Com a época de incêndios rurais em pleno e milhares de proprietários ainda confrontados com dúvidas sobre a limpeza dos seus terrenos, uma plataforma portuguesa promete simplificar esse processo. Chama-se “A Minha Terra” e coloca o proprietário no centro da gestão do território, disponibilizando gratuitamente um mapa de suscetibilidade ao incêndio e uma lista personalizada de ações para cumprir as obrigações legais.
Criada pela Land OS, a plataforma nasceu da constatação de que, apesar de existir uma enorme quantidade de informação sobre gestão florestal, cadastro, legislação e ordenamento do território, essa informação continua dispersa e de difícil interpretação para o cidadão comum. O objetivo passa por reduzir essa distância, permitindo que qualquer proprietário compreenda rapidamente o que pode e deve fazer no seu terreno.
“Os proprietários são fundamentais para o futuro do território em Portugal, mas quase nada é construído à sua volta”, explica Alex Griekspoor, cofundador e diretor executivo da plataforma. A ideia passa por transformar informação técnica e legal em orientações simples, úteis e adaptadas à realidade de cada parcela.
Embora o combate aos incêndios seja atualmente um dos principais focos da plataforma, “A Minha Terra” pretende ser muito mais do que um mapa de risco. Através da mesma ferramenta, os proprietários podem esclarecer dúvidas sobre heranças, identificar terrenos, preparar processos de compra e venda ou encontrar formas mais sustentáveis de valorizar as suas propriedades.

Tecnologia lê o território em tempo real
Um dos aspetos diferenciadores do projeto é a forma como calcula a suscetibilidade ao incêndio. Ao contrário dos mapas estruturais tradicionalmente utilizados, que assentam sobretudo em fatores históricos e na probabilidade de ocorrência de incêndios ao longo dos anos, o sistema desenvolvido para a plataforma analisa as condições reais da paisagem naquele momento.
O modelo, desenvolvido em parceria com a empresa tecnológica MEJOR Technologies, utiliza aprendizagem automática para interpretar imagens de satélite com uma resolução de 10 metros, cruzando informação sobre o estado da vegetação, exposição do solo, altitude, declive, orientação solar, ocupação do território e proximidade de zonas habitadas e estradas. O resultado é uma classificação que procura refletir a suscetibilidade ao incêndio na época atual e não apenas uma tendência histórica.
Segundo os responsáveis, esta abordagem permite acompanhar as alterações provocadas pelas condições meteorológicas de cada ano. Depois de um inverno particularmente chuvoso, muitas zonas do país apresentam maior quantidade de vegetação e, consequentemente, maior acumulação de combustível disponível para alimentar um eventual incêndio.
Inteligência artificial apenas para facilitar a utilização
Apesar de recorrer a modelos de aprendizagem automática para interpretar os dados do território, os responsáveis fazem questão de esclarecer que as recomendações fornecidas aos proprietários não são geradas por inteligência artificial.
As ações propostas resultam diretamente da legislação atualmente em vigor sobre gestão de combustível. A tecnologia é utilizada apenas para interpretar a paisagem e para recolher, de forma simples, as informações necessárias junto do utilizador, traduzindo depois essas obrigações legais numa lista de tarefas específica para cada terreno.
Na prática, qualquer proprietário pode localizar a sua parcela e, em poucos minutos, obter uma lista personalizada indicando que vegetação deve ser removida, quais as distâncias de segurança junto a edifícios, acessos e restantes exigências legais aplicáveis.

Ferramenta gratuita pretende aumentar a prevenção
O acesso ao mapa de suscetibilidade ao incêndio e à lista de verificação é totalmente gratuito. A plataforma é financiada pela Land OS, empresa que desenvolve outros serviços ligados à gestão do território, mas que optou por disponibilizar gratuitamente esta funcionalidade por considerar que a prevenção dos incêndios é uma responsabilidade partilhada entre proprietários, municípios, empresas e Estado.
Segundo os promotores, o interesse pela ferramenta tem vindo a crescer de forma consistente. Mais do que o número de acessos, destacam o facto de muitos proprietários estarem a partilhar a plataforma entre vizinhos, contribuindo para uma maior sensibilização das comunidades rurais.
Vale do Tejo apresenta este ano condições acima do habitual
Os dados analisados pela plataforma indicam que várias freguesias dos concelhos de Alenquer, Azambuja, Benavente e Vila Franca de Xira apresentam, este ano, níveis de suscetibilidade superiores à respetiva referência estrutural de longo prazo.
Entre as freguesias onde essa diferença é mais acentuada encontram-se Ventosa, em Alenquer, Aveiras de Cima e Vale do Paraíso, no concelho de Azambuja, bem como Alcoentre e a União das Freguesias de Manique do Intendente, Vila Nova de São Pedro e Maçussa. Também Castanheira do Ribatejo e Cachoeiras surge entre os locais onde as condições atuais diferem significativamente da média histórica.
Os responsáveis alertam, contudo, para a necessidade de interpretar corretamente estes dados. Um terreno pode apresentar uma suscetibilidade elevada sem que isso represente uma situação excecional, tal como um terreno habitualmente considerado seguro pode apresentar este ano um agravamento significativo das condições devido ao crescimento da vegetação.
Conhecimento só faz sentido quando conduz à ação
Para os promotores da plataforma, disponibilizar informação não chega. O verdadeiro objetivo passa por ajudar os proprietários a agir antes que o risco se concretize.
A recomendação continua a ser simples: consultar o terreno, verificar as obrigações aplicáveis, proceder à limpeza dentro dos prazos legais e adotar comportamentos responsáveis durante todo o período crítico.
Os responsáveis recordam ainda que cerca de 98 por cento dos incêndios rurais em Portugal têm origem humana, razão pela qual a prevenção depende não apenas da limpeza dos terrenos, mas também da utilização cuidadosa de maquinaria, da realização de queimas e de todas as atividades suscetíveis de provocar ignições. A tecnologia pode ajudar a identificar o risco, mas continua a ser a intervenção das pessoas a fazer a diferença na proteção do território.




