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“Memória d’Outrora” dá nova vida às histórias e tradições de Muge

Viajar ao passado é recontar histórias de vida e reviver tradições que fazem parte da identidade de um local. E é precisamente esta a premissa do projeto Memórias d’Outrora que aconteceu a 12 de setembro na Casa do Povo de Muge, através de um espetáculo “único” que combinou história, música e teatro.

E uma dessas vozes foi a de Gabriel Maria Rosa, de 86 anos, que é considerado o último oleiro de Muge. “Comecei aos 16 anos, com um tio meu em Alpiarça, mas foi aqui em Muge que iniciei esta atividade por contra própria”, começa por recordar. Nos últimos 40 anos, teve uma longa carreira junto do barro que lhe trouxe muitas alegrias. “Na altura, a olaria era muito valorizada. Só aqui em Muge existiam três oficinas a trabalhar e havia clientes para todos.”

Gabriel recorda os dias em que as peças que criava eram vendidas rapidamente. “Nunca vivi das encomendas. Fazia várias peças ao longo do dia e acabava por as vender. Na maioria das vezes nem chegavam, uma vez que a demanda era tanta.” No entanto, os costumes foram mudando e a olaria começou a ser deixada para trás. “Aos poucos foram todas fechando, até que fiquei apenas eu.” Por complicações de saúde, Gabriel, há cerca de 10 anos, foi obrigado a deixar a oficina, mas as saudades continuam. “Agora, no workshop (uma das programações desse dia) de olaria coloquei um pouco as mãos no barro e foi uma maravilha. É uma sensação indescritível.”

Dos tempos de aguadeiro à construção civil

Além da olaria, Muge também era movida pelo campo, por isso, o Valor Local conversou com um antigo aguadeiro, José Alcobia, de 70 anos. “Na altura, a Casa Cadaval empregava toda a gente da terra. Saíamos da escola com 12 ou 13 anos e íamos logo trabalhar para ajudar em casa. Tinha de ser. A vida era muito difícil”. A sua carreira começou nessa idade enquanto aguadeiro. “Levava às costas entre 16 a 17 litros de água. Os homens andavam pelo campo e sempre que gritavam por água, lá tinha de ir o aguadeiro”.

Mas não fazia apenas isso. José lembra-se ainda de acartar lenha para preparar o lume para os trabalhadores que precisavam para o almoço. “Também ia à adega. Aí já tinha uma bicicleta porque o meu irmão foi para África e deixou-ma. Era um barril para levar vinho e outro para a água.”

Com 15 anos, José deixou a vida de aguadeiro e começou a trabalhar no campo durante uns anos. “Na Casa Cadaval fazia-se de tudo, desde limpar as árvores, tratar do gado e até fui tirador de cortiça.” O rumo mudou aos 20 anos, quando se casou e deixou de lado a agricultura em busca de melhor salário. “O ordenado da agricultura era muito inferior ao das obras.” Pelas suas palavras é um orgulho poder dizer que só numa rua fez 8 casas em Muge, incluindo a sua e do seu filho.

Uma vida ligada à Casa Cadaval

Estivemos ainda à conversa com Emílio Lobo, antigo serralheiro de 85 anos e um nome intrínseco da Casa Cadaval, em Muge. “O meu avô foi encarregado da mata da Casa Cadaval, seguiu-se o meu pai e depois, também fui eu”, recorda.

“Tinha 12 anos quando comecei a trabalhar na mata, na altura com o meu pai. Limpávamos e serrávamos os pinheiros”, começa por contar. Quando o pai morreu, Emílio passou a ser o encarregado geral da mata da Casa Cadaval.

A maior parte da vida de Emílio foi na Casa Cadaval e por isso, o seu nome traz memórias. “É um prazer fazer parte desta história e até hoje, têm um carinho especial por mim”, explica Emílio.

Em todos os casos, a felicidade de poder partilhar as suas experiências e recordar memórias resultou num sim imediato ao convite de participar no projeto. E para Emílio é também uma forma de homenagear quem já cá não está. “Há coisas que gosto de recordar, sempre que possível. Já há pouca gente como eu por aí, porque a maior parte dessas pessoas já morreram.”

Dar voz a memórias que não estão nos livros

“Muitas das nossas histórias, tradições, saberes e formas de viver não estão escritas em livros ou documentos. Estão guardadas nas pessoas, nas famílias e nas memórias que foram passando de geração em geração”, começa por sublinhar a presidente da Câmara de Salvaterra de Magos, Helena Neves.

E é por isso, que na sua opinião, é tão importante existirem projetos com este propósito, que além da sua vertente de dinamização, permitem criar a ponte entre várias gerações. “Além disso, valorizam as pessoas mais velhas. Dá-lhes voz, reconhece aquilo que sabem e aquilo que viveram e mostra que as suas histórias continuam a ser importantes.”

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