Foi esta a imagem que José Luís Carneiro escolheu para a rentrée do PS, em resposta a Luís Montenegro, que tinha discursado no Pontal dois dias antes, enaltecendo os sucessos do seu Governo e queixando-se de uma dita “censura moderna” praticada pelos jornalistas sobre si. De facto, alguém tem mesmo que dizer ao Primeiro-Ministro que o rei vai nu, pois nada tem sido feito por parte do Governo para combater o aumento do custo de vida. Bem sei que estamos em pleno verão, o foco na atividade política reduz-se, as pessoas mudam o seu interesse para outros tópicos mais descontraídos e divertidos. Mas não deixa de ser surpreendente como o Primeiro-Ministro regressa de férias com um discurso completamente desfasado da realidade, baseado na mediocridade dos números, fazendo tábua rasa das dificuldades que os portugueses enfrentam e da perturbadora ausência de medidas que mitiguem o aumento do custo de vida.
Comecemos pelo crescimento económico. De facto, a nossa economia está a crescer acima da média europeia (1,9% vs 1,2%), porém a Europa está a ter um crescimento medíocre e crescer um pouquinho acima do medíocre não é propriamente motivo para nos sentirmos confortáveis. Estamos a perder competitividade externa, vivemos um clima de elevada incerteza internacional e temos uma economia que faz do turismo um dos seus principais motores. Ao mesmo tempo, o preço da habitação sobe (~17,8% em comparação a 2025), o cabaz alimentar essencial já vai em 254,32 €, a energia já vai em +8,7% em relação ao ano anterior e os serviços em +4%. O PS tem apresentado propostas ao Primeiro-Ministro para combater o aumento, porém viu-as recusadas: a) o IVA zero no cabaz alimentar essencial, que já se fez, já funcionou e já se sabe montar, porque os bens que ninguém pode deixar de comprar não deviam ser aqueles em que o Estado mais lucra quando encarecem; b) o IVA dos combustíveis, da eletricidade e do gás de 23% para 13%; c) a isenção de ISP no gasóleo agrícola, como apoio aos produtores de alimentos e d) um pacote de apoio às empresas de transporte, porque o custo do transporte entra no preço de tudo o resto, e não há combate à inflação que ignore os transportes. Tudo isto cerca de 0,4% do PIB, pouco menos que o excedente orçamental (0,7%) que o Governo obteve em 2025, sem sequer o ter previsto e que decidiu não devolver aos portugueses.
Como podem ver, a dificuldade e a incerteza são a antecâmara da discussão do Orçamento do Estado para 2027, cuja proposta só será conhecida em meados de outubro. Agora pergunto, perante tudo isto: o Governo vai apresentar um Orçamento que mereça passar? Nos últimos tempos tem circulado a ideia de que a estabilidade política é um dever da oposição. É uma inversão notável, pois o primeiro responsável pela estabilidade política é sempre quem governa. É responsabilidade do Governo apresentar um Orçamento “competente”.
Há quem acuse o PS de ambiguidade, de calculismo e de estar à procura de tempo. Mas José Luís Carneiro foi claro e colocou em cima da mesa as condições para a aprovação de um Orçamento: uma Revisão Constitucional só com o PS, uma Segurança Social intocável (fechando a porta à privatização), a conclusão do PRR (instrumento essencial de apoio à habitação, ao crescimento económico e à modernização do país), o apoio efetivo às Autarquias e às vítimas das tempestades (apoios que insistem em não chegar) e, acima de tudo, o desagravamento do custo de vida.
Olhe-se para esta lista com honestidade e diga-se: onde está o radicalismo nisto? É praticamente uma lista do essencial que qualquer governo social-democrata deveria cumprir. Mas este Governo vive atulhado de problemas: é exames nacionais perdidos, é os incêndios de 2025 (com os quais não aprendeu nada), é o caos na Saúde, é um Ministro da Administração Interna em check. Constantemente atrapalhado deixando pelo caminho as respostas aos problemas dos portugueses.
Um Orçamento “competente“, para usar a palavra de Carneiro, não é um Orçamento de esquerda nem de direita: é um Orçamento que devolve às famílias parte do que o Estado lhes tirou a mais quando a inflação subiu, que enfrenta a habitação pelo lado da oferta e que tapa os buracos do Serviço Nacional de Saúde. No conto, o rei só percebe que vai nu quando alguém diz em voz alta aquilo que toda a gente já via. Cá, quem tem dito em voz alta tem sido a fatura do supermercado ao fim do mês e a renda que não pára de subir. Montenegro pode voltar do Pontal a discursar sobre o país que gostava de ter, mas em outubro chega a proposta de Orçamento e aí não há retórica que vista ninguém. Ou o Governo desagrava o custo de vida de quem pagou o excedente, ou não terá razão de queixa quando o Parlamento lhe recusar o Orçamento. A estabilidade não se exige à oposição: ganha-se a governar.




