funcionar com uma ementa praticamente igual para todos. Carne ou peixe continuam a constituir a base das ementas convencionais, mas ao lado delas surgem hoje refeições vegetarianas e adaptações justificadas por razões clínicas ou religiosas.
É também à mesa que se encontra uma das faces menos visíveis da integração. Para uma criança que chega a Portugal vinda da Índia, Marrocos, Brasil ou de qualquer outro país, integrar-se na escola não tem necessariamente de significar abandonar hábitos alimentares que fazem parte da sua cultura ou da vida familiar.

A diversidade está cada vez mais presente nas escolas, mas como se adaptam os refeitórios?
Nas escolas de Vila Franca de Xira e Alenquer, com o aumento do número de alunos estrangeiros à mesa, o almoço é também um momento de encontro entre diferentes culturas e os refeitórios são chamados a responder a uma população escolar cada vez mais diversa. Entre sabores a que já estão habituados e outros que descobrem pela primeira vez, a adaptação à alimentação escolar portuguesa tem de existir, mas como? O desafio passa por garantir refeições equilibradas e adequadas às necessidades de cada aluno, sem deixar de responder à diversidade cada vez mais presente.
Em Vila Franca de Xira, no ano letivo anterior, de 2025/2026, frequentaram as escolas da rede pública do concelho 3182 alunos de nacionalidade estrangeira, provenientes de 64 países diferentes. “A crescente diversidade cultural da população escolar tem vindo a ser considerada na dinamização do Serviço de Refeições Escolares de iniciativas desenvolvidas em articulação com as escolas”, começa por explicar a vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Marina Tiago.
Um exemplo disso é a Semana da Multiculturalidade da Escola Secundária Gago Coutinho, que aconteceu este ano e onde estava disponível uma ementa que representava algumas nacionalidades presentes naquela escola. Além de trazer novos sabores de diferentes países, Marina Tiago refere ainda que a missão do município é diversificar e melhorar a oferta alimentar nas escolas. Por isso, no ano letivo de 2025/2026, foi ainda realizado um workshop de alimentação vegetariana. “Estas experiências enquadram-se numa visão mais ampla da alimentação escolar, assente numa alimentação Segura, Saudável, Sustentável e Saborosa.”
No entanto, estando a falar de uma alimentação que vá de encontro à cultura presente em mais de 60 países, o município de Vila Franca de Xira explica que “mais do que identificar alimentos ou pratos associados a determinadas comunidades, procura dar uma resposta adequada às necessidades específicas de cada aluno”. Isto, de forma a evitar generalizações de cada nacionalidade ou cultura.
Mas como isso é possível na prática? O município preparou um Documento Orientador do Serviço de Refeições Escolares que, no fundo, é um formulário que está disponível para os encarregados de educação sinalizarem a necessidade de uma dieta alternativa por motivos religiosos ou adaptação para uma alimentação vegetariana.
Nesse processo, também são trabalhadas alternativas para doces como arroz-doce, leite-creme e bolo vegetariano sem ovo e sem lactose. Estas mudanças “permitem simultaneamente responder a diferentes necessidades alimentares, incluindo determinadas alergias e intolerâncias”.
Apesar deste esforço, Marina Tiago explica ainda que o trabalho não está dado como concluído. “Os próximos anos deverão representar a consolidação e a evolução de um caminho que o município já iniciou.” E esse caminho deve ser feito ao conhecer os seus alunos e ir de encontro às suas necessidades.
Já em Alenquer, a realidade é semelhante. Apesar de não existirem números concretos, a vereadora, Cláudia Luís, explica que a diversidade cultural já faz parte do quotidiano das escolas, principalmente do Agrupamento do Carregado, que se assume como um dos casos onde essa realidade é mais evidente.
O mesmo acontece relativamente à alimentação, onde a vereadora explica que, embora não existam, para já, ementas específicas para cada nacionalidade, todos os alunos são tidos em consideração. “Tentamos adaptar a alimentação às necessidades de cada criança, respeitando a cultura e religião de cada um. Não fazemos uma ementa particular a cada país, mas respeitamos as necessidades de cada um”, salienta a vereadora.
À semelhança de Vila Franca de Xira, o processo começa no início de cada ano letivo, através de um formulário preenchido pelos encarregados de educação, onde são identificados os alimentos que a criança pode ou não consumir. Nesses casos, cada situação é depois analisada e, sempre que possível, a refeição é adaptada dentro da capacidade de produção do refeitório.
Cláudia Luís explica ainda que este é um processo que se assemelha aos casos de alergias, onde, às crianças que não podem consumir determinados alimentos, são fornecidas outras opções. O importante é que exista sempre o diálogo entre os encarregados de educação e a escola. “Nos últimos anos, a negociação com os pais sobre a alimentação tem sido tranquila.”
Apesar disso, a vereadora Cláudia Luís assume que, para o futuro, a solução deverá passar pela criação de ementas especiais para alunos de diferentes culturas. “Se calhar o caminho terá de ser esse. Várias ementas ao mesmo tempo, mas não é fácil.”
No entanto, esta não será uma solução fácil de aplicar. “Em termos logísticos é muito difícil. Temos centenas de refeições para confecionar ao longo do dia e este ano sentimos um aumento significativo de refeições nos alunos do secundário, por exemplo. Quantas mais exceções existem, maior a logística.”
Todo esse processo é também acompanhado pelas nutricionistas do município. “É para ser o mais equilibrado possível dentro da alimentação de cada um”, salienta a vereadora, que considera a presença das nutricionistas fundamental para a diversidade de necessidades que podem surgir no contexto escolar.
Apesar de não existirem ementas diferentes para cada cultura, Cláudia Luís explica ainda que há sempre iniciativas que procuram aproximar a comunidade. No ano passado, por exemplo, o Agrupamento do Carregado promoveu um dia multicultural onde cada aluno levou um prato que simbolizasse a sua cultura e partilhou-o com os seus colegas. “A alimentação é sem dúvida uma forma de integração.”
Para além destas ações, existe ainda o projeto “Crescer Saudável”, que leva às escolas atividades relacionadas com alimentação, com o objetivo de contribuir e sensibilizar as crianças para a importância de fazer escolhas saudáveis. “Esta acaba por ser uma abordagem mais geral, mas que qualquer aluno pode adaptar à sua realidade.”
Silvia Agostinho/Márcia Santos
Comer bem na escola: um investimento que começa no prato
Num dia normal de aulas, centenas de milhares de crianças portuguesas almoçam na escola. Para muitas, é a refeição mais completa do dia. Por isso, o que se serve nas cantinas tem consequências diretas na saúde, na aprendizagem e na relação das crianças com a comida.
Portugal tem uma tradição longa nesta matéria. Atualmente as autarquias passaram a ser responsáveis pela gestão do fornecimento de refeições escolares, o que explica porque a realidade varia de concelho para concelho: há municípios que gerem as cantinas diretamente e outros que contratam empresas de restauração coletiva.
Independentemente do tipo de gestão feita pelos municípios, as regras existem. As orientações da Direção-Geral da Educação definem como devem ser planeadas as ementas e há ferramentas de apoio ao planeamento e avaliação das refeições escolares. O nutricionista tem um papel central, não só na gestão das ementas escolares, como também na literacia alimentar de toda a comunidade escolar. Do lado da segurança alimentar, uma cantina escolar é uma unidade de produção de refeições como qualquer outra: exige sistemas de HACCP, boas práticas de higiene, controlo de alergénios e da rastreabilidade dos produtos.
Ainda assim, os números pedem atenção. Em 2022, quase um terço das crianças portuguesas entre os seis e os oito anos tinha excesso de peso (31,9%), das quais 13,5% com obesidade, e a tendência de melhoria que vinha desde 2008 inverteu-se com a pandemia. Uma boa ementa no papel não basta se o que chega ao tabuleiro, e o que a criança de facto come, ficar aquém.
Para os municípios, o caminho passa por alguns pontos concretos:
• Ementas planeadas e validadas por nutricionistas, ajustadas à sazonalidade e aos produtos locais.
• Cadernos de encargos exigentes nos contratos de fornecimento, com critérios de qualidade e não apenas de preço.
• Fiscalização regular das cozinhas e refeitórios, com o acompanhamento das famílias e das escolas.
• Combate ao desperdício, ajustando doses e envolvendo os alunos.
• Educação alimentar dentro e fora da sala de aula, para que a refeição também ensine.
Comer bem na escola não é um luxo nem um detalhe logístico. É uma decisão de saúde pública que se toma a nível local, todos os dias, em cada cozinha e em cada contrato. Os autarcas, as escolas e as famílias têm aqui um interesse comum: que as crianças cresçam com saúde e com uma relação positiva com a comida.
Diana Rosa, Especialista em segurança alimentar, qualidade e boas práticas.




