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Tertúlias Móveis de Arruda: entre a tradição, e as novas gerações

As tertúlias móveis são uma das imagens de marca das Festas de Arruda dos Vinhos e estão hoje integradas num processo mais abrangente de candidatura das Festas em Honra de Nossa Senhora da Salvação ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. O caminho começou por ser diferente. Em 2018, o município apresentou uma candidatura centrada nas 11 tertúlias móveis então existentes, que reuniam mais de 1500 associados, e nos festejos taurinos. A proposta não avançou nesses moldes, tendo sido recomendado que o processo abrangesse o conjunto das festividades e não apenas esta manifestação específica.

A Câmara reformulou então a candidatura, passando a incluir as várias dimensões das Festas de Nossa Senhora da Salvação: tertúlias móveis e fixas, associativismo, cultura popular, religiosidade, rituais e restantes tradições associadas aos festejos. O novo processo deu um passo decisivo a 13 de janeiro de 2025, quando o município entregou formalmente no Património Cultural, em Lisboa, o processo de inventariação das Festas em Honra de Nossa Senhora da Salvação, tendo em vista o seu reconhecimento como Património Cultural Imaterial.

As tertúlias móveis permanecem, contudo, como um dos elementos mais distintivos da candidatura. A tradição surgiu em 1979 e desenvolveu-se sobretudo a partir das décadas seguintes, com antigos autocarros recuperados e adaptados a funcionarem como verdadeiras sedes móveis durante os dias de festa.

Neste momento, a candidatura deve por isso ser entendida como um processo de reconhecimento das Festas de Arruda no seu conjunto, dentro do qual as tertúlias móveis ocupam um lugar central, mas não isolado.

Tertúlia Burladero celebra 20 anos com o velho autocarro a caminho da despedida

A Tertúlia Burladero assinalou este ano duas décadas de existência durante as Festas de Arruda dos Vinhos, mantendo viva uma tradição feita de amizade, convívio e ligação à festa brava. José Barbosa, um dos elementos da direção, explicou ao Valor Local que a tertúlia nasceu há 20 anos a partir de um grupo de amigos e conhecidos unidos pelo gosto pela festa brava e pelo ambiente tertuliano.

“Começou com um grupo de amigos, de malta conhecida, que gosta da festa, da festa brava e da festa tertuliana”, recordou. O nome Burladero surgiu por causa do próprio autocarro que acompanha o grupo e que tem, na parte da frente, um burladero.

Ao longo destas duas décadas, a tertúlia foi mantendo várias atividades. Em Arruda dos Vinhos, a presença ganha especial força durante as festas de agosto, mas o grupo promove também outros momentos de convívio ao longo do ano, nomeadamente o jantar de Natal. A tertúlia conta ainda com uma barraca durante as festas, cuja receita ajuda a suportar despesas de manutenção e outras necessidades do grupo. O grande símbolo da Burladero continua, no entanto, a ser o autocarro. É precisamente em agosto que o velho veículo volta a sair para a rua e a ocupar o seu lugar no centro da vila.

José Barbosa explicou que o autocarro foi adquirido já em fim de vida útil e continua, apesar da idade, a circular. “Este ainda anda”, disse, entre sorrisos. O problema, confessou, é muitas vezes fazê-lo pegar. “Hoje foi um filme outra vez. O nosso objetivo é tê-lo a andar, mas o pegar é sempre a frase do dia”, contou.

O velho autocarro está, contudo, prestes a despedir-se. Segundo José Barbosa, este deverá ser o último ano do veículo ao serviço da tertúlia, estando prevista para o próximo ano a aquisição de um novo autocarro. A decisão traz alguma nostalgia, sobretudo porque o atual veículo acompanha há muitos anos a história do grupo. Mas as condições existentes já não são as melhores e a mudança tornou-se necessária, quer pelo espaço disponível, quer pelo conforto dos elementos da tertúlia. José Barbosa estima que o autocarro tenha já entre 40 e 50 anos.

O dirigente não pertence à Burladero desde a fundação. Entrou na tertúlia há cerca de 14 anos e integra a direção há aproximadamente quatro. Para as festas deste ano, o desejo era simples: bom ambiente, convívio e segurança. “O nosso autocarro é um dos primeiros da Rua de Baixo e esperamos um bom convívio, que ninguém se aleije, que é o mais importante, e que a malta esteja com boa energia e se divirta toda”, afirmou.

Ao longo de duas décadas não faltaram histórias, episódios caricatos e alguns sustos, mas José Barbosa garante que o touro, pelo menos até agora, praticamente não entrou no autocarro. Entre memórias, avarias, largadas e noites de festa, a Tertúlia Burladero chegou assim aos 20 anos mantendo intacto o espírito com que nasceu. “20 anos não são 20 dias”, resumiu José Barbosa.

Eduarda Sousa conta a história da tertúlia Afición

Tertúlia Afición celebra 25 anos e continua a atrair novas gerações

A Tertúlia Afición assinalou este ano 25 anos de presença nas Festas de Arruda dos Vinhos, numa altura em que as tertúlias móveis continuam a mostrar capacidade para atrair novas gerações e manter viva uma das tradições mais caráter “Isto começou com quatro pessoas, quatro senhoras, que pegaram numa tertúlia que ia acabar”, recordou.

A partir daí, o grupo foi crescendo e renovando-se ao longo dos anos, até chegar atualmente perto da centena de elementos. A ligação de Eduarda Sousa à tertúlia surgiu através da mãe, uma das pessoas que assumiu responsabilidades no grupo, mas a própria acompanha há muito a vida da Afición. Para si, aquilo que se construiu ao longo de um quarto de século vai muito além dos dias de festa. “É uma animação, é uma família que nós temos aqui”, resumiu, destacando o papel da tertúlia em tornar as Festas de Arruda ainda “mais divertidas e mais envolventes”.

Ao contrário do receio tantas vezes manifestado em relação ao afastamento dos mais jovens das tradições locais, na Afición acontece precisamente o contrário. Eduarda Sousa garante que a grande maioria dos elementos pertence hoje às gerações mais novas. “Temos muita, muita, muita malta jovem. Dos mais velhos sou eu e meia dúzia. O resto é tudo malta de 20 e 30 anos”, contou.

E a renovação acontece quase naturalmente. Os jovens entram, trazem as namoradas, casam e, mais tarde, chegam os filhos. Desta forma, a tertúlia vai-se transformando num espaço onde diferentes gerações convivem e onde a tradição passa de uns para os outros. O crescimento é de tal forma significativo que a própria capacidade física do autocarro começa a colocar limites. A Afición conta atualmente com quase 100 pessoas e continua a receber pedidos de quem gostaria de integrar o grupo. “Por vontade de muitos, tínhamos um autocarro com 200 tertulianos”, brincou Eduarda Sousa.

Embora a vida pública do grupo esteja muito concentrada nas festas de agosto, os preparativos começam vários meses antes. Por volta de maio inicia-se a organização dos almoços e de tudo aquilo que será necessário para os dias de festa. Em julho chega a altura de limpar, pintar e tratar do autocarro.

E é precisamente o autocarro que continua a dar algumas dores de cabeça. O atual veículo é já o quarto utilizado pela Tertúlia Afición e continua operacional, embora encontrar peças seja cada vez mais difícil. Nas subidas, confessou Eduarda Sousa, o condutor segue por vezes “com o coração nas mãos”, sem saber quando a máquina poderá decidir parar.

A mudança de autocarro deixa também sempre alguma nostalgia. Cada veículo acaba por ficar associado a anos de histórias, encontros e episódios que fazem parte da memória coletiva da tertúlia. Histórias não faltam nestes 25 anos, embora Eduarda Sousa tenha adotado a velha regra de que aquilo que acontece na festa fica na festa. “É como quando se vai para Ibiza: fica em Ibiza”, gracejou.

Ainda assim, acabou por recordar um episódio caricato ocorrido com o autocarro anterior. No exterior seguia pendurado um assador e, a certa altura, durante uma manobra do veículo, o grelhador acabou no chão. A consequência foi imediata: o almoço teve de esperar.

Para quem nasceu e cresceu em Arruda dos Vinhos e acompanha as festas desde sempre, Eduarda Sousa considera evidente o crescimento deste fenómeno. Há hoje mais autocarros, mais carrinhas e mais tertúlias do que há algumas décadas, numa dinâmica que, acredita, continuará a crescer.

A Tertúlia Aficion chega assim aos 25 anos com quase uma centena de elementos, muitas caras jovens e vontade de continuar. Um quarto de século depois, aquilo que começou com quatro mulheres que decidiram impedir o desaparecimento de uma tertúlia transformou-se numa verdadeira família de várias gerações, reunida todos os anos em torno das Festas de Arruda dos Vinhos.

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